27.9.13

O culto de N.ª Sr.ª da Cardia

N.ª Sr.ª da Cardia
Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2006)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Os templos da sua história

O título de N.ª Sr.ª da Cardia corresponde a uma pequena imagem em madeira, com cerca de 25 cm de altura, existente em casa de D. Maria Glória de Oliveira Silva, veneranda senhora de 96 anos[1], viúva de Gaspar Rodrigues Leite[2].
Vive a D. Glória em Cimo de Vila, na estrada de Ovar para Cucujães, em frente ao eucalipto centenário.
A imagem, possivelmente do séc. XIX, esteve ao culto nas primitivas alminhas situadas no local onde se encontra a actual capela de Cimo de Vila, mas mais recuadas da estrada, em terreno de uns Costas, por alcunha os Pêssegos.
Depois de ter comprado esse terreno com a casa anexa, o casal Gaspar e Maria Glória resolveu fazer, no local, uma festa em honra de N.ª Sr.ª da Cardia, enfeitando esse espaço, que normalmente se encontrava muito sujo, e que, a partir daí, ficou com aspecto mais atraente.
Surgiu então ao Gaspar a ideia de construir ali uma capela a sério, com paredes e telhado, apta a receber um altar onde se rezasse Missa.
Para o efeito, ele mesmo derrubou os velhos muros laterais, contratou um mestre pedreiro, comprou cimento e cal, e transportou no seu carro de bois a pedra necessária para a obra.
Iam já avançadas as paredes quando surgiu, inesperado, o primeiro entrave: ao passarem por ali os fiscais da Câmara, alertados pelo cantoneiro da zona, e ouvindo da boca da D. Glória que a obra não tinha licença, logo a embargaram.
Um filho do Gaspar, lesto como uma lebre, pondo pés ao caminho, chegou ao Furadouro, dando conta do ocorrido com o pai, então a trabalhar no mar com os seus bois.
Regressado de imediato, resmungou este ao cantoneiro:
 Olhe que eu não tirei licença, nem tiro! Porque a capela não é para dar lucro. E digo mais: se me der licença, findo-a. Se não, fica mesmo como está…
Comunicado este diálogo ao fiscal, não tardou ele a vir dar ordens para terminar a empreitada.
Se as antigas alminhas já eram muito procuradas por devotos, que invocavam a Senhora da Cardia para que lhes valesse nas suas doenças, particularmente do coração, mais passou a sê-lo a nova capelinha, que feria mais a atenção dos viandantes, em especial das peixeiras que por ali passavam na venda de pescado.
Até gente de longe, que fazia com frequência o percurso da serra para Ovar, ali parava um pouco, invocando a intercessão da Virgem.
O pequeno templo, que começou a aglutinar à sua volta a população do lugar, foi-se tornando centro de culto, permanecendo assim ao longo de várias dezenas de anos, até que um grupo de bairristas decidiu avançar com o projecto de uma capela grande, onde todos pudessem cumprir o preceito dominical.
Contactados os proprietários, estes, anuindo à vontade do povo, cederam o domínio da velha capelinha e venderam o terreno anexo para que fosse implantado o novo espaço sagrado, pondo como condição ficarem com a velha imagem da patrona da capela, bem como com uma de S. José, de tamanho igual.
Assim nasceu a actual capela de Cimo de Vila, mantendo-se a anterior ao lado, servindo de  sacristia, e passando a haver ali, ao Domingo, Missa de preceito, e realizando-se no mês de Maio a festa anual[3].

NOTAS:
[1] Nascida em 15/10/1907.
[2] Nascido em 1898 no Sobral, e falecido cerca de 1980. Era parente da Aurora, zeladora da capela do Furadouro.
[3] O culto popular sob a invocação da Senhora da Cardia é diminuto. Há poucos anos, uma mulher do Salgueiral, cujo marido era de Guilhovai, fez-lhe uma promessa, e cumpriu-a.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Maio de 2006)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/09/o-culto-de-n-sr-da-cardia.html

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