14.10.13

Assassinato de Ana Rosa foi há 50 anos

Jornal JOÃO SEMANA (15/01, 01/02, 15/02 e 01/03/2005)
TEXTO: Manuel Pires Bastos e Gil Guedes

Sobre a morte violenta de Ana Rosa, lia-se no “João Semana” do dia 3 de Fevereiro de 1955:
“No passado dia 23 de Janeiro apareceu morta, sob a ponte da Rua Elias Garcia, Ana Rosa Valente da Silva, criada de servir, de 11 anos de idade, em circunstâncias tais que revelam a existência de crime.
Felizmente que as diligências feitas pelo Comando do Posto da GNR descobriram rapidamente o criminoso, António Joaquim da Silva, engraxador, já várias vezes preso por furto e tentativa de sedução.
O funeral da pobre vítima foi concorridíssimo, incorporando-se nele as pessoas de mais destaque desta Vila, bem como as pessoas mais humildes, para manifestarem a sua repulsa pelo vil atentado.
A conclusão a tirar: falta de temor de Deus no criminoso, virtude heróica na vítima e sentimentos nobres e dignos da gente de Ovar.”

Campa de Ana Rosa no Cemitério de Ovar
FOTO: Fernando Pinto
No próximo dia 22 completam-se 50 anos sobre a morte, por assassínio, da menina Ana Rosa Valente da Silva, a cuja memória os vareiros erigiram um bonito mausoléu no 5.º quarteirão do nosso cemitério, local que passou a ser, desde então, ponto de visita para muita gente.
Visitando o Cemitério de Ovar há alguns anos, à procura de referências do Padre José Ribeiro de Araújo, antigo Coadjutor de Ovar e natural de Perosinho, um cidadão daquela freguesia gaiense, Gil Guedes, mostrou-se impressionado com a campa da Ana Rosa, cuja figura lhe foi delineada por mim, que o acompanhava.
Daí nasceu o interesse de Gil Guedes em aprofundar os dados sobre a vida e morte da pequena vítima, bem como sobre a sua família e o seu agressor.
Aos dados coligidos, entendi juntar novas informações que, entretanto, também foi recolhendo junto de vizinhos e de conhecidos de Ana Rosa, bem como de António Gama, o jovem ovarense que encontrou o seu corpo algumas horas após o assassínio.
Desse conjunto de dados resultou o texto que vamos publicar no “João Semana” como memória de um acontecimento que marcou Ovar há meio século.

1- A vítima

Ana Rosa Valente da Silva nasceu no lugar das Quintas do Norte, freguesia da Torreira, concelho da Murtosa, a 7 de Junho de 1943, sendo seus pais António Joaquim Lopes da Silva, lavrador e barbeiro[1], e Rosa Pereira Valente, doméstica.

A 3.ª porta da casa mais baixa, à esquerda, na Rua Elias Garcia, era a da barbearia
de Luís Pereira, para onde, pelas 20h30 de 23/01/1955, se dirigia a Ana Rosa
Como qualquer criança do seu estrato social e do seu tempo – fim e rescaldo da 2.ª Grande Guerra Mundial”, teve uma infância penosa, mas despreocupada.
Tinha apenas dois anos e meio quando perdeu a mãe, falecida no Hospital de Salreu, em 13/12/1945.
Quase três anos depois, em 03/03/1948, o pai, então com 43 anos de idade, contraiu segundo casamento, com Lucinda de Pinho, de 34 anos, doméstica, do lugar da Marinha, Ovar, a quem a criança passou a chamar “madrinha”[2].
A Ana Rosa frequentou a Catequese (na Igreja da Torreira) e a escola (no lugar das Quintas), sendo uma criança humilde e ingénua. Tão ingénua que não suspeitava dos perigos morais que a rodeavam[3].
Terá sido por estas circunstâncias que, pelos 8 anos, a criança deixou as Quintas para encontrar protecção em casa de uma família amiga, da vila de Ovar, o casal Luís Pereira e Maria[4], residentes na Rua Padre Ferrer, 86, até porque na barbearia do Sr. Luís, situada na Rua Elias Garcia, junto à Capela da Sr.ª da Graça, trabalhava, como barbeiro, um filho da madrasta, de nome José Pereira[5].

Casa da Rua Padre Ferrer, n.º 86, onde vivia o casal Luís e Maria
com a pequena Ana Rosa, que daqui saiu na noite do seu assassínio
No parecer de várias pessoas por nós contactadas, a Ana Rosa seria tratada como protegida e não como criada[6]. Mas a ideia geral é de que seria uma criadita de casa, ocupada em tarefas domésticas.
“– Era pequena, mas forte. Não era leviana. Era boa menina. Só um pouco ingénua.” (António Gama, Ovar).
“– Era uma criança viva, baixa e forte, de inteligência normal, frequentando a escola." (Áureo Neves, Ovar).
“– Era baixa e roliça, de constituição forte.” (Rosa Maria Valente, da Ribeira).

Conta uma sua amiga e colega mais velha, Francelina Gomes Pereira (n. 25/03/1939, em Ovar)[7], que costumavam assistir à Missa das Almas (6h00 da manhã) e que, depois de tomarem o pequeno-almoço, iam lavar roupa ao rio do Peixoto (rio Cáster), debaixo da ponte da Senhora da Graça.
Como era habitual, a profissão de barbeiro tinha o Sábado como o dia de maior movimento, prolongando-se o trabalho pela noite fora. Daí ser habitual os barbeiros cearem no próprio estabelecimento.
Nestas circunstâncias, cabia à Ana Rosa a tarefa de levar a comida ao Sr. Luís Pereira.
Ninguém suporia que esse serviço trivial viesse a dar motivo para um desenlace trágico, e que uma criança de 11 anos e meio, mesmo que de constituição desenvolta, pudesse vir a ser beliscada na sua honra por alguém que a conhecia bem[8].
Aquela noite de Sábado, dia 23 de Janeiro de 1955, foi fatídica para a menina que, pelas 20h30, levando a refeição ao Sr. Luís, não chegou à barbearia nem regressou à Rua Padre Ferrer, onde a esperava a Sr.ª Maria.
Foram de angústia e de maus presságios as horas que aquela família viveu ao longo de toda a noite, com algumas buscas totalmente infrutíferas.

O achado do corpo

A manhã seguinte encarregar-se-ia de pôr a claro a situação, desvendando toda a verdade do misterioso desaparecimento.
Pelas oito horas da manhã, e aproveitando os primeiros alvores do dia, o jovem António Pinto da Gama resolveu abrir a porta das traseiras do talho de seu pai, onde tinha já aviado alguns fregueses que regressavam da missa das seis horas, e aproximou-se do rio, mesmo ao lado, para observar a altura e os estragos das águas, já que chovera muito de véspera.
– “Vamos ver o rio!” – disse ao irmão José que, no entanto, não anuiu ao convite[9].
Poucos metros andados, observando algo estranho debaixo do arco poente da ponte, alertou o irmão:
– “Olha que está ali uma criança morta! Vamos lá ver.”

Ponte da Senhora da Graça (ou do Peixoto), no Rio Cáster. O corpo de Ana Rosa
apareceu, na manhã seguinte, debaixo do 3º arco (à esquerda)
Descidas as escadas de acesso ao rio, e caminhando sobre uma língua de areia molhada, onde as mulheres – e a própria Ana Rosa – costumavam lavar, chegaram junto ao corpo inerte, acocorado, descomposto, com a boca dentro da água. No mesmo lugar onde, viva ou já morta, a menina tinha sido violentada[10].
– "Se não tinha já morrido quando a deixaram naquela posição, acabaria por morrer afogada, porque a água era muita" – lembra o António, 49 anos depois do macabro achado.
– “Vou avisar o cabo Santos e tu ficas aí para não deixares passar ninguém!” – disse ao irmão.
Vendo, ali perto, o talhante João Silva à porta do seu estabelecimento – era normal conservarem a porta fechada ao Domingo, por causa da fiscalização “, inteirou-o do que acabara de descobrir, e ele logo correu ao local.
A partir daí o ajuntamento e o alarido foram-se avolumando.
Nesse Domingo, a Francelina não tivera a companhia da amiga na Missa das 6 horas. Pensou que não tivesse vindo por ter de ficar a tratar a patroa[11].
Mas a razão viria a encontrá-la pouco depois, quando, como de costume, trazia a roupa para o lavadouro, sob a ponte, agora transformado em pouso do corpo morto da amiga.
De tal modo ficou incomodada que, lembra-se bem disso, nem quis participar no cortejo que se realizou nesse dia à tarde, em favor do relógio da Igreja.

Notas:
[1] Ele foi baptizado no Bunheiro, sendo filho de António Lopes da Silva (natural da Torreira) e de Rosalina Francisca de Jesus (de Perafita, Matosinhos). Do casal nasceu outra filha, de nome Maria dos Prazeres, a viver em França.
[2] A Lucinda era filha de João Augusto Gomes Calixto, natural de Avanca, e de Domingas de Pinho, da Marinha, Ovar. Uma irmã, Generosa de Pinho, residiu no Poço de Baixo, Ovar, tendo filhos a residir em Ovar e em Lisboa. (Foi da casa desta tia, paredes meias com a casa do assassino, que viria a sair o funeral de Ana Rosa). João Gomes Vaz (n. 05/09/1935), residente no Poço de Baixo, diz que a família da menina era “gente pobre mas muito boa, e que a Ana Rosa era educada e modesta.
[3] Estas informações foram colhidas, em Novembro de 2004, nas Quintas do Norte, junto de uma vizinha e contemporânea, Maria do Céu Pinto, que acrescentou ser do conhecimento público que Ana Rosa teria sido vítima de assédio por parte de um idoso do lugar.
[4] O casal, dos lados da Murtosa, vivia numa casa de Laurinda Correia Meladas, casada com Francisco de Oliveira Meladas, emigrante no Brasil e Estados Unidos. Dado que o casal tinha aderido a um grupo evangélico, dizia-se acerca da menina, que continuou a ser católica: “– Está a servir em casa do protestante”. O Luís era irmão de Albino (pai de Aurora), de Silvério Leite (casado com Maria José – Zezinha) e de Eduardo (da Aurora “dos tremoços”).
[5] Além do José, que esteve depois no Canadá e que reside actualmente nas Quintas do Norte, a Lucinda Pinho teve outro filho, Francisco.
[6] Dessa opinião é Áureo Neves, que se lembra do ambiente que se vivia nessa família, especialmente na loja que a Sr.ª Maria explorava na Rua Cândido dos Reis (onde a Ovarense tinha a sede que se incendiou).
[7] Filha de José Pereira Sona e de Margarida Gomes, hoje a residir na Rua dos Fragateiros, Ponte Reada, S. João de Ovar.
[8] Que o assassino já a cortejava prova-o o facto de na mala de Ana Rosa ser, posteriormente, encontrada uma carta sua. (Informação de Joaquim da Silva Godinho, meio-irmão de António Joaquim Godinho, o assassino).
[9] José Ribeiro Gama, já falecido, que casou em Estarreja, onde possuiu um talho e onde residiu e ficou sepultado.
[10] Os médicos legistas terão concluído que terá sido violentada depois de morta.
[11] Para além de mal-humorada, a Sr.ª Maria abusava, por vezes, do vinho (informação da amiga Francelina Pereira).

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2- A notícia do crime

Sobre a morte violenta de Ana Rosa na noite de 22 de Janeiro de 1955[1], um Sábado, depressa apareceram relatos na imprensa diária. Um deles, expedido de Ovar no dia seguinte, 23, dia do encontro do cadáver, e publicado em “O Comércio do Porto” de 24 ou 25, é do teor seguinte:
“Uma criança morta e abandonada à beira de um rio
Ovar, 23 - Nas mais estranhas e trágicas condições, foi hoje de manhã encontrado, abandonado à beira-rio o cadáver de uma criança de 12 anos, de nome Ana[2], cujos pais se sabe residirem no sítio da Quinta da Torreira, na Murtosa, que andava a servir numa moradia localizada na rua Padre Ferrer desta vila.
António Pinto da Gama no mesmo talho onde trabalhava,
há 50 anos, com seu irmão José. Foi a primeira pessoa a
descobrir, debaixo da ponte do rio Cáster, mesmo ao lado
 do talho, o corpo inanimado de Ana Rosa
Embora as autoridades não tenham chegado a qualquer investigação definitiva, tudo indica que se estava na presença dum crime. A criança desaparecera da residência dos seus patrões às 20.30 horas de ontem, e apesar das diligências encetadas nesse momento por se tornar notada a sua falta, estas foram infrutíferas. O seu cadáver apareceu hoje debaixo dum dos arcos da ponte sobre o rio Cáster, que atravessa o centro da vila e foi o rapaz dum açougueiro da rua Elias Garcia que deparou com ele quando se aproximava daquele ponto da margem a buscar água. 
Postas imediatamente ao corrente do trágico acontecimento, as autoridades iniciaram rápidas averiguações, recolhendo elementos tendentes a esclarecer as causas da morte e procedendo a um exame pericial no local onde foi encontrado o cadáver. Cumpridas que foram estas formalidades o corpo da infeliz criança foi removida para a capela da Misericórdia, onde amanhã os médicos devem proceder à autópsia.”

O nosso colaborador Aníbal Gomes, então com 14 anos, dá-nos mais algumas achegas sobre o acontecimento:
“Conhecia muito bem a Ana Rosa e os seus patrões, assim como o assassino, António Godinho (engraxador). Este era uma figura popular e bem conhecida em Ovar, pois engraxava calçado no Largo Família Soares Pinto, na zona envolvente ao chafariz Neptuno.
Na manhã desse Domingo, ainda cedo, quando eu saía da Capela do Instituto Jesus Maria José, na Rua Coronel Galhardo, onde ajudava à Missa ao saudoso capelão privativo, Padre Coelho, alguém que passava à porta contou-me que tinha aparecido um cadáver debaixo da ponte da Senhora da Graça e que se suspeitava de crime.
De imediato fui ao local e, nessa altura, eram poucas as pessoas que se encontravam na zona envolvente à referida ponte. Desci as escadas que a vítima também tinha descido na véspera, para se encontrar com o criminoso que a tinha convidado a ir buscar um embrulho à margem do rio, e que, quando ela lá chegou, já tinha saltado pelo lado norte-poente, aí tendo consumado o crime. Vi, então, o corpo da Ana Rosa, que jazia no leito do rio, debaixo do arco do lado das referidas escadas.
Só mais tarde é que as forças da GNR, comandadas pelo Cabo Santos, começaram a recolha de elementos com vista à descoberta do assassino. Claro que a água do rio e as lamas da areia não permitiam que as pessoas se aproximassem do corpo. Foi o que aconteceu comigo.
Na manhã desse Domingo, e já quando em Ovar não se falava de outra coisa, o António Godinho compareceu a engraxar, na praça e chegou a afirmar: – “Quem fez aquilo à rapariga merecia que lhe fizessem o mesmo!” Isto a escassos metros do Posto da GNR, que ficava no edifício da Câmara Municipal de Ovar, junto à Farmácia Lamy”.

Francelina Gomes Pereira junto ao mausoléu de Ana Rosa, sua colega e amiga,
a quem acompanhava aos Domingos, à missa das 6 horas e com quem, muitas vezes,
depois do pequeno-almoço, ia lavar roupa ao rio Cáster, precisamente no local do assassínio
Por se tratar de uma menina, fácil é compreender a reacção das outras crianças, particularmente das que, naquela manhã, demandavam a missa das 9 horas e a catequese paroquial, e que foram tomadas de pânico ao confrontarem-se com o que acontecera à colega.
Uma dessas crianças ainda hoje se lembra da grande multidão que se aglomerava sobre a ponte, assistindo à retirada do corpo pelos bombeiros.
Outra, Adelaide Alçada, garante que entre os curiosos postados no gradeamento sobre o rio se encontrava o próprio criminoso, “alto e ainda novo”, comentando: – “Coitadinha! Coitadinha!”
E não esquece os cabelos soltos da vítima.
Manuel Mendonça conta que nessa manhã, pelas 10 horas, indo com uma delegação do seu Agrupamento de Escuteiros entregar uma queixa por um roubo acontecido, durante a noite, no acantonamento de fim-de-semana realizado no lugar do Brejo[3], encontrou os elementos da GNR absorvidos pelo caso da Ana Rosa.
Maria Rodrigues Ramos dos Santos (n. 06/06/1925) acrescenta que nessa mesma manhã houve um casamento na Igreja.

Investigações e funeral

O semanário Notícias de Ovar deu a notícia do acontecimento em 27/01/1955, de acordo com os dados que aqui deixámos na edição anterior, acrescentando algumas particularidades descobertas através das diligências policiais, e sublinhando a excepcional participação do povo vareiro no funeral, realizado no dia 25. Eis o texto completo:

Relato da morte de Ana Rosa
no "Notícias de Ovar" de 27 de Janeiro de 1955
Por certo, a saída do funeral da Travessa da Rua Castilho, no Poço de Baixo, da casa de Generosa Pinho (a Generosa Coveira, do Cachimbó, irmã de Lucinda de Pinho, a madrasta de Ana Rosa), foi uma forma de evidenciar a formação católica da menina em relação aos seus patrões, que eram evangélicos.
Pátio da casa de Generosa de Pinho, no bairro do Poço
de Baixo, donde saiu o funeral da Ana Rosa
Conta João Gomes Vaz (n. 05/09/1935) que, pelas 5 horas da tarde de 25 de Janeiro, chegando de comboio, de Matosinhos, onde a família tinha negócio de peixe, e querendo ver o funeral, que já tinha chegado ao cemitério, entrou pelo portão pequeno, do lado sul, encontrando ali uma imensa multidão que pouco antes enchera as ruas de Ovar patenteando em seus rostos um sentimento de pena e de revolta.
É voz corrente que o assassino assistiu à passagem do enterro do lado de dentro da janela poente do Posto da GNR (actual posto de Turismo), escoltado por guardas[4].
Segundo Aníbal Gomes, e como era habitual nessa época, alguns dias após o crime, apareceram em Ovar, na zona da Praça, pessoas de fora que cantavam quadras apaixonantes alusivas ao crime e à investigação do mesmo, o que comovia a população vareira.

Notas: 
[1] Por lapso, a data da morte saiu errada (21 e 23) no último número do “João Semana”. Foi feita a correcção neste blogue.
[2] Relevando a imprecisão da idade e do nome de Ana Rosa, que tinha, de facto, 11 anos e meio, as demais informações da notícia estão de acordo com o que aqui se escreveu há 15 dias, acrescentando um dado importante: a deslocação do cadáver, para efeito de autópsia, para a Capela da Santa Casa da Misericórdia, então gestora do Hospital de Ovar.
[3] O roubo, que incluiu mantimentos e panelas, aconteceu depois da chegada do Mendonça, pela meia-noite, ao acampamento, quando dormiam todos. (Uma grave falha aos princípios de um escuteiro que, deve estar sempre alerta!)
[4] Informação de Maria Rodrigues Ramos dos Santos (n. 06/06/1925).

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3- A prisão do culpado

Sobre o andamento da investigação da morte de Ana Rosa diz um recorte de jornal de 25/1/1955 que possuímos [1]:
“Foi descoberto já o assassino da pequena que apareceu morta em Ovar, sob os arcos da ponte do rio Cáster
Ovar, 25 – Finalmente, conseguiu-se, hoje, saber quem foi o assassino da pequena Ana Rosa da Silva Valente, de 11 anos, que apareceu morta, na manhã de domingo, sob os arcos da ponte do rio Cáster, num dos pontos mais centrais desta vila. Trata-se de António Joaquim da Silva Godinho, de 29 anos, engraxador, natural desta vila. A descoberta do criminoso deveu-se, sem dúvida, aos esforços desenvolvidos pelo comandante do posto da GNR, cabo José Teixeira dos Santos, que conduziu de tal maneira os interrogatórios que estes terminaram com a confissão completa do assassino e pondo, deste modo, termo ao alvoroço em que, desde domingo, vivia a pacata povoação de Ovar, alarmada pelo crime, que causou a maior das repulsas.
O António Joaquim da Silva Godinho, que era um antigo leitor de literatura policial, foi preso, já ao fim da tarde do passado domingo, devido aos seus antecedentes, que não podiam ser piores, e à indicação do proprietário da Drogaria Central, onde trabalhava, Sr. Manuel Figueiredo, que informou a GNR de que o António que, normalmente, aos sábados, trabalhava até às 23 horas, se tinha ausentado dali, cerca das 18 horas, aparecendo somente às 22.45. Como ele, por duas ou três vezes, tentou crimes semelhantes, pelo que, de uma delas, esteve numa colónia penal, sendo também acusado de assalto ao Café Progresso, desta vila, pelo que foi condenado em quatro meses de cadeia, donde saiu em Agosto último, a G.N.R. submeteu-o a vários interrogatórios, caindo ele em muitas contradições que, de dia para dia se foram avolumando. Acresce, ainda, o facto dele se apresentar com ferimentos em ambas as mãos que disse serem devidos ao seu ofício, pelo que foi submetido a exame medico-legal, que revelou serem os ferimentos recentes.”

Casa onde nasceu, em 07/06/1943, nas Quintas do Norte (Torreira), Ana Rosa Valente da Silva, que ali viveu até vir para Ovar, aos 11 anos, em Setembro de 1954. (O seu assassinato seria apenas quatro meses depois, em 22/01/1955)

As forças de segurança da GNR, sob a orientação do Cabo Santos, registaram o acontecimento logo após o aparecimento do corpo, em 23 de Janeiro, procedendo às primeiras investigações e observando alguns presumíveis culpados, entre os quais o António Joaquim da Silva Godinho, sobre quem recaíam as maiores suspeitas. 
Refere-nos António Pinto da Gama, o descobridor do cadáver[2], ter contado à GNR que no Sábado, dia 22, à noite, indo, como habitualmente, ao barbeiro Figueiredo, junto ao chafariz de Neptuno, não encontrou lá o Godinho, habitual engraxador da casa[3].
Mas as pistas que conduziram ao criminoso multiplicavam-se. Diz-nos Manuel Gomes Viela que na manhã de Domingo, depois de ter passado pelo local do crime com a namorada[19], viu dois homens à paisana chegarem junto do Godinho, que estava a engraxar os sapatos de um bombeiro, e obrigarem-no, de imediato, a acompanhá-los, o que foi motivo de descontentamento para o soldado da paz, que tinha de seguir para uma parada em Santa Comba Dão[4].
A autópsia, realizada no dia 24 pelos Drs. José Eduardo Sousa Lamy e José Afrânio de Sousa Lamy, confirmou a morte violenta, a violação da menina presumivelmente já depois de morta, e a identificação do assassino.
Manteve-se numa obstinada negativa até à tarde do dia 25, até que, após hábil interrogatório[5], “caindo em contradições flagrantes, acabou por pedir que o levassem à presença do delegado do Ministério Público e então confessou ter sido o autor da morte da infeliz Ana Rosa da Silva” [6], descrevendo pormenorizadamente o crime. Ficou preso nos calabouços do Quartel e o processo seguiu para as instâncias competentes.
Oficialmente, a acusação, formulada pelo Delegado do Ministério Público, Dr. Rui Vieira Miller Simões, datada de 3 de Fevereiro, e recebida, dois dias depois, pelo Juiz Dr. Francisco Morais Sarmento, compreendia dois crimes: violentação e assassínio[7].
O julgamento, em duas sessões, teve início três meses depois, em 25 de Abril, terminando no dia 30, com o público a encher a sala do Tribunal e o corredor de acesso, sendo o Colectivo presidido pelo Juiz Corregedor Dr. José Mário Bravo Serra, tendo como assessores os Juízes Drs. Domingos da Costa Fernandes (Juiz de Estarreja) e Joaquim Carlos Sousa Júnior, e como representante do Ministério Público o Delegado do Procurador da República, Dr.. Miller Simões. Foi defensor do réu o Dr. Manuel da Silva Pereira[8].
A sentença foi lida em 30 do mesmo mês, sendo o Godinho declarado culpado dos dois crimes e condenado a pena maior (24 anos de cadeia), 500$00 de imposto de justiça e uma indemnização de 40 000$00 à família da vítima[9].
Tendo o Ministério Público recorrido, em 4 de Maio, para a Relação do Porto, esta confirmou integralmente a sentença anterior[10].

O túmulo de Ana Rosa em 1962

4 - Veneração popular

A história da pequena Ana Rosa não ficou encerrada com a descida dos seus restos mortais à campa rasa situada no n.º 20 do 5.º talhão do Cemitério de Ovar[11].
O trágico acontecimento, que provocara forte indignação na pacata vila, rapidamente deu motivo a visitas de curiosos a essa primeira sepultura[12].
Em 1962 é formada uma comissão de senhoras, liderada por Maria do Céu Duarte, casada, doméstica, da Rua da Igreja, Ovar, que requereu à Câmara Municipal que lhe fosse cedido um terreno (1,30 m²) , no Cemitério, pois entendiam as peticionárias que o corpo merecia um espaço exclusivo e mais digno do que o anterior.
O pedido foi aceite em reunião de Câmara de 22 de Agosto de 1962, e dois dias depois foi-lhes passado o Alvará n.º 791/62, que lhes concedia o terreno número 77 do mesmo talhão, “para inumação de cadáveres e onde se encontra sepultada Ana Rosa” sendo o valor de concessão correspondente a 1 500$00.
Afirma Manuel Gomes Viela, então auxiliar de coveiro[13], que, quando da exumação, feita a altas horas da noite para evitar os curiosos, encontraram o caixão intacto, com a madeira preservada, e que dele saía um aroma agradável.  “Cheirava a rosas”. E desabafa:  “Sempre que me lembro disso, fico comovido!”.
De acordo com o Vereador do sector, José Jerónimo, do Carregal, ele próprio, o coveiro-chefe José Duarte Resende, e outro auxiliar[30] fizeram o enterramento sem abrir o caixão.
A referida comissão “angariadora de fundos para a construção de um vistoso mausoléu” conseguiu, através de subscrição pública, levar a cabo esse desígnio[14].
Alguém, por certo de boa-fé, mas sem atender às normas canónicas, decidiu gravar na pedra mármore a dedicatória “À Mártir Ana Rosa”[15].
Em 1990, aquela Comissão Angariadora, agora liderada por Maria do Carmo Salvador (pelo facto de Maria do Céu Duarte já ter falecido), requereu à Câmara para que fosse efectuado o averbamento do Mausoléu em nome da Ordem Terceira de S. Francisco, o que aconteceu por despacho dado em reunião de 5 de Junho de 1990.
Os sinais de devoção à volta dos restos mortais de Ana Rosa, acicatados pela inscrição utilizada no túmulo, deram aso ao incremento de um culto bastante explícito, alimentado pela religiosidade popular e traduzido por velas, flores, placas votivas, ofertas de dinheiro e até peças de ouro[16].

Notas:
[1] Deve pertencer, tal como o recorte que reproduzimos há 15 dias, a um diário de Lisboa, porquanto os jornais do Porto publicaram textos diferentes, com os seguintes títulos: “Foi encontrada morta num sítio ermo de Ovar uma menor que estava ao serviço de um industrial de barbearia” (“O Comércio do Porto”, 24/1/1955 – página 4); “Uma criança morta e abandonada à beira dum rio” (“Primeiro de Janeiro”, 24/1/1955 – pág. 5); “Na pista dum crime? Apareceu morta uma rapariga em Ovar” (“Jornal de Notícias”, 24/1/1955). Corrigindo a informação veiculada por outro jornal diário, o “Jornal de Notícias” e “O Comércio do Porto” afirmam que a menina saíra de casa pelas 20h00 do dia 22 para levar o jantar à barbearia do patrão, donde saiu logo a seguir, não mais aparecendo em casa. (Cf. “João Semana”, 15/1/2005).
[2] O “Jornal de Notícias” de 24/1/1955 refere, erradamente, que o corpo foi encontrado por Guilherme Gama, pai de António e dono do estabelecimento.
[3] Trabalhava ali o Novais, um jovem do Bairro da Misericórdia que já fazia a barba ao Gama quando era empregado de Luís Pereira.
[4] Emília Piqueiro, com quem veio a casar nesse mesmo ano de 1955.
[5] O Godinho terá sido levado, então, a uma loja próxima do chafariz, onde estenderam um papel branco sobre o balcão e lhe observaram as mãos e as unhas. (Parece não ser viável que estes homens, aparecidos assim tão depressa, fossem da Polícia Judiciária).
[6] É voz corrente que o Cabo Santos terá usado processos um tanto violentos para lhe arrancar a confissão do crime. (Até porque, em Ovar, “mandar alguém ao Cabo Santos” significava sujeitá-lo a interrogatórios violentos.)
[7] “Jornal de Notícias”, 26/1/1955, pág. 4).
[8] Foram declarantes os patrões da vítima e o Comandante do Posto da GNR, bem como alguns soldados da GNR e o proprietário da Barbearia Central. O réu afirmou “não ter tido intenção de matar”.
[9] “O Comércio do Porto”, 1/5/1955.
[10] O júri do Porto era constituído pelo Desembargador Dr. Adriano Miranda Gonçalves Pereira, que presidiu, e pelos Drs. Avelino Sampaio Duarte e João de Barros Morais Cabral.
[11] Campa até então camarária, a pouca distância do actual mausoléu, e que foi adquirida, depois de ficar devoluta, pela família Romão. Na campa ao lado (nº 21) foi também enterrada, pela mesma época, uma criança (António), mas esta acompanhada pela mãe, ambas vítimas de um desastre provocado pela queda de um toro de árvore, numa manobra mal conduzida por António Bairrada, o próprio pai do pequeno, da Torreira, quando da construção do Campo de Aviação de Maceda.
[12] Uma senhora que possui uma campa próxima desse lugar, Encarnação Oliveira Duarte, da Rua Marechal Zagalo, nascida em 18/10/1932, afiança-nos que lhe perguntaram muitas vezes pela campa da “menina assassinada”.
[13] Manuel Gomes Viela, nascido a 16/1/1931, actualmente a residir no Bairro de S. José, era, então, casado com Emília Piqueiro. 
[14] Sobre este assunto alguém escreveu no “Notícias de Ovar” de 19/9/1963: “Graças à generosidade do nosso povo o mausoléu de Ana Rosa é um facto! E como se constata e a gravura demonstra claramente, a Comissão – composta pelas Sras. D.as Maria do Céu Duarte, Maria Celeste de Oliveira, Maria de Jesus Ferreira, Maria do Carmo Salvador, Nazaré Sanfins Matos e Nazaré Taira – não se poupou a esforços no sentido de conseguir os donativos precisos para uma despesa tão elevada - 16.810$00! O terreno da sepultura foi comprado em 24 do mês passado pela quantia de 1.500$00.O mausoléu, adquirido em Vila Nova de Gaia, esc. 15.000$00. Há ainda a registar a quantia de esc. 310$00, provenientes de várias despesas. Ficou um saldo de escudos 328$00 que será aplicado num acessório para colocação de cera na sepultura. Pede-nos a Comissão para em seu nome agradecer a todas as pessoas que contribuíram com donativos para que esta iniciativa fosse levada a efeito.”
[15] Um rapaz de S. João de Ovar cujo pai era funileiro e a mãe vendia moinhos de papel.
[16] O termo mártir só pode ser atribuído em casos de comprovadas virtudes heróicas. A referência (nota 15) a “cera na sepultura”, indica a intenção implícita da Comissão em condescender com um certo culto público, situação a que a Igreja sempre esteve alheia. Entre os objectos trazidos em razão de “graças” supostamente alcançadas, conta- se um cordão de ouro, oferecido, há muitos anos, por Maria do Céu Pinho, das Quintas do Norte, que foi vizinha e amiga de Ana Rosa, peça que, segundo nos diz, foi entregue ao cuidado da Ordem Terceira de S. Francisco.


É com facilidade que este monumento funerário de Ana Rosa se descobre no Cemitério de Ovar, porquanto, decorridos 50 anos após a sua morte, ainda é um local de veneração e de cuidados

5 - Alguns dados sobre o criminoso

António Joaquim da Silva Godinho, filho de António Joaquim da Silva Godinho e de Maria Pereira Valente (“Maria Arada”), nasceu em 27/11/1925 em Ovar, residindo na Travessa da Rua Castilho (Poço de Baixo)[1].
Frequentou a escola primária com os Professores Patrício e Baptista [2].
Esteve internado na tutoria, quando menor.
O 1.º emprego foi na fábrica de tintas das Luzes, de Abreu, Silva & Gomes[3].
Depois do fecho daquela, fez-se engraxador[4].
Homem de aparência pacata mas, como referem os jornais da época, com antecedentes criminais, vinha, desde há tempos, a importunar a Ana Rosa[5].

Ao centro, entre o talho S. da Graça e o Estudio Almeida, na Rua Dr. Elias Garcia,
fica a porta da antiga barbearia de Luís Pereira

Na noite de 22 de Janeiro de 1955, esperou, junto à ponte do rio Cáster, na Rua Elias Garcia, que por ali passasse a rapariga, na missão habitual de levar a ceia ao patrão, a quem servia desde Setembro anterior. Quando ela regressava da barbearia, cerca das 20 horas, num gesto premeditado, tirou-lhe o xaile e atirou-o ao rio[6].
Reagindo a frio, na ânsia de recuperar o agasalho, e sem se aperceber das intenções do engraxador nem dos perigos decorrentes, desceu a escadaria que tantas vezes utilizara para lavar roupa, dando tempo a que o Godinho, descendo também rapidamente ao rio, consumasse o crime, não obstante a luta travada pela vítima na defesa da sua honra, luta que lhe deixou no pescoço algumas equimoses, e nos braços do assassino marcas suficientes para o comprometerem e levarem à prisão.
Até ao fecho do julgamento, o Godinho permaneceu detido na cadeia de Ovar, tendo merecido, à saída, um atestado de comportamento exemplar, passado pelo carcereiro Rocha.
Álvaro Pinho Branco, bombeiro desde 1955, informa que em 1957 encontrou, em Aveiro, nas obras do Palácio da Justiça[7], o Godinho e um outro vareiro, o Boanerges, ambos trabalhando em regime prisional, com direito a remuneração.
Durante o tempo de reclusão no Estabelecimento Prisional de Coimbra, o Godinho teve bom comportamento, confirmado pelo Capelão, que frequentemente contactava a família.
Por força do Decreto-Lei 259/74, a sua pena foi reduzida para metade, o que deveria significar a libertação imediata. No entanto, só saiu em liberdade 3 anos e 5 meses depois, em 24/10/1978, com a obrigação de se apresentar periodicamente num posto da GNR.
Após a saída do cárcere, o Godinho passou a exercer a profissão de marceneiro na Fábrica Bom Sucesso, em Quintãs, Aradas (Aveiro), com direito a comida (na cantina da fábrica) e a dormida (nuns anexos, que partilhava com outros operários)[8]. Após a falência dessa empresa, mudou-se para outra similar, também nas Quintãs.
Vinha semanalmente a Ovar, a casa da mãe, na Ponte Reada, entregando-lhe uma parte do dinheiro que ganhava[9].
A quem o encontrava mostrava-se arrependido e conformado com o castigo.
Dizia-se que vinha “convertido”, muitas vezes sonhando com ela.
Alguém terá comentado:
– Ali vai o que matou a Ana Rosa. Coitado! Quem sabe se a intenção dele não era matar. Até a terá deixado ainda viva, acabando ela por morrer afogada!...
Há mesmo quem afirme tê-lo visto junto da campa de Ana Rosa a chorar…
Faleceu em 29 de Maio de 1987 na freguesia da Glória (Hospital de Aveiro), constando do seu registo de óbito (n.º 346/87) que vivia em Ervosas, Ílhavo, solteiro, e que foi sepultado no Cemitério Sul de Aveiro.
A mãe teve um outro filho legítimo (o mais velho), José da Silva Godinho, também natural de Ovar, que foi engraxador e que residiu no Bairro de S. José.
De outros pais, teve ainda António Valente Godinho, nascido em Montemor-o-Novo e residente em Ovar, casado com Lutília Ribeiro, e Manuel Valente Godinho, natural de Ovar e residente em Braga.

Registo de nascimento de Ana Rosa em 17 de Junho de 1943
(Registo Civil da Murtosa)

Certidão de Óbito de Ana Rosa, conservada no Arquivo Paroquial de Ovar

6 – Conclusão

Algumas achegas
Não querendo, para já, acrescentar dados complementares a quanto foi aqui publicado nos quatro últimos números do “João Semana”, achamos pertinente acrescentar-lhe duas achegas, em ordem a algumas correcções. (Outras já foram feitas)
1 – O funeral foi em 25/01, às 11:30 horas[10], passando “junto ao Tribunal (actual Câmara Municipal) por entre alas compactas de povo”, “na ocasião em que o assassino confessava a sua vil proeza”[11], constituindo “a maior manifestação de pesar de que há memória”[12].
2 – A Ana Rosa apenas frequentou a escola das Quintas do Norte. Os cinco escassos meses vividos em Ovar foram passados praticamente dentro da casa dos patrões, na Rua Padre Ferrer, com raras saídas para recados e pequenos serviços[13].

Um voto
Sem querer ferir susceptibilidades ou a recta intenção de cada um, aconselhamos os amigos de Ana Rosa a que não caiam em excessos devocionais.
Sabemos que o Reino dos Céus é dos simples, dos puros, dos perseguidos, dos arrependidos.
Acreditamos que, em relação a Ana Rosa, ela, que era simples e foi perseguida, tenha também, quando violentada, sido corajosa na defesa da sua honra, tal como tem acontecido a muitas outras jovens, vítimas dos maus instintos de pessoas sem escrúpulos.
Um voto aqui deixamos: Que a nossa boa gente veja na sua morte violenta e injusta um apelo estimulante em ordem à preservação da dignidade feminina.

Um apelo
Este despretensioso trabalho, feito de boa-fé e desinteressadamente, tem como única finalidade trazer para os nossos dias, com a ajuda de testemunhos pessoais, um acontecimento que, fazendo parte da história desta terra, deverá ser transmitido aos vindouros nos seus verdadeiros contornos.
Admitimos, no entanto, que possa haver algumas falhas e imprecisões. Por isso, agradecemos, por isso, aos nossos leitores as correcções e as achegas que puderem transmitir-nos, porquanto poderão contribuir, numa possível reedição, para tornar esta narração mais completa e fidedigna.
Agradecimentos
Queremos deixar aqui os nossos agradecimentos a quantos colaboraram connosco com as suas informações e ajudas. Gente de Advocacia, da Imprensa local, da Câmara e da Biblioteca Municipal, da Casa-Museu da Ordem Terceira de S. Francisco, do Tribunal de Ovar, de uma tertúlia de café, das famílias dos intervenientes neste drama e da população em geral.
Não se citam aqui nomes, para não se cometer alguma omissão injusta, mas alguns vêm registados no texto.

Notas
[1] “O Primeiro de Janeiro” de 24/1/1955 afirma que o António Joaquim residia no “lugar do Poço de Baixo”, tal como escrevemos em 15/1/2005. No entanto, também morou no Bairro de S. José, e, depois, no Bairro da Misericórdia (inaugurado em 27/4/1949).
[2] Por ser um bom aluno, “tomava conta” dos colegas na ausência do professor. O irmão Joaquim da Valente Godinho, que teve mau aproveitamento escolar, afirma que ele tinha uma bonita caligrafia.
[3] Sobre esta firma, que deu lugar às Tintas S. João, ver M. Pires Bastos, “Ovar - onde a cor tem berço”, na Revista Reis 2005.
[4] Outros dos 7 ou 8 engraxadores de então: Laborins (Chalupas), Roque (do Casal), Eduardo Guardassoleiro.
[5] Segundo o “Jornal de Notícias” de 26/1/1955, “o indivíduo, de má reputação, dias antes fora visto a conversar com a rapariga”. Ver no “João Semana” de 15/1/2005, a nota 8.
[6] Esta versão, que nos foi apresentada por António Gama e por outras pessoas, diverge um tanto da de Aníbal Gomes, publicada na última edição deste jornal.
[7] Na cadeia, o Godinho aprendeu a arte de carpinteiro. Trabalhou, inclusivamente, no Palácio da Justiça de Ovar (adjudicado em 22/11/1961 e inaugurado em 24/6/1966), o que terá provocado, em 1963, uma onda de revolta na população, com tentativa de linchamento (informação do irmão Joaquim e de António Mendes Pinto).
[8] Este emprego tinha sido arranjado pelos Serviços Sociais quando estava ainda na prisão.
[9] Esse dinheiro, depositado em caderneta bancária, acabou ele próprio por o levantar após o falecimento da progenitora, ficando o irmão António Joaquim Valente Godinho (Pinovai), com uma quantia de dinheiro que ele conseguira no Totoloto.
[10] “Jornal de Notícias”, 26/01/55
[11] “O Primeiro de Janeiro”, 26/1/1955.
[12] “O Comércio do Porto”, 27/4/1955.
[13] Só cinco anos após o assassínio da menina e depois de ter passado o seu estabelecimento da Rua Elias Garcia, é que Luís Pereira abriu outra barbearia, com loja anexa, na Rua Cândido dos Reis. (Já ali estava em 1960, quando do regresso da tropa do empregado José Maria Pereira, então com 22 anos, filho da madrasta de Ana Rosa, que, como esta, também vivera na casa dos patrões, na Rua Padre Ferrer.)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 JAN., 1 FEV., 15 FEV. e 1 MARÇO DE 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/01/assassinato-de-ana-rosa-foi-ha-50-anos_30.html

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