16.7.13

Duas ilustres figuras ovarenses: Visconde de Ovar e Marechal Zagalo

Em 15 de dezembro de 2008, José Maria Fernandes da Graça (1921-2011) publicou no jornal "João Semana" um texto alusivo ao início das comemorações do 2.º centenário das Invasões Francesas, chamando a atenção para o facto de dois vareiros se terem distinguido nessa campanha heróica em que o exército anglo-luso levou de vencida o exército napoleónico.
Voltaria a escrever novo artigo em 15 de novembro de 2010, queixando-se de que em Ovar, e em relação aos dois heróis vareiros, as comemorações foram, afinal, "uma oportunidade perdida".
No "João Semana" de 15 de julho de 2013 reproduz-se um texto que Carlos Mário Duarte Santos, um lisboeta ligado familiarmente a Ovar, nos enviou, e que será facultado dentro em breve neste nosso sítio.

Ovar e as invasões francesas
Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2008)
Visconde de Ovar (1782-1856)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Seremos capazes de fazer o que nos compete?
Em várias localidades do nosso país estão a efectuar-se actos comemorativos relacionados com os movimentos que há 200 anos se geraram para repelir do solo pátrio as forças napoleónicas.
Nesta perspectiva, não podemos deixar de lembrar a participação de dois vareiros na luta militar desenvolvida para expulsar as forças inimigas. Foram eles o Marechal Zagalo (Bernardo António Pereira Zagalo) e o Visconde de Ovar (António da Costa e Silva), também ele Marechal.
Foi deveras notável, heróica mesmo, a contribuição que ambos deram ao nosso País. Os seus currículos militares testemunham, sem qualquer dúvida, o valor que ambos demonstraram ao longo das suas carreiras.
Em nosso entender, Ovar deveria aproveitar esta oportunidade para prestar homenagem, com a grandeza que os seus méritos amplamente merecem, a estes notáveis entre os mais notáveis dos seus filhos.
Achamos, salvo melhor opinião, que o programa que, porventura, possa vir ser a elaborado, venha a incluir uma sessão solene no Salão Nobre dos Paços do Concelho, com a presença do Ministro da Defesa e dos Presidentes das Câmaras Municipais de Coimbra e Figueira da Foz, terras ligadas à acção estratégica desenvolvida especialmente pelo Marechal Zagalo.
Seria também de lembrar a presença de um historiador militar que proferisse uma palestra sobre as personalidades em questão, e a realização de um desfile militar, seguido de um concerto de Música regimental.
Não se pense que o que fica aqui gizado será de difícil realização. Parece-nos muito possível. O que será preciso é pôr mãos à obra.
Não gostaria que os vareiros pudessem voltar a merecer as críticas, aliás muito justificadas, que António Dias Simões deixou, na sua obra “Ovar – Biografias”, ao relacionamento de Ovar com o Marechal Zagalo…
E, já agora, aproveitando a ocasião, não resisto à tentação de dirigir uma pergunta aos senhores educadores das escolas do nosso concelho: – Até quando adiam a oportunidade de aproveitar as nossas datas de referência para incutir no espírito dos jovens seus alunos um pouco da nossa história? Há razões de sobra para que isso se faça agora…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 2008)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/duas-ilustres-figuras-ovarenses.html



Em 21 de junho de 2008, Tentúgal, Carapinheira e Montemor recuaram no tempo até ao ano de 1808, em plena Primeira Invasão Francesa, aquando da revolta popular liderada por Bernardo Zagalo que libertou o forte de Santa Catarina. O concelho de Montemor recriou o trajecto percorrido pelo Batalhão Académico há 200 anos atrás. Saiba mais AQUI.

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Uma oportunidade perdida
Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2010)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Num apontamento nosso que o “João Semana” publicou no seu n.º 24 de 15 de Dezembro de 2008, sob o título “Ovar e as invasões francesas”, lançámos um desafio aos vareiros em geral, perguntando: – Seremos capazes de fazer o que nos compete?
Com toda a franqueza, estávamos convencidos de que a resposta viria a ser um SIM, pronto e sem hesitações. A honra que a memória dos dois vareiros em questão – o Marechal Zagalo e o Visconde de Ovar – logo de uma assentada, para uma terra pequena como é Ovar, ainda mais nos obrigava a agir com mais denodo, com mais brio e determinação. A oportunidade feliz que nos foi oferecida – as comemorações centenárias das Invasões Francesas, com a vitória do Exército Português –, não era de perder.
No nosso entusiasmo por tudo quanto é de Ovar, possivelmente, na opinião de alguns, talvez tivéssemos ido longe de mais. Não é essa a nossa convicção. Achamos que era possível aproveitar as achegas que demos, até porque o erário público não seria muito afectado. A despesa maior caberia ao Estado, como é óbvio.
Sabemos que foi organizada uma Exposição alusiva às invasões francesas, que esteve patente ao público em Válega e, seguidamente, em Esmoriz.
Por razões de saúde, não pudemos visitar a referida Exposição. Mas não pomos a menor dúvida quanto ao valor do trabalho apresentado, acreditando nas referências aduzidas na imprensa.
Infelizmente, também sabemos que esses eventos são pouco visitados pela população, razão pela qual sugerimos, no citado apontamento, a realização de um desfile militar e a participação de uma banda de música regimental, para além de uma sessão solene no Salão Nobre da Câmara Municipal, com a presença do Ministro da Defesa e dos Presidentes das Câmaras Municipais de Ovar, Figueira da Foz e Coimbra, municípios envolvidos na acção protagonizada pelos heróis vareiros.
Noutra terra que não fosse Ovar, o que se teria feito?
Se o que foi sugerido tivesse sido realizado e dado o relevo atribuído ao acto a que estaria a assistir, a população vareira teria tido a oportunidade de prestar homenagem aos dois grandes Marechais Zagalo e Visconde de Ovar, e de os ficar a conhecer melhor.
Assim, a maioria do povo vareiro, a começar pela camada mais jovem, vai continuar a não saber quem foram e o que fizeram pela Pátria estes seus ilustres e heróicos antepassados.
E é pena!

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Novembro de 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/duas-ilustres-figuras-ovarenses.html
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Dois heróis vareiros na Guerra Peninsular
Visconde de Ovar e Marechal Zagalo

Visconde de Ovar
Jornal JOÃO SEMANA (15/07/2013)
TEXTO: Carlos Mário Duarte Santos

Quando há, cerca de 30 anos, na altura dos 200 anos dos respetivos nascimentos, me interessei pelas ilustres figuras de Bernardo António Zagalo (Marechal Zagalo) e António da Costa e Silva (Visconde de Ovar), nascidos em Ovar, o primeiro em 3 de Novembro de 1780 e o segundo em 25 de Dezembro de 1782, logo pude constatar a insuficiência de dados biográficos nos registos obituários nos cemitérios dos Prazeres e do Alto de S. João, em Lisboa, cidade onde ambos faleceram em 17 de Dezembro de 1841 e em 8 de Julho de 1856, respetivamente.

Heróis... sem sepultura
Bernardo António Zagalo foi sepultado no cemitério dos Prazeres, e no registo do cemitério o seu nome aparece logo em primeiro lugar no livro n.º 1, mas apenas com o seu nome, a data do enterro, o respetivo ingresso no cemitério e o nome da freguesia em que residia, que era a de S. Mamede, não indicando o número do jazigo ou da campa.
António da Costa e Silva foi sepultado no Alto de S. João, em 8 de Julho de 1856, e no registo do cemitério é dado como estando enterrado no jazigo n.º 196. Por esse registo ficam-se a saber apenas os nomes das suas atuais possuidoras, sem indicação de qualquer contacto e de anteriores proprietários.
As tentativas que nessa altura foram feitas para descobrir eventuais descendentes de ambos foram também muito pouco frutuosas.
De qualquer modo, e acima de tudo, o que é importante realçar é que estes dois ilustres vareiros pertencem ao património humano e cultural de Ovar.

Nos mais altos postos         
As brilhantes carreiras militares que abraçaram, respetivamente nas Armas de Infantaria e de Artilharia, e o seu exemplar desempenho fizeram-nos elevar aos mais altos postos do Exército.
Bernardo António Zagalo foi Marechal de Campo graduado, oficial da Ordem da Torre e Espada, Cavaleiro de Avis, condecorado com a medalha das 5 campanhas da Guerra Peninsular e com a do comando da batalha de Ortez.
António da Costa e Silva, foi Tenente-General efetivo, condecorado com a cruz n.º 6 da Guerra Peninsular (medalha das 6 campanhas da Guerra Peninsular de 1808 a Abril de 1814), com o grau de Oficial da antiga Ordem da Torre e Espada, Valor, Lealdade e Mérito, com a Comenda da Ordem de S. Bento de Avis e com a Comenda da Ordem de Nossa Senhora da Conceição, e com os títulos, primeiro, de Barão de Ovar e, por fim, de 1º. Visconde de Ovar e de Par do Reino.

A sua ação no Buçaco
Ambos participaram ativamente na batalha do Buçaco, cujos bicentenário se celebrou em 27 de setembro de 2010.
António da Costa e Silva, comandava a 2.ª Brigada (Bateria de Artilharia volante) do Regimento de Artilharia 1 (posicionada na parte Sul da Serra do Buçaco, à frente do local de Palheiros, onde estava o Comandante Supremo do Exército Aliado Luso-Britânico, Sir Arthur Wellesley), comandando o conjunto das seis baterias volantes o Major de Artilharia Alexandre Dickson, fazendo frente às tropas francesas do 2º Corpo comandado pelo General Reynier.
Bernardo António Zagalo integrava o Regimento de Infantaria 1, integrado na Brigada Portuguesa Independente, superiormente comandada por Pack (posicionada na parte Norte da Serra do Buçaco, ao lado do sítio onde hoje se situa o Hotel Palace, no Buçaco), fazendo frente às tropas francesas  do 6º Corpo comandado pelo Marechal Ney.

Que memória em Ovar?
Casa do Visconde de Ovar na rua que tem o seu nome
Como procedi em 25 de Dezembro de 1982, aquando dos 200 anos do nascimento do Tenente-General António da Costa e Silva, 1.º Visconde de Ovar, decidi depositar uma coroa de flores no  jazigo nº.196 do cemitério do Alto de S. João, independentemente das iniciativas que as Autoridades oficiais, designadamente a Câmara Municipal de Ovar, pudessem tomar. Mas tal atitude tem um carácter pessoal, como se compreende, pelo que seria bem mais interessante, por ter um carácter duradouro, que aí em Ovar pudesse ser afixada na casa do Visconde de Ovar, na rua que tem o seu nome, uma placa metálica em sua homenagem, comemorativa  dos 200 anos da sua participação na batalha do Buçaco, em 27 de Setembro de 1810. Idêntica cerimónia poderia ser feita em honra do Marechal Bernardo António Zagalo, que tem também o seu nome numa rua de Ovar.

A estratégia da vitória
A estes dois conterrâneos devo o meu profundo interesse pela Guerra Peninsular, que decorreu entre 1808 e Abril de 1814, tendo já lido todas as batalhas e combates travados em Portugal, em Espanha e em  França pelo Exército Aliado Luso-Britânico (ou Anglo-Luso), sem que este  alguma vez tivesse sido derrotado.
Uma pergunta que eu me fazia, antes  de aprofundar o assunto,  era esta: – Como foi possível que Portugal que, como é sabido, se encontrava à deriva, sem rei nem roque, e que possuía uma população apenas de 2800000 portugueses no Continente, na sua grande maioria camponeses, tenha tido um papel tão importante na libertação do País do Exército francês, comandado por Massena, e tenha contribuído decisivamente para libertar a própria Espanha e derrotar mais de 210000 soldados franceses nesse País, com a preciosa colaboração das guerrilhas espanholas?
Tal deve-se ao esforço do Povo Português, mas essencialmente ao espírito organizado e metódico e à tremenda capacidade de trabalho de três homens: Sir Arthur Wellesley, comandante supremo do Exército Aliado Luso-Britânico ou Anglo-Luso, D. Miguel Pereira Forjaz, que integrava o Conselho de Regência, nosso Ministro da Guerra e dos Negócios Estrangeiros, e ao Marechal Beresford, nomeado Comandante do Exército português em Março de 1809, os quais, com a sua larga experiência militar e administrativa, colaboraram estreitamente entre si.
Sir Arthur Wellesley concebeu a estratégia, definiu as prioridades e a calendarização, e D. Miguel Pereira Forjaz  mandou publicar os diplomas legais necessários para o levantamento, praticamente do zero, do Exército português (Exército regular, Milícias e Ordenanças, que oficiais portugueses, por ordem de Junot, tinham desmantelado por completo), levantamento que o Marechal Beresford levou a bom termo numa autêntica corrida contra o tempo, permitindo, para surpresa de Napoleão, que o Exército regular de  cerca de 27000 homens, integrado com as tropas britânicas, pudesse participar já na Batalha do Buçaco.

Mas tal estratégia, para poder ser levada a bom termo, requereu grandes sacrifícios e um enorme esforço do Povo Português na construção das Linhas de Torres, que durou cerca de um ano (desde Outubro de 1809), e na montagem de um Sistema logístico constituído por 4000 dos nossos carros de bois e por 12000 mulas, com o apoio de 30000 civis, na sua grande maioria donos dos animais, sistema este que se revelou precioso no abastecimento em armas e munições e em bens alimentares do Exército Aliado Luso-Britânico ou Anglo-Luso, em que os soldados portugueses demonstraram a sua bravura e disciplina.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de julho de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/duas-ilustres-figuras-ovarenses.html

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