20.7.13

Para a história do Cine-Teatro de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/1983)
TEXTO: António Dias Fernandes

Foi na década de 40 que se iniciou a construção do novo cinema de Ovar. À volta dela surgiu uma história que, pelas suas circunstâncias, podemos considerar lamentável.
Era então pároco de Ovar o Padre Boaventura Valente de Matos. Ao iniciarem-se as obras para o novo cinema, o Sr. Augusto Pinho dirigiu-se ao Pároco, informando-o da obra que se ia iniciar. Seria uma construção relativamente baixa, que não “assombraria” a Igreja. Perante isto, o referido Pároco concordou com o novo empreendimento.
Todavia, em fins de 1943 a obra tinha tomado proporções que contrariavam ostensivamente a promessa feita ao Padre Boaventura.
O Cine-Teatro de Ovar quando da sua inauguração, "contrariando ostensivamente
a promessa feita ao Pároco Boaventura"

A partir daqui, formou-se uma comissão chefiada por Francisco Belo, que, tentando zelar pelos interesses da Paróquia, apresentou ao Bispo do Porto, D. Agostinho de Jesus e Sousa, uma exposição bastante sintética, em que era posto o problema, e em que se pediam providências.
A consequência imediata foi a nomeação do Padre Boaventura, em Fevereiro de 1944, para a freguesia de Maceda, decisão esta que ele não acatou, preferindo ser colocado como professor no Liceu Alexandre Herculano, no Porto.
Por deliberação de D. Agostinho, foi então nomeado para a freguesia de Ovar um sacerdote de reconhecida experiência, o Padre Crispim Gomes Leite, que fora Pároco e Presidente da Câmara de Gondomar.
A sua primeira preocupação foi mostrar a inconveniência da construção do Cinema naquele local, conseguindo embargar as obras.
No entanto, a Sociedade empenhada no empreendimento também não cruzou os braços, procurando solucionar o problema a seu contento.
Foram contactados o Bispo de Vila Real, D. António Valente da Fonseca, e o Cónego Dr. Manuel Valente, naturais de Válega. Querendo ouvir a opinião de D. Agostinho, fazem com ele, de imediato, uma visita ao local, concluindo ser já tarde demais para travar a obra. Ela tinha já atingido tais dimensões que, no seu entender, era inaceitável qualquer ideia de retrocesso. E até porque, concluíam, “a Igreja não pode impedir o progresso”.

O Cine-teatro de Ovar em 1960

Entretanto, a construção do Cinema retomara o seu ritmo, sendo feita a sua inauguração a 30 de Dezembro de 1944.
Perante tal desfecho, o Padre Crispim, que viera para Ovar, a pedido do Prelado, para tentar evitar a construção, passou a interrogar-se: Qual o meu papel no meio disto tudo? E resolutamente acabou por pedir a dispensa do seu cargo, pois jamais se sentiria bem com a sua consciência, ele que tanto se esforçou pela defesa da Igreja e pelo progresso de Ovar.
Nomeado Pároco da Sé do Porto, regressou, anos depois, a Gondomar, terra da sua predileção, a que se devotou de corpo e alma, e de onde partiria ao reencontro com Deus.
O tempo passou. Mas ficou uma história que eu entendi ser o meu dever contar. Até porque é uma história amarga, que nunca mais esquece a quem, amando a paróquia de Ovar, a viveu muito por dentro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de junho de 1983)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/para-historia-do-cine-teatro-de-ovar.html

Sem comentários: