31.10.13

Ti Proserpina moleira

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2009)
TEXTO: António Valente

– Tono, anda cá, faz-me um favor. Olha, vai à loja da Marquinhas[1] comprar-me arroz. Sabes, hoje não posso mesmo das minhas pobres pernas, que teimam em não andar!
O Tono deixou o jogo da bola de rua, e lá foi, como já era habitual, em grande correria, satisfazer o pedido da Ti Proserpina, que já trazia consigo o peso de 80 anos de idade, há pouco completados.

Ti Proserpina
03/1/1880 - 12/3/1963 
Ti Proserpina, viúva já lá vão uma dúzia de anos, vive só, sem filhos. Simpática, conta com a solidariedade dos vizinhos que nutrem um grande afecto e carinho por ela.
Vive muito pobremente, usufrui de uma reforma de miséria, que mal dá para os medicamentos, quanto mais para a sua alimentação. Vive numa casa já muito tocada pelo tempo, bastante húmida, que não conhece obras de manutenção já há muito tempo, o que contribui para aumentar as dores insuportáveis dos “ossos” das suas pernas.
A Ti Proserpina ainda se recorda dos momentos em que, no rio dos Pelames – sem o brilho desses tempos, hoje tudo à volta é uma desolação –, lavava a roupa das senhoras da vila, e com a sua voz bem afinada cantarolava as canções da época.
Era contagiante: as outras lavadeiras, que ocupavam cada uma a “sua pedra” no rio de cima e no de baixo, também entravam na “desgarrada”, cantando e rindo a bom rir. E quem estivesse na estação do caminho-de-ferro ouvia este belo cantar, logo reconhecendo a voz da Ti Prosepina.
Casou muito nova, como era costume das raparigas nesses tempos tão difíceis, depois de ter conhecido o seu Manuel, quando este se deslocava com regularidade para Ul, Oliveira de Azeméis, com a carroça carregada de sacos de milho que os clientes lhe entregavam para a moagem em moinho alugado. (A clientela era tanta que os moleiros tinham de socorrer-se desta alternativa, pois existiam em Ul inúmeros moinhos de água, alguns deles hoje recuperados, em contraste com os existentes nos Pelames, em ruína…). Por lá permanecia até que a moagem estivesse completa. No percurso, cruzava em Madaíl (Ul faz fronteira, a norte, com Madaíl), com a então jovem Proserpina, com quem metia conversa e de quem  nunca mais tirou a vista, começando, repentinamente, uma relação amorosa. Tempos que recorda com saudade…
Mas – há sempre um mas – o Manuel, já casado e com um copito a mais, transformava-se num outro homem. Ficava nervoso, completamente modificado, batia-lhe mal entrava em casa...
Com o tempo, Ti Proserpina, adivinhando o estado do marido, refugiava-se em casa de uma vizinha, a uns poucos metros dos moinhos, até que as coisas arrefecessem. (Fora estes momentos, o Manuel era um bom trabalhador, recorda, com saudade).
A levada do rio estava sempre um esmero, que o diga quem a conhecia, principalmente as lavadeiras que frequentavam o rio dentro da sua propriedade.
Quantas memórias lhe vêm à mente, das noites passadas no moinho sem conhecer cama e descanso, atenta à moagem da farinha. Uma vida difícil, mais ainda com a doença do marido. A tuberculose o levou, ainda bastante novo. Não o merecia, dizia a Ti Proserpina muitas vezes, para si mesma. “Mas Deus lá sabe porquê”.
A partir daqui, a vida complicou-se. Faltavam-lhe as forças, tudo se desmoronava. Com o Manuel, apesar daqueles momentos de mau génio, tudo se ultrapassava. Agora…
Estava nestes pensamentos quando apareceu o jovem Tono, que logo regressava ao jogo da bola. Lá foi fazer uma sopita para enganar o estômago, pois mais nada havia.
“Quantas vidas sós, depois de anos e anos de trabalho, se multiplicam por aí à nossa volta”!
De tão apressados que andamos, nem reparamos nelas, ou, pior ainda, tantas vezes com indiferença.
Tantas Proserpinas que hoje só vivem de recordações… e que, tantas vezes, ficam a murmurar consigo mesmas: “Ao menos se Deus me levasse”…

Nota: 
[1] A Marquinhas era a dona da Loja dos Canecos, na esquina da Rua dos Pelames com a Alexandre Herculano.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/ti-proserpina-moleira.html

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