30.1.14

Júlio Dinis e Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

As principais obras de Júlio Dinis, exceptuando “Uma Família Inglesa”, que é um romance urbano cuja acção se desenrola na cidade do Porto, têm os seus enredos na província.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho – era este o seu verdadeiro nome – esteve em Ovar, entre os anos 1863 e 1866 em casa de sua tia Rosa Zagalo, para convalescer de uma tísica, a doença que, na época, mais vidas dizimava, especialmente entre a população jovem.
O Dr. Egas Moniz e outros biógrafos deste magnífico escritor dizem serem oriundas de Ovar muitas das personagens e dos ambientes narrados por Júlio Dinis nos seus romances, especialmente nas “Pupilas do Senhor Reitor”.
Este texto vem a propósito de algumas conversas que, há anos atrás, mantive com uma tia-avó, nascida em 1879, e que sempre manifestou muita vontade de conversar e de recordar factos da sua infância.
Dizia-me ela ter ouvido sua mãe contar muitas histórias de quando era mais nova, sendo uma delas relacionada com a ida à nossa Igreja ouvir um missionário cujos sermões chegavam, por vezes, a assustar os fiéis.
Afirmava ele, numa das suas práticas, ser a vaidade a maior ofensa a Deus e a responsável pela queda de muitas almas no Inferno. Para remir tal pecado, uma forma de expiação sugerida por esse sacerdote consistia no corte do cabelo das raparigas jovens, e não só, especialmente daquelas cujo penteado era composto de lindas tranças ou outros enfeites.
Essas pregações, que se desenrolavam, geralmente, ao longo de uma semana – a Santa Missão –, eram anunciadas de véspera, ao toque de uma campainha, enquanto o seu portador ia cantarolando:

“Vinde pais e vinde mães,
Vinde todos à missão,
Vinde ver os vossos filhos,
À mesa da comunhão.”

Ao reler, agora, a “Morgadinha dos Canaviais”, e ao entrar no episódio do missionário que manda cortar as tranças às raparigas para fazerem penitência, levando Ermelinda, filha do Cancela, a tomar essa atitude perante o desespero do pai, logo me lembrei das conversas tidas com minha tia-avó, interrogando-me se a personagem do missionário não será também fruto do que Júlio Dinis viu ou ouviu durante a sua estadia em Ovar, embora ele dê sempre a ideia de que tudo isso tenha acontecido no Minho.
Deixo essas considerações ao cuidado dos estudiosos do laureado escritor, falecido precocemente em 1871, com apenas 32 anos de idade.
 
Páginas de rosto do livro “Missão Abreviada” (1861)
pertencente a Maria de Oliveira Zagallo, do Largo dos Campos,
irmã de Rosa Zagallo Gomes Coelho (casada com António Gomes Coelho,
tio paterno de Júlio Dinis). O livro está assinado em 1863, ano em que o escritor
pela primeira vez para casa destas suas tias.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/01/julio-dinis-e-ovar.html

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