Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2009)
TEXTO: José de Oliveira Neves
Venho hoje falar da história do Ti Chafarrica, nome pelo
qual era conhecido um famoso habitante do Furadouro. Antes, porém, quero expor
algumas particularidades da zona norte da nossa Praia, onde ele viveu nas
primeiras décadas do séc. XX. (Sobre a zona do sul, publiquei, no “João Semana”
de 15 de Junho de 2003, um texto com o título “O Baldim do Furadouro”). [CLIQUE no link, a azul]
A zona norte do Furadouro
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| Procissão - Furadouro (1941) |
No séc. XIX já eram numerosas essas habitações que, por
serem de madeira, tinham como principal inimigo os fogos, que periodicamente as
destruíam, como voltou a acontecer, meio século depois, com aquele que em 5 de
Março de 1925, no tempo do Chafarrica, “devorou cerca de 200 habitações,
incluindo 4 grandes prédios de pedra e cal, ficando trezentas pessoas sem-abrigo
e seis ruas destruídas” (Alberto de Sousa Lamy, “Monografia de Ovar”).
Lutando estoicamente contra essas vicissitudes, os nossos
pescadores reconstruíram os seus palheiros para morarem, os mercantéis
levantaram armazéns para prepararem o peixe, e alguns veraneantes ergueram
casas de pedra e cal para passarem na praia, com mais comodidade e segurança,
os meses estivais…
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| O palheiro do Ti Chafarrica, ao norte do Furadouro, é o primeiro da direita, com varanda |
Até aos anos 20 do século passado, a costa do Furadouro, de
norte a sul, era área piscatória, devido ao grande número de Companhas
existentes.
No jornal “A Pátria” de 3 de Outubro de 1912 pode ler-se
que de 1 de Janeiro a 30 de Setembro do referido ano, trabalharam seis
companhas: Sr.ª do Socorro, Boa Esperança, Maria do Nascimento, S. José,
República e S. Pedro.
Mais tarde, já na decadência da pesca no Furadouro,
depois dos anos 30, e quando havia apenas duas companhas a laborar – S. Pedro e
Sr.ª do Socorro –, essa actividade passou a ser exercida com maior intensidade
no sul, onde se encontrava a maior parte dos palheiros dos pescadores e dos
armazéns dos mercantéis.
Na zona norte começavam a concentrar-se, de Junho a
Setembro, os banhistas e veraneantes frequentadores da praia, sendo ali que os
banheiros montavam barracas para alugarem aos seus clientes.
Lembro-me muito bem da Capela do Senhor da Piedade
(capela nova), situada ao cimo da actual Rua do Jornal Comércio do Porto, com a
frontaria voltada para Nascente e a traseira encostada a uma ou duas casas que
seguiam na direcção do Poente, existindo ainda, entre esses prédios e as ondas
do Oceano, um extenso areal com baloiços para crianças e as barracas
pertencentes aos banheiros.
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| Praia do Furadouro |
Antes de ser tragada pelas vagas em 1958, era dessa Capela Nova que saíam os andores nas Festas do Mar, saudosamente recordadas por mim por, em menino, me incorporar nas suas procissões, levando a corda com a fateixa do barquinho que actualmente se encontra no Museu.
Mais a norte deste templo e da rua a que me referi
anteriormente, conheci, nos anos 40, muitos palheiros e algumas moradias de
pedra e cal, que se espalhavam de forma dispersa até ao início do local onde se
construiu o desaparecido Hotel Mar e Sol, sobre o qual escreverei
posteriormente.
Seguindo na mesma direcção, começávamos a calcorrear as
dunas, com a sua vegetação própria a espraiar-se na direcção do mar, a muitas
dezenas de metros de distância da actual Avenida Infante D. Henrique…
Homem da festa
Numa dessas dunas, rodeada de chorões e junco, assentavam,
bem alinhados, vários palheiros, entre os quais o do Ti Chafarrica, de que não
tenho qualquer recordação. Conversando com algumas pessoas dessa época
conhecedoras daquela personagem, muito estimada no Furadouro nas décadas de 20-30 e início de 40 do século passado, fiquei a saber que esse palheiro,
utilizado como loja, se localizava para lá do local onde hoje termina a
Avenida Infante D. Henrique, na direcção do mar (portanto hoje já dentro das
suas águas, que a levaram, tal como aos outros palheiros ao lado, quando
começaram a galgar a terra…)
Dizem que entre as águas do oceano e essas habitações de
madeira construídas sobre as dunas havia, então, muito areal, onde descansavam
os barcos das companhas que ali se ocupavam nas lides da pesca.
A popularidade do Ti Chafarrica não era somente por ter
uma taverna ao norte da praia, mas sim pelo labor exercido anualmente nas
Festas do Senhor da Piedade, visto que, além de tasqueiro, alugava arcos
enfeitados e balões de papel para as armações das ruas, preparando, em pequenas
latas, uma mistura de sebo com cera e um pavio, que depois acendia para as
iluminar.
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| Furadouro, 1934 - Capela nova e Rua Jornal Comércio do Porto, que na data desta foto era exclusivamente ornamentada nas Festas do Mar pelo Ti Chafarrica |
A Rua da Capela Nova (actual Rua do Jornal do Comércio do
Porto) era exclusivamente ornamentada e iluminada com os arcos e balões do Ti
Chafarrica, que também os colocava em volta da duna onde se encontrava o seu
palheiro.
Disse-me quem o conheceu que era um espectáculo ver o Ti
Chafarrica, no início da noite, armado com uma escada, percorrer a rua inteira
para acender as velas dentro dos balões, que várias vezes se incendiavam,
especialmente quando havia vento muito forte…
Felizmente que ainda podemos hoje recordar o seu palheiro
devido à colecção de antigos postais de Silva Cerveira, que constituem um
verdadeiro tesouro para quem gosta de reviver a história dos seus
antepassados!...
O Ti Chafarrica, pela simpatia que irradiou no Furadouro nas primeiras décadas do séc. XX e pela sua ligação às Festa do Mar, bem merece ser recordado numa rua do Furadouro.
O Ti Chafarrica, pela simpatia que irradiou no Furadouro nas primeiras décadas do séc. XX e pela sua ligação às Festa do Mar, bem merece ser recordado numa rua do Furadouro.
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Julho de 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/ti-chafarrica-o-homem-da-festa.html
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