30.1.14

O “Ida e Volta”

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2004)
TEXTO: Mário Miranda

Falar do conhecido e saudoso grupo do “Ida e Volta”, que fazia viagens diárias entre Ovar e Porto, é recordar como se viajava, há dezenas de anos, e como eram conhecidos, na altura, os comboios.
Tramways, do inglês, deu a palavra aportuguesada Tramueis, aplicada aos comboios entre Aveiro e Porto. O povo, no tempo da minha infância, chamava-lhes os tramas. Mais tarde a CP cognominou-os de Tranvias Hoje são chamados Suburbanos.
Era no tempo em que os conhecíamos por tranvias, que o grupo “Ida e Volta” viajava entre Ovar e Porto. Já vinham de longe essas viagens, mas foi depois de 1950 que o grupo começou a engrossar e a tomar forma, e de tal modo que se pensou confraternizar anualmente com um passeio pela Ria.

Alberto Capitão, António Ferraz, Manuel Monteiro, Horácio Fernandes, António Camossa, Fernando Pinto, 
Mário Batista, Manuel Santos, Augusto Lamy, Manuel Sanfins, Augusto Catalão, Mário Miranda, 
Arnaldo Rodrigues, José Castro, Leonardo Nordeste, Guilherme Amaral, Eduardo Souza, José Pinto, 
Ferreira de Espinho, Domingos de Válega, António Viana, Belmiro Ramos e Manuel Manarte
Durante algum tempo ainda viajávamos numas primitivas carruagens com varandins nos topos, por onde se fazia a entrada. Tinham vindo da Alemanha, como compensação da Grande Guerra de 1914-1918. Já eram conhecidas como “gaiolas”. Os bancos de pau, divididos a meio por uma tábua de 30 cm de largura, servia de encosto aos passageiros, que ali se sentavam ficando de costas voltadas uns para os outros.
A disposição dos bancos formava um corredor de tipo... risco ao lado.
Se alguma janela se abria, era certo e sabido que entravam faúlhas  queque perturbavam os olhos e, por vezes, inutilizavam alguma camisa… Quando chovia, o guarda-chuva tinha mesmo que ser aberto, porquanto o tejadilho, de lona alcatroada, tinha buracos por todo o lado, abertos pelas faúlhas.
Um dia, quando passávamos a Esmoriz, um senhor, de chapeuzinho, que ali costumava entrar e que tomou a carruagem onde ia o “Ida e Volta”, abriu uma janela do lado oposto e, quando o comboio iniciou a sua marcha, mandou uma valente “cuspidela” para o exterior. De imediato o nosso grupo orquestrou-lhe uma forte vaia, e de tal ordem que ele entendeu mudar de carruagem!
Por referir Esmoriz, lembro-me de que um dia um do nosso grupo, ao passar ali, perguntou ao António Ferraz, que tinha sempre resposta na ponta da língua: – Qual será a especialidade desta terra? 
Resposta pronta do Ferraz: “– Sopa de... aduelas!”.
Depois das gaiolas de varandins, começaram a aparecer as carruagens de portas, cada uma das quais correspondia a um compartimento. As portas eram fechadas por fora , o que as tornava perigosas, porque era frequente ficarem mal fechadas e abrirem-se em andamento.
A seguir vieram outras carruagens, também de portas, mas com corredor lateral, tendo ao centro um wc. Tudo muito sujo, com o agravamento de, no Inverno, o frio entrar por todo o lado, quase nos obrigando a fazer  todo o percurso a bater com os pés no chão, para aquecer. Que gozo que dava aquele barulho infernal até ao Porto! E o guarda-chuva tinha de estar sempre pronto para entrar em acção!
Como se estava a aproximar a chegada do comboio eléctrico, apareceram as carruagens de 1.ª classe. Quando vinha algum revisor dos antigos, desatava a resmungar, por viajarmos naquelas carruagens com bilhete de 3.ª. Só que a conversa dele entrava-nos por um ouvido e saía pelo outro!
Passámos muito maus bocados quando o comboio chegava atrasado a Ovar, pois era certo e sabido que também chegava atrasado ao Porto, já que não podia andar a mais de 30/40 km por hora, numa  via que era uma desgraça, mais parecendo uma montanha russa. E quando uma máquina avariava – e a maior parte delas já andavam suspensas por arames –, tínhamos que esperar que outra a viesse substituir. E era frequente acontecerem casos desses.
Nem vale a pena fazer o balanço do quanto hoje se ganhou  em velocidade, em comodidade, em pontualidade e, claro, no aumento do número de comboios disponíveis.
É pena que ainda haja “meninos” educados “modernamente” que têm tendência para inutilizar estofos e para riscar estupidamente as superfícies das carruagens. É pena que não sejam apanhados, para que lhes fosse aplicado um castigo de tal forma severo que nunca mais na vida voltassem a ter vontade de estragar o que tanto custou aos contribuintes!

Estação de Ovar
Quanto ao passeio anual à Ria e à respectiva caldeirada de enguias, nunca falhavam! Nesse dia, o grupo fazia sempre uma verdadeira festa, como o comprova a foto que apresentamos. E todos apareciam!
Os barcos eram do Camossa e, por gentileza, o do Manuel “Guarda-Redes”. Por  vezes, quando havia mais pessoas, também ia o do Lino Brandão, que tinha sempre uma surpresa para oferecer aos visitantes!
Inicialmente, era no Guedes, da Torreira, onde se comia a melhor caldeirada da Ria. Depois variámos, chegando a ir ao cais do Bico, na Murtosa, a uma senhora especialista. Só que, num dos anos, houve uma confusão de datas, o que deu lugar a que a caldeirada ficasse pronta…  com um dia de antecedência. O certo é que, mesmo aquecida, dela nada ficou no fundo dos tachos...
Passeava-se na Ria, brincava-se, parodiava-se. As anedotas saiam em catadupa, dentro de um clima de alegria permanente.
Num dos anos, no lanche, no Barracão do Camossa, a pinga, de boa qualidade, levada pelo Fernando Pinto, fez com que dois dos convivas ficassem de tal maneira bem dispostos que um dizia para o outro: – Ele é tão bom! E se o levássemos para casa?  – Aonde? – Nos bolsos! – E para já!  E desataram a encher de vinho os bolsos um do outro. Só que o que levaram para casa foi, isso sim, “uma mostra da qualidade!...”.
Foram, como se costuma dizer, uns anos passados em cheio, e que nunca mais serão esquecidos!
Ao recordar esses tempos idos, aproveito para homenagear os queridos amigos que há muito já partiram, assim como os seus familiares ainda vivos, a quem desejo boa saúde.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Maio de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/o-ida-e-volta.html

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