21.9.13

A Senhora do Desterro e o Sobral doutros tempos

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2011)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Ponte do Sobral - Saída para o lado sul (anos 50 do séc. XX)
FOTO: Alexandre Seixas

Nos dias 1 e 2 de Maio último realizaram-se as festividades anuais em honra de Nossa Senhora do Desterro, no lugar da Pedreira, Arada, festa que noutros tempos fazia parte de um conjunto de romarias típicas, tais como a de Nossa Senhora das Necessidades, em Nadais, Senhora da Saúde da Serra, em Vale de Cambra, Senhora de Lourdes em Carregosa, São Lázaro em S. Martinho da Gândara, e muitas outras em várias localidades vizinhas de Ovar, todas elas atraindo muitos forasteiros nossos conterrâneos.
Deslocando-se a pé, em grupos animados, ao ritmo de tambores, violas e pandeiretas, esses romeiros paravam em alguns locais por onde passavam, formando danças de roda e cantando cantigas da nossa terra, muitas delas integradas, hoje, no repertório de Grupos Folclóricos.
Depois dos anos 70 do séc. XX, foi-se desvanecendo o entusiasmo da nossa gente por estas romarias, como por muitas outras coisas do passado, e, embora quase todas essas festas continuem a realizar-se, já não arrastam as multidões de outrora.

A ida para a festa

Capela de Nossa Senhora do Desterro - Arada
A festividade em honra de Nossa Senhora do Desterro é antiquíssima, como se depreende de um documento existente na Junta de Freguesia de Arada, onde se afirma que já se realizava em 1747, sendo Pároco dessa freguesia o Reverendo Padre José Tavares Ferreira.
Quase dois séculos depois, o jornal “A Defesa”, de 27 de Março de 1921, anunciava que “na forma dos anos pretéritos terá lugar nos dias 3 e 4 de Abril a grande Romaria do Desterro em Arada. O concurso do povo a esta grande festividade, é sempre distinto pelo número, podendo quase afirmar-se que as Freguesias da Murtosa, Pardilhó, Avanca, Válega e outras vizinhas de Arada, se despovoam em ranchos e carradas para esta Romaria, no seu primeiro dia. Na segunda-feira, o mesmo acontece a Ovar”.
Confirmando esta notícia, trago à minha memória a vivência pessoal desta romaria nas décadas de 40 e 50 do séc. XX, em que decorreu a minha juventude.
Com familiares e amigos, seguíamos a pé, pela manhã de segunda-feira, na direcção da Ponte Nova, onde tomávamos o caminho do Sobral, levando connosco o farnel dentro de cestos, transportados por várias pessoas do grupo. Chegados à casinha da Mãe d’Água, era costume atirar-se uma pedra contra a porta de ferro, o que provocava uma ressonância muito forte, com algo de supersticioso. (Nunca consegui saber verdadeiramente o motivo dessa tradição, embora ouvisse dizer, algumas vezes, que “era para não secar a mina de água…”.)
Continuando por aquela estrada, de piso empedrado, sem asfalto, rodeada de pinhais e terras cultivadas que o vento fazia ondular, espalhando, com a brisa, os zumbidos dos grilos, muito numerosos na época por aqueles sítios, prosseguiu a caminhada, pela Murteira.

Moinhos do Sobral (anos 50 do séc. XX)
FOTO: Alexandre Seixas

A meio da actual Rua das Quintas de Baixo, já em direcção à Capela, começávamos a ouvir os altifalantes dos divertimentos e as vozes dos guardadores de bicicletas pedindo, incessantemente: – Guarde aqui, ó freguês, guarde aqui! E estas vozes misturavam-se com outras bem diferentes, algumas delas lancinantes, saídas das bocas dos pobres espalhados ao longo das valetas, como autênticos Lázaros, com doenças horríveis, estendendo a mão e pedindo esmola, pelas almas das nossas obrigações!...
No final da jornada entrávamos na Capela, onde alguns tinham promessas a cumprir, seguindo, depois, para um pinheiral, onde comíamos do farnel. Entretanto, as bandas de música tocavam nos coretos, enquanto nas eiras de algumas casas de lavrador se dançava até ao fim do dia.

No regresso...

Paisagem idílica do Rio Cáster
(Sobral, anos 50 do séc. XX)

FOTO: Alexandre Seixas
O nosso grupo saía da Senhora do Desterro a meio da tarde, regressando pelo Sobral, onde, perto da ponte, se merendava com o que restava do almoço, confraternizando com outros grupos que por ali descansavam, sentados no chão e de toalhas estendidas, tal como “naquele picnic de burgueses” de que nos fala Cesário Verde no seu poema “De Tarde”.
O Sobral, antes da moderna ligação com a estrada A-29 e da rotunda construída no actual séc. XXI, era um lugar idílico, sossegado, que muitos aproveitavam para fazer a sua festa, comendo, dançando, ou usufruindo dum belo descanso à sombra de frondosas árvores, vendo passar os ranchos no regresso da romaria e assistindo ao espectáculo dado por festeiros que denotavam alguma falta de equilíbrio…
Actualmente, a Senhora do Desterro possui um espaçoso e bonito largo, inaugurado em 2003, depois de uma grande remodelação e ampliação do antigo, oferecendo acessos diferentes dos que conheci nos anos 40/50 do século passado.
Hoje, nos dias de festa, podemos ouvir o mesmo som dos altifalantes dos carrosséis e das bandas de música. Mas falta o ambiente doutros tempos!...
Quanto ao bucólico recanto do Sobral em redor da ponte, ele está de tal modo transfigurado que o murmúrio das águas que ainda vão correndo no rio mais parece um choro de mágoa a recordar o passado.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Julho de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/09/a-senhora-do-desterro-e-o-sobral.html

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