14.11.13

“João Semana” - Centenário à vista – Os Fundadores

Padres Manuel Lírio e José Ribeiro de Araújo,
fundadores do jornal “João Semana"
Centenário do “João Semana” (1 de janeiro de 2014). É tempo de recordar os seus fundadores, dois sacerdotes que ilustraram a terra de Ovar através da sua cul­tura e do empenho que puseram na defesa do património histórico e religioso vareiro.
O Padre José Ribeiro de Araú­jo, nascido em 1883 – há 130 anos – terá sido o impulsionador da fundação do jornal, cuja ideia foi fruto da vocação literária e jornalística do Padre Manuel Lírio, nascido dois anos antes, e da necessidade de enfren­tarem o período crítico que a Igreja vivia, nessa altura, no nosso país. Um e outro escreveram e lutaram juntos, ao longo de 39 anos, até 1953, quando terminaram o seu percurso terreno: o segundo de­les em 6 de junho, com 72 anos de idade, e o primeiro em 19 de novembro, com 69 anos.
Tê-los-emos sempre presentes.

Manuel Pires Bastos

Padre José Ribeiro de Araújo (1883/1953)
Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2013)
Padre José Ribeiro de Araújo
(Padre Cura)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

Pesquisava na minha biblioteca de família quando deparei com um livro litúrgico (Rituale Romanum editado em 1907), com a assinatura do Padre José Ribeiro de Araújo datada de 1908, ano da sua orde­nação sacerdotal, e contendo, no seu interior, uma memória do seu falecimento, ocorrido em 6/6/1953.
Quem foi este sacerdote? De onde era natural? Que semente dei­xou na comunidade vareira?
Nasceu em Perosinho, Vila Nova de Gaia, em 14/11/1883, filho de Joaquim Ribeiro de Araújo e de Ermelinda Domingues Coelho. Ordenado sacerdote em 25/10/1908 por D. António Barroso, Bispo do Porto, de quem corre o processo de canonização, requereu licença para celebrar missa em 30/10/1908.
Vindo para Ovar em 1909, como coadjutor do abade Dr. Alberto de Oliveira e Cunha, natural da Murtosa (1858-1936), tomou o encargo da capelania do Sobral e, a partir daí, desenvolveu um trabalho profícuo na comunidade vareira, restaurando a Congregação Mariana (1921), fundando a associação das Damas de Caridade (1923), convertida, em 1945, na Conferência Feminina de S. Vicente de Paulo, e, em 1924, o grupo de escuteiros, reorganizado e oficializado como Grupo N.º 66 (atual 549 do Corpo nacional de Escutas).
Porque os primeiros anos da Primeira República criaram cliva­gens com a Igreja Católica, nomea­damente pela confiscação dos bens eclesiásticos e pela lei de separação de poderes Igreja-Estado, fazia falta nas casas ovarenses uma publicação de inspiração cristã que defendesse os valores espirituais que estavam a ser beliscados pelo novo governo. Aqueles dois jovens padres, saídos há pouco do Seminário com uma mão cheia de projetos, fundam o jor­nal "João Semana" (celebra 100 anos em 1 de janeiro de 2014), cujo título foi adotado como homenagem ao Dr. João José da Silveira (1812-1896), figura típica de Ovar imortalizada em “As Pupilas do Senhor Reitor” e que revivemos nestes 150 anos das comemorações da chegada de Júlio Dinis a Ovar.
O Padre Cura, como era conhe­cido, colaborou no Almanaque de Ovar, e publicou no “João Semana”, a partir de 1945, artigos de história local que, em 1952, deram origem ao livro Poalhas da História da Fre­guesia e Igreja de Ovar. Já em 1920 publicara Monografia de Perosinho.
Sacerdote exemplar e prestante cidadão, serviu dignamente a Igreja e a vila de Ovar, ao longo de 44 anos, quer no exercício da sua missão pastoral, quer como professor no Colégio Ovarense e orientador da juventude no Escutismo.
Faleceu na sua casa, na rua Vis­conde de Ovar, em 6/6/1953, sendo sepultado em jazigo familiar no cemitério de Ovar, cujo município atribuiu o seu nome a uma rua.

Para realizar este trabalho pesquisei os jornais “João Semana” (1953), “Notí­cias de Ovar” (1953, e revista “Dunas” (n.º 7 de 2007), e solicitei informações ao Arquivo Diocese do Porto.


Padre Manuel Rodrigues Lírio (1881/1953)
Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2013)
TEXTO: Fernando Pinto

Numa tarde, em casa do meu pri­meiro Diretor, José Manuel Ferreira Casaca, enquanto fazíamos as últimas emendas no seu futuro livro “A Re­gião de Entre-os-Rios”, falámos um pouco do jornal “João Semana” e dos seus fundadores, Padres Ribeiro de Araújo e Manuel Lírio. O Sr. Casaca, Diretor deste quinzenário desde 1976 a 2000, foi uma das pessoas que me fi­zeram entender quanto este periódico deveria ser mais acarinhado pela co­munidade vareira. (No dia 24 de junho faz 9 anos que este nosso amigo par­tiu. Se estivesse entre nós, completaria 80 primaveras no dia 6 de outubro).
Tal como o Sr. Casaca, o Padre Lírio dava muita importância à histo­riografia local, porque um povo sem memória é um povo triste e pobre.
Lápide da sua sepultura do Padre Manuel
Rodrigues Lírio (Cemitério de Ovar)
Para além de ter sido sacerdote, o Padre Lírio foi professor, jornalista, his­toriador e poeta. Nasceu na Lagoa de S. Miguel a 23 de agosto de 1881, e faleceu na sua residência, em Ovar, vai fazer 60 anos no próximo dia 19 de novembro (e não a 14, como vem mencionado na Monografia e Dicioná­rio da História de Ovar). 
Na lápide da sua sepultura esqueceram-se de colo­car o dia da sua morte. Como vem escrito na edição de 26/11/1953 do “Notícias de Ovar”, apesar das po­lémicas em que esteve envolvido – foi preso por defender a causa monárqui­ca –,“a terra sagrada que o cobre não ocultará o prestígio do seu nome”.
Em 1918, no texto que abriu, quatro anos mais tarde, a sua obra “Os Passos de Ovar”, contava em “duas palavras”:
“Fomos um dia (...) à capela do Calvário, em cata de um livro velho (...). Nas suas primeiras páginas divi­sáramos então, sem lhe ligarmos gran­de importância, uma lista de padres ovarenses muito extensa (...). A nossa curiosidade, porém, que já se não sa­tisfazia só com a vista do abandonado calhamaço, que lá continuava coberto de pó e bolor no seu conhecido poiso, levou-nos a rebuscar outros, a reme­xer, a procurar. (...)”.
Ao longo da sua vida, o Padre Lí­rio encontrou outros tantos livros e do­cumentos preciosos para a preservação da história daquela secular Irmandade dos Passos, alguns dos quais se encon­tram nas mãos de particulares. Seria importante que esse espólio estivesse ao alcance dos investigadores.
Para além destas obras, o Padre Lírio deixou-nos, entre outros, os seguintes títulos: Almanaque de Ovar e Monumentos e Insti­tuições Religiosas (subsídios para a história de Ovar), e Memórias Anedó­ticas de In Illo Tempore. 

Artigos publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/joao-semana-centenario-vista-os.html

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