15.8.13

O Sr. Costa da Boa Nova

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2012)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

António Ferreira
da Costa
Tendo eu falado, na última edição do João Semana, das filhas de António Ferreira da Costa, antigo empresário de camionetas de S. Vicente de Pereira, bem como da mais-valia que elas representaram na obra do seu Pai, quero hoje falar do Sr. Costa, que, com a ajuda das professoras, soube formar umas filhas que o enchiam de orgulho e que valorizaram a sua terra.
Conheci o senhor António Ferreira da Costa numa quinta-feira de outubro de 1958, na Papelândia. Entrou com um sorriso de conquistador, de quem sabia que entrava numa casa amiga.

A aula do senhor Naves
O Sr. Freire apresentou-mo como dono dos autocarros da  Boa Nova, mas ele não se contentou com as palavras do Sr. Freire. Querendo brincar com o senhor Naves, marido da D. Eugénia, que tinha sido professora pelo menos de uma das suas filhas, sentenciou: –  Os Inspetores nem querem ir a S. Vicente desde o dia em que o Sr. Inspetor, entrando na sala de aula, disse ao Professor: –  Chame o seu melhor aluno! Logo o professor, em voz alta, gritou: –  Levante-se  o Inácio  da  Assunção Batista!  E este respondeu-lhe,  no  mesmo tom: –  Pronto, senhor professor! E o Sr. Costa concluía: –  Ao ouvir estes desaforos, o Sr. Inspetor despedia-se do professor, dizendo:  – Pronto, senhor professor, está tudo em ordem.
O Sr. Naves não se zangava, pois o Sr. Costa era seu grande amigo desde os tempos de vida em S. Vicente até ele se aposentar nas escolas de Oliveira Lopes, em Válega, para onde o casal fora transferido. Quando eu vim para Ovar, em outubro de 1958, já eles exerciam lá a sua atividade, e todas as quinta-feiras conviviam na Papelândia. Amizade sã, partilhada por todos os membros da tertúlia, que ali se reunia para passar parte das suas tardes: O Sr. Freire, o seu cunhado José Figueiredo, o Dr. Esperança, o Prof. Naves (às quintas-feiras), o Prof. Moreira (quando vinha de Ovar tratar de assuntos dos bancos de que era agente), a Prof.ª D. Albertina, que também era uma excelente conversadora e muito amiga dos cães abandonados. Pode mesmo dizer-se que o seu amor pelos animais abandonados terá incentivado os futuros criadores do canil de Ovar. E já que falei no seu nome, aproveito para dizer que Ovar deve as escolas da Mãe d’Água, da Ribeira e de Carvalho de Cima, respetivamente às professoras D. Albertina, D. Benilde Figueiredo e D. Margarida Alacoque, cujos familiares ofereceram os seus edifícios ao Estado em troca da sua efetivação nesses lugares.

Do Quartel de Ovar e S. Vicente
Voltando ao Sr. Costa, é meu dever informar que foi o Regimento de Infantaria n.º 24 que o conquistou. É que ele, nascido em S. Roque, Oliveira de Azeméis, veio assentar praça naquele Regimento. Veio, e ficou.
Homem de vistas largas, António Costa fundou uma empresa de camionagem de passageiros, táxis e camiões de mercadorias, com alvará desde 1922. Acham muito? Pois ele achou que podia dar ainda mais à terra que lhe deu a esposa e lhe proporcionou meios para educar as suas filhas, e criou uma agência funerária, uma serração de madeiras, um moinho de ossos (para fazer raspa para fertilizar os terrenos de cultivo) e um alambique. E também cuidou de ter pessoal para cultivar os terrenos com que foi aumentando o seu património.

Num passeio de “A Boa Nova”. Ao centro, o Sr. Costa e a sua filha Conceição

Abençoado Sr. Costa! Era de gente desta que agora precisaríamos, pois o Estado-patrão só serve para a educação, para a saúde, para manter a ordem, as redes viárias, os correios, as comunicações…
Mas o Regimento de Infantaria n.º 24 deu-nos mais coisas. Deu-nos até heróis como o Sr. Conde, do lugar da Marinha, que foi um “marinheiro” de gema, digno de dar o seu nome às escolas do Jardim dos Combatentes. Demos-lhe o nome que lhe dermos, todos continuarão a chamar-lhe a Escola do Quartel, já que o Quartel deixou ali marcas profundas. Mas também já foi muito mais coisas: foi o primeiro hospital de Ovar, foi Orfeão, foi edifício dos correios. E… se mais mundo houvesse, lá chegaria.
Até breve, pois há muito mais para contar.

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