20.7.13

Travessia aérea do Atlântico Sul – Seus reflexos em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/07/1983)
TEXTO: Maria José Vinga

Descolagem do hidroavião «Fairey III D» Lusitânia junto à Torre de Belém,
a 30 de Março de 1922 - FOTO DAQUI

Foi em 17 de Junho de 1922 que os portugueses, doidos de alegria, receberam a confirmação da notícia, aguardada com ansiedade, de que tinham chegado ao Brasil os dois corajosos e sábios aviadores que haviam partido de Lisboa a 30 de Março, quase dois meses e meio atrás.
Também os vareiros não deixaram de festejar tal feito, demais que nesse tempo era o Brasil a porta de escape para os jovens portugueses que tinham concluído a 4.ª classe. De facto, os rapazes desse tempo interessavam-se por fazer esse exame com perfeição, com o secreto desejo de irem para o Brasil, uns para se juntarem aos pais, outros a irmãos, a tios, a parentes, ou até a vizinhos. Nesse tempo, todos se ajudavam. E foi assim que se fizeram grandes colónias vareiras no Rio de Janeiro, no Pará e em Manaus. E foi assim também que muitos rapazinhos geralmente os mais espertos e de famílias remediadas, se abalançaram a essa aventura, fazendo-se, alguns deles, grandes homens, e alcançando nome, futuro e dinheiro. Todos eles primavam em construir casas na sua terra. E casa de azulejos. Por isso Ovar se encheu de azulejaria. Quem não gosta de ver o frontispício da sua casa bem brunida, a brilhar? E nada brilha tão bem nas casas como os azulejos! Até se dizia: – Ali reina o dinheiro brasileiro!


Nota de 20 escudos, emitida em 1978, alusiva ao 50.º aniversário
da morte do Almirante Gago Coutinho

Mas voltemos aos aviadores. Para celebrarem tão arrojado feito, os vareiros desse tempo, pessoas boas e simples, de coração agradecido, organizaram um cortejo imponente, em que sobressaía uma replica do avião “Santa Cruz”.
Bem o mereciam os dois pilotos das grandes viagens aéreas: – O futuro Almirante Gago Coutinho, matemático, geógrafo e historiador, que na juventude cruzara, de costa a costa, o Atlântico Sul e os mares da India, como Oficial da Marinha que em 1917 voou pela primeira vez a estudar a conversão à aeronavegação dos processos e instrumentos da navegação marítima, com vista a viagens oceânicas de longo curso, e o exímio piloto aviador Sacadura Cabral, que sempre estimulou o destemido marinheiro.
Já em 1921 Gago Coutinho tentara, com êxito, levantar voo até à Madeira, na companhia de Sacadura e mais dois aviadores estrangeiros – Ortins de Bettencourt e Soubiran.
Mas o ano seguinte seria de verdadeira consagração. Em 30 de Março de 1922, o grande sábio, que contava, então, 53 anos de idade, depois de estudar bem a rota de Vasco da Gama e de Álvares Cabral, com base no conhecimento dos ventos, graus de meridianos, etc., para o que ele próprio criou e aperfeiçoou instrumentos de precisão, atreveu-se a levantar voo e a atravessar o Atlântico Sul, acompanhado do seu piloto de confiança.
FOTO DAQUI
Notável! Espetacular! Terminada em 17 de Junho, na Baía de Guanabara, esta viagem ficou como legenda da técnica náutica, escrita pela mão de Sacadura, e pensada pela grande cabeça de Gago Coutinho.
Tal como no Rio de Janeiro, onde brasileiros e portugueses deliraram com a chegada dos argonautas, assim foi em Portugal, onde o entusiasmo do povo não teve limites, desde a capital às mais modestas aldeias, logo que a notícia aqui chegou, espalhada em prosa e verso.
Lembro-me de ouvir cantar:
– Diga, avozinho,
Se pelo ar haverá caminho
Do Brasil a Portugal

– Sim , meu netinho,
Descobriu-o Gago Coutinho
E Sacadura Cabral!

– Que foram eles fazer
Sem terem medo de morrer,
Voando lá pelo ar?

Foram levar a Nação
Dentro do seu coração
Os heróis de Portugal.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de julho de 1983)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/travessia-aerea-do-atlantico-sul-seus.html

Sem comentários: