5.11.13

Histórias da Vela na Ria de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2003)
TEXTO: Helder Ventura

1 - Ventos do Sul

No ano de 1394 o nosso Rei D. João I, a pedido dos vereadores e homens bons de Aveiro, escreveu uma carta renovando a determinação dos Reis seus antecessores no sentido de não se lançarem "covos" ou redes de pesca nos canais de Ovar, Aveiro e Vagos, pois dificultavam a navegação dos navios.[1]
Este documento escrito confirma que, na Idade Média, o trânsito de navios transportando pessoas e bens entre estas duas localidades era bastante significativo, contribuindo decisivamente para a estruturação do carácter destes territórios.
Até à Baixa Idade Média e muito antes da data deste documento, a relação desta terra de Ovar com a água era muito diferente daquela que hoje se verifica. Seria possível, por exemplo, navegar directamente do Mar Oceano até às proximidades do Sobral Velho[2], até à Ponte Nova e até à Senhora da Graça...
A história da vela em Ovar tem, pois, História. Senão, vejamos...

Fenícios na Península
O poema Orla Marítima, escrito por Rúfio Festo Avieno, no séc. IV, de uma enorme importância para o entendimento da nossa história, suporta as descrições da costa ocidental da Península num outro escrito muito mais antigo, de um navegador grego de Massália (Marselha). Esta obra, denominada Périplo Massaliota, datada do século VI a. C., descreve sítios e povos da orla costeira do ocidente peninsular, referindo mesmo locais de culto e rituais ao deus púnico Haal Hamon  correspondente ao grego Saturno, protetor dos navegantes   e que, em meu entender, se destinavam, também, a referenciar locais de perigo ou de orientação ao longo da costa. Estes locais estão identificados. Trata-se do promontório Sacrum (Sagres) e da Berlenga Grande. Tínhamos portanto os gregos e antes deles os fenícios e mesmo os egípcios (Alexandria) a demandar as costas da futura Lusitânia. Deste modo, temos por certo que o caminho marítimo entre o Sul e o Atlântico Norte já era conhecido e navegado pelos marinheiros das antigas civilizações Mediterrânicas, pelo menos setecentos anos antes de Cristo.
Oriundos das cidades costeiras do que hoje chamamos Líbano ou Palestina, sendo Tiro a mais importante, os Fenícios eram sobretudo comerciantes e navegadores, e já no tempo do rei Salomão navegavam até às costas ocidentais da Península Ibérica. A sua terra era pobre, mas detinha em abundância um produto fantástico, a madeira. Com esta madeira  os célebres cedros  construíram barcos e uma das civilizações mais determinantes para a nossa cultura. Com a necessidade de comunicar e registar, inventaram o alfabeto, impulsionando a história rumo ao futuro. Neste futuro estão os portugueses e a sua vocação marítima...

Transporte de madeira desde o Líbano, pelos Fenícios, que se fizeram ao mar para fundar
entrepostos comerciais desde o Mediterrâneo ao Atlântico

A "cabotagem" romana
Mais recentemente, no séc. II d. C., foi erguido na Corunha um farol que regista o nome do seu arquitecto, um tal Caio Sévio Lupo[3], de Aeminium (Coimbra). Este farol, a que chamaram a torre de Hércules, teria múltiplas funções, mas aquela que neste momento mais nos interessa é a de orientadora do tráfego marítimo, tanto ou tão pouco intenso que fez com que os romanos ali construíssem aquele farol que, embora muito remodelado, ainda hoje se mantém de pé.
Poderemos concluir que, das primeiras incursões mais ou menos aventureiras em busca de riquezas e terras novas, passámos gradualmente a um tráfego marítimo constante, baseado no comércio e no transporte de matérias-primas, como o estanho e outros metais oriundos das minas do norte da Galiza e mesmo da Bretanha. Mas esse tráfego seria também estratégico e militar, pois os romanos, para conquistarem e manterem as ilhas Bretãs, tinham necessidade de uma frota marítima activa...
Temos, portanto, Romanos[4], e muitos, a navegarem ao longo das nossas costas, nomeadamente os do Norte de África, herdeiros da cultura fenícia e ptolomaica, e que eram navegadores. Bons, ou muito bons?

Galera romana

Farol de Alexandria
Não sabemos. Mas sabemos, por exemplo,  que uma das regras no Porto de Alexandria era a obrigatoriedade de todos os barcos ali aportados disponibilizarem os documentos a bordo para serem copiados na célebre biblioteca da cidade. Livros, mapas, diários de bordo..., tudo! E o que restou do saber náutico da cultura Ptolomaica (Alexandria) passou a estar ao serviço de Roma, que utilizava os barcos e seus marinheiros para o comércio e transporte de tropas e escravos. Naturalmente, a "romanização" da Península, nomeadamente da Lusitânia, assentou fortemente nas rotas de navegação ao longo da costa, do Sul para Norte, caminho marítimo que era sistematicamente percorrido por barcos à vela, no sistema que hoje denominamos por "cabotagem", ou seja, navegação progredindo junto à costa e em viagens relativamente curtas.

Nas costas de Ovar
A presença de culturas marítimas antigas por estas costas de Ovar é, portanto, tão certa como a terra ser redonda. Por aqui aportavam os barcos, para reabastecimentos, reparações ou refúgio de tempestades. Aqui, entre a Ribeira de Mourão e a Ribeira de Cáster, Entre-Águas, Senhora da Graça e Ribeira de S. João encontravam madeira, água doce, aves, ovos, e peixes, muitos peixes, que procuravam, como ainda hoje, os areais da Ria para a desova...
Tínhamos uma paisagem de areais e areinhos, transição de águas doce e salgada, muita fertilidade, muita vida. Condições ideais para a implantação de um porto de abrigo, pois um "cabedelo" de areia protegeria a enseada da fúria directa dos Atlantes. E tínhamos o sal, que se formava espontaneamente nos pequenos charcos, entre duas marés...

[1] Esta carta vem referenciada na "Monografia de Ovar", de Alberto Sousa Lamy (I Volume, 2.ª edição).
[2] Não me repugna nada a ideia de que Muradões seria o Sobral Velho. Um simples passeio a pé pelo caminho que serpenteia ao longo do rio diz-nos que aquele lugar seria muito naturalmente preferido para a ocupação humana no contexto de há mil, mil e quinhentos anos...
[3] Caio Sévio Lupo, único artista Lusitano conhecido.
[4] Por Romanos entendemos povos que se tinham integrado no vasto Império Romano.

(Continua)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Março de 2003)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/11/historias-da-vela-na-ria-de-ovar_1.html

1 comentário:

h ventura disse...

Muito boa a ilustração . Obrigado por lembrarem um texto quase esquecido... Parabéns pelo excelente trabalho que é colocar todos estes texto disponíveis pelo mundo fora1