14.8.13

Conceição Isabel Almeida da Costa

A primeira portuguesa
com carta profissional de autocarros

Clara e Conceição Isabel Almeida da Costa
Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2012)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

Entre os que na década de 1950 viam a Conceição Isabel a conduzir o táxi que seu pai fretava para idas a casamentos ou viagens a Ovar, Fátima, ou a qualquer sítio onde era necessária a sua presença, era convicção de que seria a primeira portuguesa a conduzir autocarros. Era a segunda das quatro filhas. Seu pai, empresário dinâmico, já viúvo, viu-se forçado a fazer dela o seu braço direito, o substituto do rapaz que Deus não lhe deu.
Desejando que suas filhas fossem mulheres exemplares, António Ferreira da Costa [CLIQUE NO LINK] tomou a peito a sua educação, dando-lhes uma esmerada formação cívica, moral, religiosa e social.
A Conceição merece-me uma referência especial, e por dois motivos: terá sido das primeiras profissionais como condutora de táxis e a primeira de autocarro – e os meus olhos tiveram a dita de a ver assim nas ruas de Ovar –, e acabou os seus dias como esposa do Adalberto Murteira, meu companheiro de carteira na escola primária de S. Miguel de Souto.
O seu historial começa no dia 18 de abril de 1944, dia em que tirou carta de ligeiros. (Dia histórico para ela, por ser o dia em que faleceu o Marechal Carmona). Sentindo-se à vontade na condução, atirou-se à tentativa de conseguir a carta de pesados e de passageiros, o que também conseguiu em 1951, passando a conduzir os carros de “A Boa Nova”, a firma de transportes que o seu pai possuía em S. Vicente de Pereira, no lugar da Herdade. E era vê-la, a ela, feliz, ao ver felizes os seus passageiros por serem conduzidos por tão simpática jovem que, pode afirmar-se pela voz de um taxista de Coimbra, foi uma precursora no seu ramo.

Num dos passeios do autocarro de “A  Boa Nova”, em que tomou parte Santa Camarão
(o mais alto). A Conceição está à janela (em mais evidência)

Numa excursão da JOC a Fátima, havendo uma paragem em Coimbra, ela estacionou o autocarro no parque público, ficando por perto. Ao verem tal desaforo, os taxistas ali em serviço chamaram a polícia de Trânsito para pôr cobro ao abuso. O polícia veio, a Conceição tratou de mostrar a sua documentação, e os taxistas tiveram de engolir em seco. Um deles, porém, não se conteve e fez público o seu desabafo, dizendo a um colega: "– Ó pá, estamos no fim do mundo. Temos de ir aprender corte e costura. Se isto pega em moda, não nos safamos. Estás a ver esta coisa incrível? Daqui a nada até passam a usar calças”. (O homem era bruxo mesmo. Elas passaram a usar calças e eles aprenderam a cozinhar, a cozer, a passar a ferro, e o que mais adiante se verá).
Senhor destas memórias, dispus-me a passá-las para o nosso quinzenário quando, no passado mês de outubro, a TVI transmitia uma reportagem sobre uma matosinhense possuidora de carta de taxista profissional. Se isto é considerado, ainda hoje, invulgar, coisa mais invulgar se passou entre nós nos anos cinquenta do passado século, quando S. Vicente de Pereira teve uma profissional condutora de táxis e de autocarro.
Para estas duas guerreiras vão os meus parabéns, extensivos a todas as mulheres que vestem calças quando tal é preciso.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de fevereiro de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/08/conceicao-isabel-almeida-da-costa.html

[CLIQUE no link a azul, em cima, para ler o texto sobre o pai desta condutora]

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