8.1.14

O Teatro em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2013)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Extrato da comunicação feita pelo autor na apresentação do Festival Festovar 2013, no Auditório Manuel Ramos Costa, da Companhia de Teatro Contacto - Água Corrente, de Ovar, em 26 de outubro de 2013.

As Trupes Velha e Nova
Segundo o Almanaque de Ovar de 1916, em 1826 foi fundada a Sociedade Filo-Dramática de Ovar, dirigida pelo Juiz de Fora Dr. Vicente Nunes Cardoso. Porque muitos dos seus elementos seguiam as ideias liberais, depressa os mi­guelistas no poder lhes calaram a boca, obrigando muitos deles a emigrar.
O teatro voltaria após a vitória liberal, através de um grupo de­nominado Sociedade Dramática Ovarense, cujos estatutos foram reformados em 1859 pelo Dr. João Frederico Teixeira de Pinho, autor das “Memórias e Datas para a História de Ovar”[1].
Numa das suas saborosas cró­nicas “Saibam quantos…”, o Dr. Zagalo dos Santos diz-nos que, nessa época, nos intervalos das peças se intercalavam textos a partir dos camarotes, de onde até se lançavam pombas brancas em honra dos atores[2].
Chamava-se esta segunda so­ciedade a Trupe Nova, em oposição à mais antiga – a Trupe Velha –, e teve como principal obreiro o Padre Manuel Maria de Oliveira Baptista, homem de talento que, segundo o P.e Lírio, “começou a dedicar-se às coisas do teatro que em terras como a nossa não passam de agradável passatempo de gratas frioleiras”. Esta Trupe era composta por estudantes, seus colegas de Ovar e de fora.
Sobre este período escreveu o historiador João Frederico, fa­lecido em 1870: “Desde a época aludida, sempre o teatro esteve no mesmo lugar, e para dizer a verdade, sempre mesquinho, sem exterior, e mal colocado, e ainda assim está em risco de se perder, pelo descontentamento de muitos sócios dos mais conspícuos e de­dicados ao seu progresso. Deste modo, ninguém deve maravilhar­-se quando vir expiar às mãos do escuro pedantismo!”.

O Teatro Ovarense
O Teatro era de tal modo apre­ciado em Ovar que alguns dos atores decidiram criar uma sala condigna, deixando o armazém da companha do arrais Manuel Pinto, da Travessa dos Campos.
O principal obreiro desta ini­ciativa e ensaiador das sucessivas trupes foi o Padre Baptista, que residia no Largo de S. Pedro, onde foi construído o Teatro Ovarense, inaugurado em 31/10/1875 com o drama “Pedro”, de Mendes Leal, e a comédia “Casamento de Isidoro Vaqueiro”, sendo o P.e Baptista o contra-regra[3] e servindo de ponto o seu irmão P.e Francisco .


O velho Teatro Ovarense

Informa o Almanaque de 1913 que o pano de boca reproduzia a an­tiga fachada da Câmara Municipal, iniciada em 1786 e concluída em 1792, com arcada. (Há fotografia desse painel)[4].
Seguiram-se-lhe as trupes Fole e Gaita (1891) e Gaita e Fole (1899).

No século XX
No início do século XX foi prin­cipal expoente do teatro o vareiro António Dias Simões, que escreveu e ensaiou diversas peças, inclusiva­mente para crianças, dando prestígio ao Colégio Júlio Dinis[5].
O Cinema, que então dava os primeiros passos[6], vivia e com­petia com o Teatro, roubando-lhe aderentes e diminuindo as repre­sentações, algumas das quais feitas por companhias profissionais de Lisboa, que por aqui passavam nas suas digressões ao norte, aferindo, pela reação do público de Ovar, o sucesso ou o insucesso da peça no Porto.
Nos anos 40, outros grupos amadores encontraram no Teatro a forma de se cultivarem e de exer­cerem a sua cidadania, utilizando a cultura e o entretenimento ao serviço da comunidade. Tiveram especial expressão os grupos da Ação Católica e dos Escuteiros, através das suas récitas, com a colaboração artística de D. Amélia Simões e D. Zita Iglesias.
Em 1940-41 estava em ativi­dade o Centro Artístico e Cultural - CAO, tendo como encenador Ma­nuel Sílvio, como ensaiador João Gomes Pinto, e como coordenador o Maestro Francisco Nábia.

Teatro do Orfeão
Nos meados do século XX, o Orfeão teve um período de ouro na área teatral, particularmente no género de Revista, com atuações famosas em Lisboa e no Porto.

O fecho da peça “Pão de Ló de Ovar” (apoteose), no Coliseu dos Recreios de Lisboa,
levada à cena pelo Orfeão de Ovar, em 1950

Destacaram-se nesta época al­guns membros das famílias Iglésias e Dias Simões, e diversos atores e atrizes nas operetas “O Príncipe Perfeito” (1941) e “As Andori­nhas” (1942), nas revistas “Pão­-de-Ló de Ovar” (1949 em Ovar, e 1950 no Coliseu dos Recreios, de Lisboa), as operetas “Poço do Bispo” (1951), e “O Solar das Andorinhas” (1953, em Ovar e em Lisboa, no Variedades), a peça “As Pupilas do Senhor Reitor” (1952), e a comédia “Areias Douradas”, de Mário Almeida, “A Flor da Aldeia” e a comédia “Zazá” (1955), a ope­reta “Aqui Ovar” (1956 em Ovar no Variedades de Lisboa).

Água Corrente - Contacto
Mas falemos da Contacto, nasci­da em 1983, mas cuja gestação vinha acontecendo na pessoa de Manuel Ramos Costa, gestação que eu tive o privilégio de acompanhar de perto, desde que ele escreveu e levou à cena, anos antes, “O velho sobreiro”.
Sobre a primeira atuação da Companhia Água Corrente, es­creveu Mário Correia no “João Semana” de 1 de outubro de 1983:
“Com o pavilhão do Centro Paroquial praticamente cheio, apresentou-se em estreia, no pas­sado dia 24 de setembro, o Grupo de Teatro “Água corrente”, que levou ao palco a peça de Bernardo Santareno, “A Promessa”.
Espetáculo interessante e até mesmo agradável de seguir no con­texto do teatro amador, pecou, nal­gumas cenas mais comoventes, por interpretações menos conseguidas, provocando o riso dos espetadores em momentos menos adequados.
Notou-se neste trabalho, ence­nado por Manuel António Costa, com a colaboração de Alberto Lo­pes, uma evolução positiva, fruto da acumulação de vários anos de experiência. As encenações de “O velho sobreiro”, “A renúncia do Poverello” e “Fragatas sem cais”, peças escritas pelo próprio ence­nador, e agora “A promessa”, são prova evidente desse processo evo­lutivo de diálogo entre o homem e o palco, a realidade e a fantasia”. O texto regista ainda “a dedica­ção e o amor à causa do Teatro…” por parte de Ramos Costa.
Quinze dias depois, no texto “Actos de cultura - Água Corrente é teatro”, e depois de referir que, na altura, havia, em Ovar, os grupos GATO (JOC), GAC (Válega), “Os Algarismos”, do Poço de Baixo, o Clube Desportivo do Furadouro e a “Sem Margem”, Ramos Costa, tecendo comentários a Bernardo Santareno e à peça, afirmou que o Água Corrente “entrou no espaço cénico com o pé direito (…). Isto não obstante as quebras de ritmo na ação (cenas finais do 3.º ato), o demasiado realismo em certas cenas e a fragilidade emotiva de alguns figurantes, em momentos mais envolventes e dramáticos. (Os responsáveis pela encenação vie­ram a descobrir, de imediato, que as razões de algumas manifestações de riso, de gargalhadas, de apupos em momentos mais emotivos, eram provenientes de familiares e ami­gos dos atores, a quem achavam piada serem capazes de fazer o que faziam…”.
E acrescenta que na repetição do espetáculo, em 1/10, em favor dos reformados de Ovar, o ritmo de ação alcançara outra valência, embora tivesse ficado aquém do que será possível”[7].
Mas não é propriamente do Ramos Costa que se fala aqui. É da mais emblemática das obras que ele ajudou a criar, a Contacto, que há trinta anos se chamava Compa­nhia de Teatro Água Corrente, e que nasceu de um grupo de jovens dinâmicos e disciplinados, que ali tiveram a sua verdadeira escola.
As peças apresentadas nestes 30 anos, o número de intervenien­tes nelas, as terras visitadas, os prémios recolhidos a nível nacio­nal, a formação de jovens atores, e esta casa, atual sede da companhia, tudo isso nos fala de um verdadeiro património cultural de que Ovar se orgulha.
Por tudo isto, obrigado, Com­panhia Contacto!
E aqui, mais uma vez, temos de nos vergar perante a mestria do autor, do intérprete e do encenador, vetores, em que a competência de Ramos Costa tem sido agraciada com a atribuição de prémios a nível nacional.

“A Promessa”, pelo Mérito Dramático Avintense, com encenação de Manuel Ramos Costa,
no Centro de Arte (FESTOVAR 2013), em 26 de outubro

[FOTO: Paulo Homem de Melo] 
Como cereja no topo do bolo, aí está, em palco, o Festival FES­TOVAR 2013, com a sua multipli­cidade de temas, de técnicas e de experiências cénicas, numa oferta variada de emoções para adultos e para crianças.
Nos bastidores soam as panca­das de Molière.
Nós, os amigos do Teatro e da Contacto, estaremos, quanto possível, na plateia, atentos às palavras, aos gestos e ao coração de cada ator.

NOTAS
[1] “Memórias e Datas”, C. M. Ovar, 1959, pág. 110.
[2] “Saibam quantos”.
[3] Almanaque de Ovar, 1913, pág. 87-89.
[4] “Almanaque de Ovar”, 1916, págs. 168-174.
[5] O primeiro Colégio Júlio Dinis foi aberto por Dias Simões e Francis­co Matos, em 1911, para meninas, na Quinta da Devesa, na rua da Fonte (atual Alexandre Herculano, e o segundo, em 1912, para rapazes, no Largo de S. Pedro (ao lado da atual Escola dos Combatentes).
[6] O cinematógrafo “dos Bombei­ros” (no Teatro Ovarense) foi inau­gurado em 5/10/1912. (“A Pátria”, 3/10/1912), tendo em Júlio Neves um “eletricista exímio”.
[7] “João Semana”, de 15/10/1983.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 novembro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/o-teatro-em-ovar.html

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