15.9.13

O fim do Largo da Poça?

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2012)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

A regeneração urbana no casco velho de Ovar está em andamento moderado e cadenciado. As obras de reabilitação trazem sempre o propósito de acrescentar qualidade de vida aos seus munícipes.
A Arruela, ou “ruela”, situa-se na zona nascente da cidade, e abarca um extenso espaço que perde as suas raízes nos emaranhados caminhos do tempo.
Façamos um pequeno introito, para situarmos a Arruela, com o seu bairro característico, no mapa da freguesia de Ovar desde meados do século XVII.

A entrada na vila de Ovar pelo lado nascente fazia-se pela Ruela, que conduzia os povos vizinhos, principalmente de Válega e S. Vicente de Pereira, ao mercado semanal, que se realizava no centro da vila, junto aos antigos Paços do Concelho.

Um açougue na Ruela

A população da Ruela dedicava-se principalmente à pesca, primeiro na ria e, mais tarde, no mar.
Na vila, próximo dos paços do concelho, existia um açougue que abastecia de carne a população. Só que, enquanto os vareiros mais abonados se abasteciam facilmente, os pescadores, que regressavam à vila no fim de semana, depois de uma companha na costa, que batiam desde São Jacinto até Espinho, já não encontravam o açougue aberto. Isto motivou-os a fazerem uma petição ao Rei D. Filipe II (1580 – 1640) para permitir a construção de um açougue na Ruela, com garantia de que o preço da carne fosse o mesmo praticado no açougue da vila.
No seu livro “Memórias e Datas para a História da Vila de Ovar”, escrito em 1868 e publicado em 1959 pela Câmara de Ovar, o Dr. João Frederico Teixeira de Pinho publica duas cartas relativas à concessão deste segundo açougue para a vila.
“Dom Filipe por graça de Deus Rei de Portugal e dos Algarves d’aquem e d’alem mar (…), os pescadores e arais da vila de Ovar me enviarão dizer por sua petição que o açougue que avia na dita villa não bastava mais que para os officiaes da câmara escudeiros e gente nobre d’ella. E por esse respeito elles suplicantes por virem tarde aos sábados e domingos pela manhã não achavam carne para tomar (…) e querião dar a isso remédio por serem mais de dusentos pescadores (…)”.
O Rei aprova a petição dos pescadores e manda abrir um segundo açougue na vila localizando-o na Ribeira. Os pescadores voltam a suplicar à coroa, explicando que a classe piscatória residia na ruela, e seria mais profícua a sua abertura no seu bairro, e obtêm resposta positiva: “Dizem os pescadores e arais da Vila (…) não podem ter na Ribeira d’ella o dito asougue nem carniseiro porque não há carne que baste para a villa nem para eles (…) pedem a vossa Magestade lhes faça mercê mandar por postilha na dita carta para que possão ter o dito assougue e carniseiro no lugar da Ruella termo da dita Villa cõ todas as clausulas declaradas na dita carta (…)”.
A confirmação da alteração do lugar da construção do açougue também a temos registada no livro do Dr. Frederico. O lugar da Ruela era um aglomerado importante, incluído no termo da vila de Cabanões, e mais tarde integrado na Vila de Ovar. Ali  se situa o característico largo da Poça, nome que lhe advém da confluência das águas da chuva que ali ficam retidas.

Largo da Poça

Espraiemo-nos um pouco sobre o largo da Poça, eixo central do bairro da Arruela, regressando ao livro do Dr. João Frederico Teixeira de Pinho, que nos transporta até ao século XVII e nos passeia pelo largo citado.
“É de forma triangular, com base para o nascente, não calando, resultando da bifurcação da rua dos Ferradores nas Ruas do Pinheiro e Bajunco, cujas faces são formadas por casas térreas. Tem um cruzeiro à volta do qual giram as procissões saídas de S. Pedro e S. Miguel, situados nos extremos opostos da Ruela. À distância de 180 metros havia um outro, no meio da rua principal, que foi abatido na noite de 12 de Junho de 1867, quando se começou de reconstruir à mac-adam. Sendo arvorejado em 1863, já não tem, há mais de um ano, uma só árvore!...”.
O largo da Poça fica num ponto intermédio entre duas elevações. Partindo de poente para nascente, deixamos o bairro de S. Pedro, extremo poente do bairro da Ruela, e rumamos ao extremo nascente, ao encontro do largo de S. Miguel, onde antigamente se realizava uma feira mensal no dia 29 de cada mês.
O nome do largo de S. Pedro passou a ser assim referido pelo povo, passou de geração em geração por existir ali, antes da construção da capela do Calvário, uma capela em honra de S. Pedro.

Largo da Poça, atualmente Largo Santa Camarão, com o monumento
 do artista ovarense Emerenciano, dedicado ao pugilista
Deixamos o largo, onde viveu o Dr. João José da Silveira, médico do partido – o Dr. João Semana de Júlio Dinis –, e rumamos a S. Miguel, destino da nossa viagem. Subindo a Rua Coronel Galhardo, residência da família Fragateiro, ligada à política local, passamos à Casa Provincial do Instituto Jesus Maria José, entramos na Rua Visconde de Ovar, onde residiram familiares do Visconde, e deparamos com o largo da Poça, atual Largo Santa Camarão, nome grande do desporto nacional. Um pouco mais além encontramos o largo das Tricanas, bifurcação das Ruas Capitão Leitão, Ferreira Meneres (benemérito de Ovar) e Visconde de Ovar, tendo ao centro um chafariz datado da última década do século XX, que substituiu o anterior, uma peça artística de finais do século XIX, que para ali veio da entrada do Lamarão, e que acabou ingloriamente destruído.
O espaço que medeia entre a Casa Provincial e o largo das Tricanas, por ser uma zona plana, concentra, após uma chuva intensa, um grande lençol de água, particularmente no largo da Poça, que daí retira a sua denominação popular, já registada nos livros de atas camarárias desde o século XVIII.
Integrado no coração da malha urbana da vila, o largo da Poça é referenciado em 1865 no livro de atas n.º 29 da Câmara Municipal. Em resposta ao orçamento apresentado pela Câmara de Ovar, o conselho de distrito, que validava os orçamentos camarários, acordou, em sessão de 14 de julho de 1863, deslembrasse completamente outros melhoramentos de grande alcance ou de mais urgente necessidade como o da poça, e rua velha da ruella o da rua dos maravalhas continuação da rua do loureiro, largo e rua dos campos, travessa das ribas para o casal, passagem da rua do pinheiro para Guilhovai e sobre tudo o abastecimento d’águas que é a primeira necessidade da população da vila de Ovar para que o conselho chama a especial atenção da câmara actual e das futuras (…) Secretaria do governo civil d’Aveiro 16 de Julho de 1863”. (Acórdão n.º 33)

Rua da Arruela

Na sessão camarária de 28 de abril de 1864, a vereação aprovou a construção da estrada que era a entrada na vila pelo lado nascente da ruela: “ (…) Disse mais o presidente que sendo a rua da ruela a maior desta vila (…) pela qual havia imenso transito vindo a ser a única por onde entravam as pessoas que vinham da populosa freguesia de Válega, da freguesia de S. Vicente e (…) freguesias limítrofes deste concelho pelo nascente. E achando-se calçada pelo sistema antigo e muitíssimo arruinada devido decerto à muita passagem que por ela se faz, tornando-se não só incómodo anda-la a pé, mas até perigoso transita-la em carro ou a cavalo e havendo de mais alguns pontos em que as águas estagnavam e apodreciam com grande prejuízo da saúde publica propunha igualmente que fosse renovada construindo-a pelo novo sistema de estrada (…)”.
Na sessão camarária de 25 de julho de 1867 a Câmara pôs em arrematação a construção da estrada da Ruela.
“Auto de arrematação da estrada da ruella por 997.000 reis
(…) Assistindo também o Exmo. Director das obras públicas Silvério Augusto Pereira da Silva, mandou a câmara por em arrematação a construção do lanço da estrada da ruella em harmonia com a planta e condições patentes neste acto (…)”.
“Na sessão camarária de 13 de Setembro de 1868 (…) auto de arrematação do levantamento da calçada da poça (…) o arrematante dará todos os materiais para os precisos aterros devendo a calçada ser feita regularmente e conforme as condições estipuladas para as outras calçadas. A calçada será levantada de forma que as águas venham correr pela estrada da ruella e a câmara indicara as alterações que se devem fazer (…)”.

Conclusão

Como se depreende das sucessivas intervenções das renovadas vereações ao longo dos sucessivos mandatos, não conseguiram eliminar as dificuldades encontradas para suprimir o problema na sua raiz, finar o largo da Poça.
As obras em curso neste anos de 2012, têm como finalidade evitar as cheias que em cada ano vamos suportando, mas na topografia vareira o largo da Poça perpetuar-se-á no tempo, mesmo que a solução encontrada resolva o problema na sua raiz.
A regeneração urbana que está em curso no casco velho da cidade poderia revitalizar os nomes toponímicos usados pelos nossos antepassados e fixá-los junto ao nome atual, como é proposto pelo Dr. Lamy na monografia de que é autor.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/09/o-fim-do-largo-da-poca.html

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