18.5.13

Florbela Espanca – Uma mulher desfasada no tempo

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: José de Oliveira Neves

No passado dia 8 de março celebrou-se o Dia Internacional da Mulher, e na mesma data foi exibido em vários cine­mas do país o filme “Florbela”, permitindo que o nome desta escritora fosse referenciado em toda a comunicação social.
Pelas atitudes que tomava, nada comuns nos finais do séc. XIX e princípios do XX, Florbela Espanca é bem o símbolo da mulher livre de preconceitos.

Nos passos da Hortênsia

Florbela Espanca
É curioso que em Vila Viçosa, a terra que foi seu berço, já no séc. XVI uma outra mulher se distin­guiu pelo seu comportamento, fora dos parâmetros sociais da época. Estudando Ciências na Universi­dade de Coimbra e usando traje de homem, Pública Hortênsia da Costa – era esse o seu nome – dis­cutia, aos 17 anos de idade, com os doutos mais velhos, mostrando uma invulgar instrução, a ponto de Filipe II, Rei de Castela e Portugal, lhe conceder uma tença de 20$00 reis.
Mas não é para divulgar a vida e a obra desta ilustre calipolense do séc. XVI que me proponho a escre­ver este texto. É somente para evo­car Florbela Espanca, uma grande senhora da literatura portuguesa, de quem o saudoso Dr. Fragateiro me dizia ter sido das nossas melhores sonetistas, utilizando símbolos nos seus poemas, tal como fazia Antó­nio Nobre, o poeta do , cujo livro ela guardava religiosamente na sua mesinha de cabeceira.
Florbela Espanca nasceu em Vila Viçosa a 8 de dezembro de 1894. A certidão de batismo indica que é filha de pai incógnito e filha natural de Antónia da Conceição Lobo, solteira, empregada no servi­ço doméstico, e que foi batizada na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição de Vila viçosa, com o nome de Flor Bela Lobo, tendo por madrinha Mariana do Carmo, a esposa legítima do pai natural, que levou a menina para ser criada em sua casa, por ela e pelo marido, João Espanca, que a convencera a tomar essa decisão passados sete anos do casamento, por ela não engravidar.

Da esquerda para a direita: o irmão Apeles,
o pai João Espanca e Florbela
A sombra de Apeles

Antónia Lobo teve ainda um outro filho, Apeles, que será o gran­de amor de Florbela. Uma paixão que alguns historiadores dizem ter chegado perto do incesto.
Em 6 de junho de 1927, Apeles, que era piloto-militar, despenhou­-se com o avião que pilotava nas águas do Tejo, ao lado da Torre de Belém, nunca tendo sido en­contrado o seu corpo. A partir daí Florbela jamais conseguiu dormir tranquila, andando sempre triste e não deixando o luto.
Aos 19 anos, ainda estudante, casou, pela primeira vez, com Alberto Moutinho, também estu­dante, tendo-se ambos dedicado, para sobreviverem, a dar explica­ções. Aos 23 anos, frequentando o 3.º ano de Direito, em Lisboa, e como o marido vivia no Algarve, conheceu num baile um jovem militar, António Guimarães, com quem viria a casar, e de quem ao que consta, re­cebia maus tratos.
Em 1923, depois de Alberto Moutinho lhe ter pedido o divórcio, co­nhece o terceiro marido, o médico militar Mário Lage, e vem residir para Esmoriz, no concelho de Ovar, indo posteriormen­te, em 1926, viver para Matosinhos, na casa dos pais de Mário Lage.

Casa no lugar de Casela, em Esmoriz, onde residiu Florbela Espanca de 1923 a 1926

Tem ainda um caso com o pianista e médico Luiz Maria Cabral, e ou­tro com Ângelo César, no Grande Hotel do Porto.
Aurélia Borges, sua discípula, amiga e confidente, diz que “o amor era por parte de Florbela uma procura quase doentia”. A poetisa, num soneto intitulado de “Ambiciosa”, escreve: “Amor dum homem?  – Terra tão pisada, / Gota de chuva ao vento baloiçada… / Um homem? -, Quando eu sonho o amor de um Deus!...”.

Os males de Anto

A sua existência inconstante e angustiosa, marcada, face aos padrões da sua época, por escânda­los comportamentais que levavam algumas vezes a sua família a cortar relações com ela, teve um desenlace extemporâneo e trágico, no dia 8 de Dezembro de 1930, às duas da manhã – a mesma hora, dia e mês do seu nascimento – após de ter esgotado dois frascos de “Veromal”.
Quis o destino que Florbela Espanca passasse os últimos tem­pos da sua existência, antes de pôr termo à vida, na terra onde também já tinha padecido, com os males da tísica, o seu poeta predileto, António Nobre, de quem dizia, no poema “Impossível”: “Os meus males ninguém mos adivinha… / A minha dor não fala, anda sozi­nha… / Dissesse ela o que sente! Ai quem me dera!... / Os males de Anto, toda a gente os sabe! / Os meus… ninguém… A minha dor não cabe / Nos cem milhões de versos que eu fizera.”

Para além do tempo...

O seu corpo ficou sepultado no cemitério de Sendim, Matosinhos, no jazigo de D. Josefina Sant’Ana Pereira Lage, sendo trasladado para Vila Viçosa, sua terra natal, onde se realizaram várias cerimónias e onde viria a ser inaugurado o seu busto no Parque Municipal.
Quando das cerimónias da Igreja, cuja doutrina não aprova o comportamento da poetisa, antagó­nico à sua doutrina cristã, o próprio arcebispo de Évora reconheceu publicamente Florbela como uma grande escritora.
A Divisão da Cultura da Bi­blioteca e Património Municipal de Ovar organizou, de 4 a 23 de janeiro de 2010, uma exposição sobre a poetisa, que pisou durante cerca de três anos, a nossa terra, apreciando as paisagens do litoral, muito diferentes do seu Alentejo.

Florbela Espanca deixou-nos as seguintes obras:
Poesia: “Livro de Mágoas” (1919), “Livro de Soror Saudade” (1923), “Charneca em Flor” (1931, edição póstuma), “Reliquiae” e “Juvenília”.
Prosa: “Dominó Preto” e “Más­cara do Destino” (livros de contos).
Principais fontes: Rui Guedes, “Florbela Espanca – fotobiografia”; jornais e revistas e apontamentos enviados pelo Município de Vila Viçosa, a quem agradeço.


Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de maio de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/05/florbela-espanca-uma-mulher-desfasada.html

3 comentários:

Maria disse...

Fernando:
Gostei muito desta Biografia de Florbela. Completa, sem fantasias, verdadeira, até onde se pode conhecer a verdade.
É a nossa maior poetisa, sobretudo como sonetista. Só Virgínia Victorino, conseguiu aproximar-se dela. Estou a falar de mulheres, porque, mesmo contando com Camões, ninguém conseguiu igualar Bocage. Claro que esta é a minha opinião. Outros, com mais conhecimentos, terão outra.
Um abraço a toda a minha Ovar.
Maria Águeda.

Fernando Pinto disse...

Amiga Maria, comungo da sua opinião. Abraço da nossa Ovar

Joaquim Coelho disse...

Eu ainda vivinho da silva, gosto do que li gosto porque gosto. Florbela será imortal sem repousar no panteão essas honrras não quis ou não lhas deram mas também não as aceitaria
Criado e estimado pelo seu último marido Dr Mário por apelido Lage longe do bulício das grandes cidades, homem simples e de trato afavél isolado um pouco do mundo na quinta de Valteiro em Lousada cerceada de bucólicas paisagens tendo como fundo o cristalino riacho de seu nome Mezio por lá se deleitava em pachorrentas passeatas, e aqui o escriba e seu fiel escudeiro escutava histórias de vivências passadas ,com ele aprendi o sentido da vida ,o gosto pelo campo e pela simplicidade da partilha