13.7.13

Algumas notas toponímicas ovarenses – Arada

Jornal JOÃO SEMANA (15/09/1993)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Encaremos o interessante caso do nome desta freguesia de concelho de Ovar: mas façamo-lo pela sua forma actual – essa mesma –, para vermos a que acerto ou engano poderemos ser conduzidos. No caso de engano, ficará o leitor com mais uma prova daquilo a que se arrisca quem nem sequer se lembra de que há forma(s) anterior(es), e esta(s), e não outra(s), é que pode(m) decidir.
Como a estrutura morfológica de “Arada” é muito simples – para melhor nos fazer acertar ou… enganar –, arrisquemo-nos com ela: um derivado, ao que aparenta, Ar -ada, com o sufixo -ada. O problema, portanto, residirá todo no elemento agente, Ar-, que, visto se tratar (no suposto) de um derivado, representa um nome comum ou apelativo. Descobrir, pois, em ar-, qual esse nome eis a questão linguístico-etimológica e, daí, semântica.
Principiemos por notar que Arada é perfeitamente similar de outros topónimos, como Ovadas (há também Aradas na toponímia), que escolho por se tratar de Ov – adas com um elemento ov –, pré-romano, significativo de “água” e que já achámos no nosso topónimo Ovar, ou o Oval (Ov – ar, Ov –ale). Isto morfologicamente. Mas não chega – embora já muito, e indispensável.

Arada - Igreja Paroquial (No nicho central, a imagem do Padroeiro, S. Martinho)
FOTO: MPB
Num ponto de vista semântico, comparemos Arada(s) com Cavada(s): tal como este de “cavar”, logo nos inclinaríamos àquele como de “arar” – e tínhamos o caso resolvido (visto que não nos propomos ir mais fundo na questão linguística, nem para estes meus apontamentos se necessita). De facto, os elementos cav – e ar – são as raízes do latim cavare “cavar” (abrir cavas ou covas) e do latim arare “arar” (lavrar). A documentação antiga fornece-nos a conceptualidade essencial a estes casos (que, aliás, são muito simples, o que é frequente não se dar, e daí as imperiosas cautelas a ter), como em 1258 “da herdade que chamam Cavadas dão um moio de pão”: que melhor, identicamente para uma “herdade que chamem Aradas”, ou Arada – do nome comum “arada”, que, precisamente por isso, temos hoje?
Mas há de imediato uma circunstância que nos faz suspender: desde quando se documenta esse nome comum de hoje, “arada”: – isto é, será ele anterior ao topónimo Arada (neste caso de um lat. Arata)? Se o não é, fica arredado da etimologia do nosso topónimo ovarense, Arada. Destas poderosas inibições geralmente se não cuida, o que é perigosissimamente aleatório – tanto mais que em relativo, isto é, para o nome comum “arada” só temos notícias desde os finais do século XV – e, para piorar, literárias (em Gil Vicente), sendo que o fautor da toponímia é popular. Esta limitação não impede, porém, admitir a anterioridade (tanto mais que aquele abandono literário se encontra na linguagem popular de Gil Vicente, o que nos recomenda como popular a palavra), e não há a mínima razão contra a naturalidade de “arada” em face da de “cavada” (até pela perfeita similitude no trabalho designado). A própria toponímia vem dar a ajuda decisiva, porque “arada(s)”, nela, é muito mais abundante que “cavada(s)”, e afectada de artigo – o cunho dos nomes apelativos.

Conclusão: Arada, o lugar, teria sido, de origem, um prédio em que se arava a terra – e, o que é mais, a partir das imediações povoadas, povoando-se o local a pouco e pouco.
Mas e ainda sem sairmos da forma actual, Arada, a questão mantém-se indecisa é que vigorou o elemento pré-romano ar – “água” (logo, corrente desta) e ar (r) “montanha”, ou mesmo rocha. Nota-se como tão bem existe Arada nome de uma serra broeira, na qual poderiam ter-se feito as “aradas” do cultivo, e daí o nome, mas nada o afiança. Nota-se, também, que temos Arada na freguesia de Avanca, nome este em av – “água” – planura e corrente predominantes, mas com elevação impressiva na planície (creio que explicativa no sufixo -anca). E até pode ter sido que o latim arare tenha provindo do pré-romano ar (r) referido: tanto mais que a terra – em que se lavra – é rocha também (embora desagregada).
Como se vê, temos pela frente o perigo dos homónimos (e já não falo dos parónimos, que fornecem o nunca acabar de riso – mesmo em “filólogos” encartados…): neste caso, uma “arada” mais remota (arata, pois que só o t garantiria o d actual) teria sido coisa muito diferente do Terreno arado ou terra arada. Em que podemos, pois, ficar?
Tudo isto foi para colocar o leitor perante o que não se costuma acautelar. Quer um exemplo, sem escolha, tantos eles são, até dos tais filólogos encartados? Aqui tem o de J. P. Machado para Arregaça, junto a Coimbra: para ele, de “arregaçar”! Decidido, seguro – sem querer saber para nada de averiguar a forma antiga (ciência fonológica em aplicação) nem da congruência (campo da lógica, inseparável do da ciência): “arregaçar” o quê, e para quê? A toponímia é uma ciência objectiva, e, como ciência, exige a demonstração. Aquele filólogo tem muito “daquilo”: um vasto campo de divertimento, e também, de fastio, com o devido respeito por quem lá vai ou entra confiado.
Enfim, vamos àquilo que deveria ter sido o nosso primeiro cuidado: explicar Arada – a Arada ovarense – pela forma antiga do topónimo e a procurar desde logo (porque eu só quis com o exposto mostrar ao leitor que me atenta que isto de “explicar” topónimos não é o que se julgue – de vista e ouvido, ou como eu costumo dizer, de “olhos-e-orelhas”, estas muito grandes e aqueles muitos pequenos), uma tarefa que nos apresenta em 1288 “a Erada” e em 1290 “Herada” (Erada), em que até o artigo se nos demonstra. A solução é imediata: uma palavra antiga” (h) eerada, do latim hederata, ou este mesmo latim no caso mais remoto: um derivado de “(h)éera” + ada (se não do latim hedera + ata, para uma aplicação suficientemente remota – que é outro problema, e este insolúvel sem documentação balizadora das épocas de fixação e vigoração). E, mesmo assim, nem tudo se decide: qual o objecto isto é, terra, pedra, fonte, parede, etc., coberto de hera.

Paisagem rural de Arada
FOTO: MPB
A evolução da palavra desde a forma mais remota (não sabemos em que estádio da evolução esta palavra foi aplicada à designação do lugar): hederata - heerata - heerada - erada - arada (estas últimas formas talvez já só na toponímia, isto é, já desaparecido o nome comum).
Aquela série precisava de um sinal especial, de forma para forma, mas não é de crer que a topografia o aplique. Quanto às diversas formas, não dou delas a explicação fonológica, porque isso não se faz assim de pé para a mão, e levaria longe: mas estou pronto para ela no caso de interessar a alguma pessoa que tenha os conhecimentos básicos conscientemente.
(Convém anotar que os artigos “Arada” e “Aradas” da “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira”, vol. 38 págs. 468-470, são de minha autoria – o que não significa que eu os subscreva inteiramente hoje, passados trinta e cinco anos).

Flores campestres oferecem um tapete primaveril nas cercanias da Senhora do Desterro
FOTO: M. Pires Bastos

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de Setembro de 1993)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/07/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

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