7.5.13

Manuel da "Morga" – Guarda-redes de excelência

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2012)
TEXTO: Orlando Caió 

Manuel da “Morga”, de seu verdadeiro nome Manuel Gomes de Sousa, foi um guarda-redes de futebol que durante a década de 1930 do século passado defendeu as cores da Associação Desportiva Ovarense.
Este nome decerto que pouco ou nada diz à geração atual. Somente os amantes de futebol atualmente na faixa etária dos 80 e 90 anos o viram atuar, e o recordam com saudade.

A equipa da Ovarense, Campeã do Distrital de Aveiro Divisão de Honra, e vencedora do Campeonato
da Província da Beira Litoral, na época de 1938/39. De pé, da esquerda para a direita: Zeferino
Gomes Pinto, António Ferraz de Liz, Alberto Capitão, Armando Catalão, Alfredo Alves e Artur
 Serrano. Em baixo, e pela mesma ordem: João Estarreja, Amílcar Azevedo,
 MANUEL DA MORGA, João Sanfins e Jacinto Martins

Nascera em Ovar na rua Dr. Manuel Arala, no dia 2 de junho de 1913, no seio de uma família modesta. O pai, Manuel de Sousa, era natural da freguesia de Cedofeita, Porto, e marítimo de profis­são. A mãe, Deolinda Gomes, natural de Ovar, tinha a profissão de costureira. Acresce que, como mera curiosidade, o nome ou apelido Morga tem origem em familiares do lado materno.
A inclinação para jogar à baliza foi-se manifestando bem cedo, menino ainda, em partidas de futebol disputadas entre os diversos clubes de rua e de bairro. Era guarda-redes por convicção, e não por simples conveniência ou por falta de jeito para jogar à frente.
Manuel da Morga começou por representar o "Sportezinhos", um clube popular que existiu em Ovar entre 1926 e 1929. Nos primeiros anos da década de 1930 transferiu-se para o Aliança Futebol Clube, outro clube popular fun­dado em Ovar em 1922, e, por último, representou a Associação Desportiva Ovarense a partir de meados dos anos 30 do século passado até concluir a gloriosa época de 1938/39, em que a Ovarense se sagrou campeã da Divisão de Honra do Distrito de Aveiro e vencedora do Cam­peonato da Província da Beira Litoral.
Pessoas que o viram jogar e que, felizmente, ainda se encontram entre nós, como António Laborim, Mário Carapinha, António Rabão, Jorge Teles e o antigo jogador da Ovarense e do FC Porto Manuel Sanfins, contam que o Manuel da Morga, à semelhança do então famoso guardião do Sporting João Azevedo, não tinha, entre os postes da baliza, uma presença imperial ou exuberante. Tal como Azevedo, a sim­plicidade era a sua imagem de marca.
Extremamente eficaz a voar para a bola, a blocar ou a afastar o esférico com os punhos da sua zona de intervenção, a sua coragem causava espanto ao arrojar­-se aos pés dos adversários, anulando as investidas da equipa contrária com intervenções de precisão. Como ainda hoje se diz na gíria do futebol, Manuel da Morga era um guarda-redes completo, mentalmente sólido, que parecia usar régua e esquadro.
Nos cruzamentos, raramente fa­lhava o tempo de saída da baliza, e não ficava a meio do caminho, fazendo questão de honra em tocar na bola.
Transmitia segurança à equipa, e não era fácil marcar-lhe um golo de penalti. Possuidor de uma elasticidade fantástica, atirava-se à bola só depois de o jogador adversário chutar o esférico, bem ao contrário de certos guarda-redes de hoje que pontificam na Primeira Liga e que, erradamente, se atiram para qual­quer dos lados da baliza sem convicção, antes de a bola partir.
Pelas brilhantes exibições que realizava, Manuel da Morga foi, por diversas vezes, considerado o melhor jogador em campo. Ao tempo, o seu nome granjeara certa fama no meio futebolístico do Distrito de Aveiro e Beira Litoral, a ponto de alguém lhe ter dedicado duas quadras em verso que, pelos mais diversos lugares, as gentes de Ovar trauteavam – porque era moda –, e que diziam assim:


Manuel da Morga,
Defende a bola,
Não tenhas medo
De sujar a camisola.
A camisola,
Azul e verde,
Manuel da Morga
Não deixa furar a rede.


Vestiu pela última vez a camisola da Ovarense num jogo particular disputado em Monção contra o clube local, o Des­portivo de Monção, no dia 20 de maio de 1939, numa festa de beneficência, em prol da construção de um quartel para os bombeiros da referida vila. O jogo saldou-se por uma vitória da Ovarense por 2-1, com golos de Manuel Marques e de João Estarreja.
Um ano depois, as balizas da Ova­rense seriam entregues a Manuel Cape­la, guarda-redes vindo do Beira-Mar, que viria a ingressar no Belenenses e, mais tarde, na Académica de Coimbra.
Poucos meses após o final da bri­lhante época de 1938/39, Manuel da Morga, que trabalhava como marceneiro em Ovar, na Marcenaria Modelo, e que residia no n.º 24 da rua Dr. Manuel Arala, então com 26 anos, decidiu dar novo rumo à sua vida, emigrando para os Estados Unidos, via Cuba, em busca de uma vida melhor. E por lá ficou.
No dia 18 de janeiro de 1997, em Naugatuck, Estados Unidos da América, país onde constituíra família com uma senhora natural da Murtosa, Manuel Gomes de Sousa desapareceria do convívio dos seus, aos 83 anos de idade. Nesse dia chegava ao fim do seu caminho, o lendário guarda-redes da Associação Desportiva Ovarense Manuel da “Morga”, que pelos anos 30 do século passado passeara a sua classe pelos campos de futebol do Distrito de Aveiro e da Beira Litoral.
Ficou a lenda e a saudade.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/05/manuel-da-morga-guarda-redes-de.html

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