2.8.13

Ovar já existia no tempo do Império Romano?

Avare (Aveiro?) - Lavare (Ovar?)

Jornal JOÃO SEMANA (01/08/2013)
TEXTO: Manuel Malícia

Todos os historiadores concordam com a existência de comunidades humanas na região vareira desde os primórdios da nossa nacionalidade, em virtude de existirem documentos que o provam. Como não acredito em “vacas sagradas” e em verdades absolutas, permitam uma reflexão, discutível, obviamente (mas fundamentada), sobre a origem de Ovar.
Desde logo, clarifico que não concordo, de modo pacífico e inquestionável, com a argumentação de que Ovar resultou de uma simples transferência da população de nascente para poente. Sugiro, por isso, que seja admitida a possibilidade de ter havido, nos tempos medievais, uma população residente nas zonas onde hoje conhecemos Ovar e S. João de Ovar. Mas poderemos ir mais longe. Importa recuar mais no tempo.

O sal e as marinhas em Cabanões

Se os investigadores concordam que as águas salgadas não se encontravam, outrora, na linha de costa atual, mas invadiam o interior do território, não é para admirar que encontremos registos relacionados com Cabanões e S. Donato que comprovam a existência de salinas em Ovar.

Lugar de S. Donato, onde se situava um dos primeiros templos de Ovar
(Um dos painéis de azulejo da Estação de Ovar)

Dada a importância dessa atividade económica, seria natural que os nossos antepassados se congregassem naquelas zonas, e que a Igreja ali prestasse os serviços religiosos numa capela ou ermida. Será que com a decadência da atividade salineira a população não teria descido em direção ao mar, para junto de uma comunidade mais pequena aqui já existente. Tal tese implicaria a aceitação de que duas comunidades existiram em simultâneo. Esta leitura pode ser feita a partir das inquirições de 1260: nessa época são inquiridas pessoas de Ovar sobre as salinas de Cabanões, circunscrição cujo território se estendia ao longo da costa, entre o mar e a ria. O documento que prova esta versão, e que transcrevemos mais adiante, torna compreensível a deslocalização do eixo da comunidade (civil e eclesial) em direção ao mar como principal causa da criação do espaço central e urbano que atualmente reconhecemos como Ovar. Só que isso não invalida a possibilidade de no local onde hoje identificamos Ovar moderno ter existido outra localidade e com um nome que lhe deu origem. Vamos aos factos e aos documentos.

Zona de antigas marinhas, junto à marinha de Ovar
A historiadora Virgínia Rau refere que “em 10 de Março de 1101, vários irmãos vendiam a D. Soeiro Fromarigues e a sua mulher Elvira Nunes diversos bens em S. Donato, entre os quais eram discriminadas salinas”. Mais acrescenta que as salinas de Cabanões eram “um núcleo de produção, onde, em Outubro de 1260, fez minuciosa inquirição o juíz da Feira e o pretor de Gaia, assistidos pelo tabelião da Feira. Ouvidas as testemunhas, algumas de Ovar, apurou-se que todas as marinas pagavam foro ao rei exceto as que tinham sido de Pelagio Arie, de Martinho Barragam, do Conde , e uma do Bispo do Porto feita havia vinte e cinco anos, “et dixerunt que domnus Vermudus Judex qui mortus est iam dixerat que daret unum milleyrum de sale si dominus rex vell” [e disseram que o senhor vermudo juiz que já defunto dissera que daria um milheiro de sal se o senhor rei quisesse].
Depois de medidas as salinas, declaram que o alqueire de Sangalhos era a teiga do sal de Cabanões, no celeiro de el-rei; nas marinhas velhas uns talhos pagavam um módio, outros cinco, seis ou sete “quartarios”, mas a maioria dava dois módios.
Os tributos e condições em que as salinas velhas e novas foram feitas mantinham-se tal e qual o costume usado em tempo de D. Sancho I, D. Afonso II, D. Sancho II e de D. Afonso III, então reinante.
Que o fisco devia vigiar ciosamente esse recanto salineiro, é prova sobeja o referir-se no inquérito que a primeira inquirição aí feita o fora no tempo em que a Rainha D. Mafalda “tenebat ipsam terram de Cabanoes”, como depois a tivera Martim Afonso e Nuno Peres a tinha então. (Nota: Pelo conteúdo do próprio documento, referindo o uso antigo em vigor desde o reinado de D. Sancho I, a senhora da terra, a Rainha D. Mafalda é, sem dúvida, a filha de D. Sancho I”).

Lavare – Ovar romano?

Se é incontestável a existência de Ovar na viragem do milénio, importa procurar na ombreira do tempo o seu registo mais antigo. A existência de salinas aponta para um território parcialmente inundado de água salgada, encharcado e com canais que os nossos antepassados foram “domesticando” para garantir a sua sobrevivência.
Todos sabemos da importância que o sal tinha no império romano e, por isso, julgo que posso deixar um contributo – naturalmente discutível como tudo na área da investigação – para a revelação da origem mais remota de Ovar.
A versão que agora apresento está documentada e visível no mapa original que aqui se publica e de que me fiz acompanhar na sessão solene das comemorações do 25 de Julho de 2013, na Câmara Municipal.
De acordo com esse mapa, nunca referido pelos nossos historiadores locais, existia na Lusitânia, nesta zona da nossa costa, a norte do rio Vouga, uma povoação supostamente do tempo romano, contemporânea de nomes conhecidos como Talábriga, Lancóbriga, Conimbriga, Pax Julia e Olisipo.
Essa povoação, denominada Lavare, localiza-se, no mapa, dentro do nosso espaço geográfico, a norte da ria, cuja entrada, a sul, é claramente identificada como Portus Avare (o Alavarium medieval das salinas de Aveiro, contemporâneas das salinas de Cabanões de Ovar, situadas entre a Marinha e outras zonas ribeirinhas).
Esta versão pode ser confirmável através da consulta do Atlas de Géographie Physique, Politique et Historique, da autoria de Grosselin-Delamarche, publicado em Paris no ano de 1869, atlas este que reproduz mapas antigos e que era utilizado nas universidades francesas no século XIX.


Perante estes dados, deixo à consideração a seguinte possibilidade: no território do atual Concelho de Ovar existiu, durante o Império Romano, uma localidade designada Lavare, termo que, segundo o dicionário latino de Francisco Torrinha, deriva do mesmo termo verbal latino usado apenas na prosa, e que significa lavar, molhar, regar, inundar. Assim, tudo indica que os romanos chamariam a esta zona terras para regar, molhar ou inundar. Será abusivo associar as salinas à ação de inundar as terras com as águas salgadas muito disponíveis na grande lagoa a que hoje chamamos Ria?

O saber provisório

Do ponto de vista científico, e com os elementos disponíveis, não podemos atribuir ao topónimo originário de Ovar qualquer relação com a extração de sal durante o período de ocupação romana. Mas ponderando que, na Idade Média, uma das principiais atividades com relevância económica nesta zona era a exploração salineira, será que não estaremos autorizados a inferir que tal atividade remontaria ao tempo dos romanos? Mais acresce que a historiadora Virgínia Rau, nos Estudos sobre a história do Sal Português, procura descodificar a expressão in alavario, referindo-se a salinas localizadas, como mera hipótese, em Aveiro. 


Os campos marginais do lugar da Marinha, nas margens de antigas marinhas de sal

Veja-se o que se afirma: “Caminhando para Sul, no território de Coimbra e em 26 de Janeiro de 959, doava a rica e poderosa D. Mumadona ao Mosteiro de Guimarães terras e salinas in alavarioSobre esta expressão latina a autora afirma que “alguns autores pensam poder identificar-se Alavario com Aveiro”. O que não invalida a minha perspetiva, como atrás fundamentei, já que as terras alagadas e salineiras de “alavario” que existiram na Baixa Idade Média, suportam os termos mais antigos de lavare e portus Avare, que poderão explicar a origem romana de Ovar e Aveiro.
Reconheço que esta nova versão possa causar alguma controvérsia, mas, como disse, está fundamentada, e constitui-se como um desafio para os investigadores. Não se trata de uma simples interpretação histórica. O objetivo é partilhar o que encontrei e sugerir uma possibilidade. O importante para mim sempre foi a procura do novo e do desconhecido com a humildade do saber provisório.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de agosto de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/08/ovar-ja-existia-no-tempo-do-imperio.html

Sobre as marinhas de sal de Ovar veja AQUI

1 comentário:

Anónimo disse...

O mapa referido encontra-se on-line, no site da Biblioteca Nacional.
Marco Pereira

http://purl.pt/756