13.7.13

Os ribeiros de Ovar e a sua utilidade no passado

Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2012)
TEXTO:José de Oliveira Neves

Açude no rio do Sobral (anos 50 do séc. XX)
No “Dicionário da História de Ovar”, volume 3, diz-nos o Dr. Alberto Sousa Lamy, numa alusão ao rio da nossa Terra: que reputamos mais importante: “entra pelo nascente na freguesia de S. João de Ovar, passa o norte do lugar do Sobral, atravessa a cidade recebendo no açude dos Pelames as águas do ribeiro das Lajes e, após correr a nascente do lugar da Ribeira, corta a Boca do Rio e a Moita de Baixo e desagua na Ria, no esteiro do Puxadouro”.
Continuando a descrever estes rios primorosamente, o Dr. Sousa Lamy entende – como eu entendo – que deveriam chamar-se ribeiros, devido à sua pequena dimensão, e acrescenta: “dois afluentes do rio Ovar (Cáster) na cidade, o 1.º designado por João Vasco de Carvalho por rio das Lajes e também conhecido por ribeiro de S. João, atravessa os lugares do Salgueiral de Baixo, passa ao sul do lugar da Ponte Nova e vai encontrar o rio Cáster no açude dos Pelames; o 2.º é o ribeiro das Luzes que tira este nome do facto de atravessar o sítio da cidade do mesmo nome, e que após passar na Granja, onde tem o nome de Rio Maior, morre no rio Cáster, um pouco a nascente do açude do Casal, no lugar das Hortas (antigamente a confluência do Cáster com o das Luzes, era pegada à ponte comum a ambos”.
Estes cursos de água que se estendem em várias direções, rasgando o solo da nossa cidade, foram utilíssimos no passado, quando as águas cristalinas, isentas de poluição, eram abundantes e brilhavam nos dias soalheiros, sendo habitat natural de várias espécies piscícolas e das rãs que coaxavam ao sol, num hino de louvor à natureza… Ao longo das margens havia uma pululância de vegetação verdejante, que as lavadeiras de outrora utilizavam para coradouros das roupas que lavavam naquelas águas. Aquelas mesmas que Júlio Dinis, no séc. XIX, observou nas suas idas ao Casal e que registou numa passagem das “Pupilas do Senhor Reitor”: “Um bando de lavadeiras molhava, batia, ensaboava, esfregava e torcia a roupa, ao som de alegres cantigas interrompidas às vezes por estrepitosas gargalhadas”.

Lavadeiras no rio Cáster, junto à ponte João de Pinho (finais dos anos 40 do séc. XX)

Que cenário bonito e poético era esse, que ainda pudemos contemplar até aos anos 50 do séc. XX, nos ribeiros do Peixoto, Palhas, Pelames, Mota, Casal, etc., ao vê-las a bater a roupa em cima das tripeças de madeira que levavam de casa, ou nas pedras colocadas nos ribeiros, onde ficavam permanentemente para esse fim.
Mas os ribeiros de Ovar não eram só prestimosos para as lavadeiras! A energia produzida pela corrente das suas águas fazia mover os vários moinhos existentes ao longo das levadas percorridas pelas águas, onde o milho das imensas terras de cultivo havidas na época se transformava em farinha, para o fabrico de pão de boroa, cozido nos fornos de grande parte das moradias, onde era consumido durante uma semana. Nas represas dos açudes aprendiam a nadar os nossos antepassados, e nos ribeiros praticavam-se dois curiosos tipos de pesca, que recordo aqui: “a pesca com nassa” (saco de rede com aro de ferro em forma cónica) e o remunhão.

Ribeira das Luzes (finais dos anos 70 do séc. XX)

A primeira era feita com o pescador metido dentro da água, segurando numa das mãos a massa, cuja boca era dirigida na direção dos peixes ou ajustado à boca das tocas existentes nas raízes dos salgueiros, e na outra, uma vara que escarafunchava  nesses esconderijos do peixe que, ao sentir-se ameaçado, fugia e entrava para dentro da nassa, onde era capturado. No final do século XIX e no princípio do XX, pescavam-se trutas, barbos, pimpões, enguias, etc.

O “remunhão”
As enguias eram pescadas nos ribeiros da nossa terra duma forma muito curiosa, a que chamavam “remunhão”, e consistia no seguinte: quando as águas ficavam turvas pela ação das chuvas, o pescador sentava-se na margem do ribeiro, segurando numa das mãos um guarda-chuva aberto com a parte côncava virada para cima, fazendo de recipiente. Com a outra mão, agarrava o remunhão composto por uma linha que, com o auxílio de uma agulha, trespassava várias minhocas, formando uma espécie de colar que, seguidamente, era enrolado num pau (remunhão), sendo este introduzido na água pelo pescador, com os vermes envolvidos, a servirem de isco…
Quando se sentia a mordedura da enguia no remunhão, o pescador levantava-o rapidamente, e ela caía dentro do guarda-chuva.
Tenho lido interessadamente neste jornal as atividades da associação Amigos do Cáster, e fico contente por saber de muitos jovens que, não usufruindo, como eu usufrui outrora, das belezas e utilidades desses ribeiros, se interessam em restituir-lhes vida.
Ainda bem, porque, lembrando como eram, no passado, os ribeiros da nossa terra, e vendo as vicissitudes por eles sofridas no decorrer dos tempos, sinto que, no presente, ainda há quem goste deles…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de fevereiro de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/os-ribeiros-de-ovar-e-sua-utilidade-no.html

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