3.5.13

ALGUMAS NOTAS TOPONÍMICAS OVARENSES – 8. Cabanões. Muradões

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/1994)
TEXTO: Armando de Almeida Fernandes 

Se a estes dois topónimos se reunisse Ações pela mesma terminação (-ões), teríamos três que nos dariam  mas só aparentemente  um certo à vontade ou nível de segurança (perigosa) na investigação, dentro das três probabilidades: -ones, um plural, -onis, um genitivo, e -onici mesmo, um patronímico. Vamos "experimentar"  porque a filologia toponímica também permite, de certo modo, a experimentação: todavia, não se "alargue" demasiado o que com isto quero significar...

 S. Cristóvão de Cabanões (1220), mais tarde S. Cristóvão de Cabanões da Vila de Ovar (séc. XVI)
Largo (1.º plano) e o cemitério, ao fundo, da antiga freguesia de S. Cristóvão de Cabanões. À esquerda
a Capela de S. João de Ovar, já citada num documento de 922

Antiga Capela de S. Donato,
citada documental em 922 e destruída em 1906
Para logo, ponho de parte a possibilidade de um patronímico nos dois casos em que poderá experimentar  se um nome pessoal (Muradões, portanto excluído ou à parte). É que o patronímico  apesar de constantemente invocado pelos etimologistas antropotoponímicos  não oferece congruência, porque nunca era definida a pessoa respectiva (proprietário, ou simples morador), tivesse ela ou não irmãos inteiros, isto é, que tinham o mesmo patronímico; nem ciência (e daí, novamente, sem lógica), visto que os topónimos que se explicam por aí como patronímicos oferecem as formas antigas em -is, quando ainda a do patronímico mais evoluída (até séc. XIV-XV) é -ez, e piormente antes (com -iz, -íci. Os chamados "especialistas" não se preocupam nada com estas impertinências: eu preocupo-me, mas não posso alongar-me aqui com ela. Basta a exclusão de -óniz como patronímico, enquanto me não for provado que me falta razão naquelas duas necessárias e suficientes contrariedades. Restam-nos, pois, o genitivo, -onis, e o plural, -ones.
Começamos com Muradões, visto que o considero à parte, ou seja, não antroponímico, e operemos a decomposição, pois que não oferece qualquer indecisão (ou mesmo que a oferecesse, para ser sujeita ao toque aferidor, digamos assim): nitidamente, Mur-ad-ões, que só pode admitir a antecedência fonológica Muratones,  evidente plural de muratone, derivado de muratus, que já o era de murus, o muro ou muralha de defesa, de fortificação (sentido que só mais tarde passou para o actual, o de parede). Se a derivação foi menos antiga, temos "murado" ("muro" -ado), em aumentativo. Na hipótese mais crível, um castro. O topónimo está há muitos séculos perdido, mas aparece em local conjunto com o de Cabanões, sem a mínima dúvida, como se revela no documento de 1026 "discurrente riu Ovar (Cáster actual) villa Kabanones et (villa) Muradones"  com "villa" no sentido de então (territorial demo-agrário). O "doublet" Cabanões  Muradões é expressivo em todos os pontos de vista  e reforça (aliás sem ser preciso) a formação de ambos os nomes a partir do nome comum "cabana", em dois tipos diferentes de edifício humano.

Estela funerária do antigo cemitério
de S. Cristóvão de Cabanões
O leitor deve estar recordado do que deixei dito acerca do topónimo Ovar com nome inicial e exclusivamente do pequeno rio (origem pré-romana), e sobre o seu nome actual, Cáster, alteração de Castro, sem dúvida. Até me ser demonstrado o contrário, estarei convicto de que a área dos Muradões ou do "murado" do castro era a do actual lugar de são João e arredor, de uma e outra banda do rio: aí, pois, a antiga Muradões, que a ermida de S. João eclipsou como designação do local (talvez, pois, algum dia, S. João de Muradões, abreviado, como tanto sucede, São João, até desaparecer Muradões mesmo). De acordo com o documento de 1026 referido, Cabanões estava aí vizinha, e ninguém ignora a proeminência religiosa e administrativa de Cabanões, até se impor a muito posterior povoação de Ovar, nome que lhe foi dado do rio e perdido, assim, por este (o "rio do castro" de Muradões, na consciência e depois subconsciência dos utentes). O que é preciso é pôr de parte por completo as fantasias ignaras acerca do topónimo Ovar (como o franchinote "o Var") e os equívocos patentes e que já demonstrei de uma origem no nome pessoal Oduarius. Não têm por onde se lhes pegar com critério científico e dentro da realidade documental.

Uma página do Foral de Ovar, do reinado de D. Manuel I (1514)
A villa de Cabanões e a villa de Ovar (propriedades rurais)
são citadas na inquirição de Afonso III (1251)
Para a primitividade de Muradões e Cabanões e a situação destes núcleos populacionais, não deve esquecer-se que, na respectiva antiguidade, a linha do litoral era muito diferente: o referido pequeno rio "Ovar" desaguava bastante a nordeste, área de São João (não pretendo rigores de traçado costeiro, nem são precisos aqui), e era aí mesmo a passagem viária conhecida por "Porto de Ovar" (ou Oval), documentada ainda do século XI para o XII - o arcaico "porto" significativo de passagem do rio ou qualquer abaixamento de nível entre elevações (como nos casos numerosos que vigoram aqui ao meu lado).
Claro que, se alguma vez admiti, sobretudo para estudo, uma origem antroponímica em Cabanões topónimo, esse sentido o ponho totalmente de parte: era um local cujo nome no elemento "cabana" (do lat. capanna) contrastava com o elemento "muro" em Muradões vizinha: os próprios nomes sustentam-se um ao outro nesse sentido de contrastação, isto é, de apoio respectivo, nos aludidos significados.
Dentro das ideias com que comecei, há pois, a pôr de parte o plural -onis antroponímico (até porque, devendo tratar-se de acusativo nessa hipótese, não se realizava a manifestação de posse ou propriedade inerente ao genitivo, isto é, -onis, a qual se buscava com este), o que se coaduna, ainda nisto, com a doutrina exposta acerca de Muradões e Cabanões.
Marco (1707) divisório das Paróquias de
S. Miguel do Souto e S. Cristóvão de Ovar
(antiga S. Cristóvão de Cabanões)
Permitam-se-me mais umas breves considerações, se bem que o assunto é perigoso  por demais o venho eu sofrendo, a desafiar-me o destemor com que encaro, sempre, os direitos da razão científica e, portanto, da muito lógica verdade. E não se trata apenas de ideias feitas, mas de autores preferidos, formalizadas em dogmas ou sacralizados em divindades.
O caso do topónimo Ovar está plenamente dentro disso: todavia, não deve ser fácil refutar-me a essencial razão (jamais devidamente afirmada e a bastante para eliminar qualquer outra opinião): seria antes muito mais fácil excluir mesmo o que penso, a sua raiz pré-romana, ov -"água" que dar crédito a qualquer outra, desde "o Var" franchinote, que só a Pinhos Leais e Abades de Miragaia lembraria, até ao genitivo Oduariii, embora foneticamente impecável este e dando a compreender a sua proveniência em parecer de sábios filólogos (como J. Piel e Leite de Vasconcelos). Mas com Cabanões não deixa de haver algo analogamente estabelecido e só porque o ovarense Miguel de Oliveira viu no filólogo francês Dauzat um "nome (pessoal germânico alatinado", Cavannus, e parece ter posto da parte o nome comum "cabana", a que primeiro aludira. De facto, declara que o -b- de Cabanões dever-se-ia "a uma analogia com cabana, e mais nada... "(reticências suas que significam preferir a ligação com Cabanac francês ou, logo, com o referido antropónimo Cavannus, mas sem reparar que a questão do b ou v se mantém mesmo aí...). Ora, além de Cabanões fazer "doublet" morfológico, e até semântico, com Muradões, também teriam vindo de Cavannus os numerosos casos que temos de Cabanas, Cabanelas, etc., e até outros mais de Cabanões? A crítica toponímica exige tanto de ciência quanto de lógica: onde falte uma cinca a outra, irremediavelmente. De resto, o mesmo M. de Oliveira desembara-se expeditamente do caso de Muradões: “Como este último nome se obliterou por completo, não percamos tempo com ele”. Uma declaração absurda, doutrinariamente, porque o valor de um topónimo é sempre o mesmo, quer vigore quer já não: e Muradões e Cabanões - repetirei - apoiam-se aqui morfológica e semiologicamente. Um topónimo é sempre um dado histórico, e nem por isso um "facto" extinto deixa de ser um facto histórico: pelo contrário.

Carta de de venda feita a 29 de abril de 1064 por Meitilli a Octício, da quarta parte de uma
herdade cita na villa de Cabanões e da quarta parte de um casal cito em Maradones abaixo do monte Castro Recaredo, território da cidade de Santa Maria, por onde corre o Rio Ovar 

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Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de janeiro de 1994)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/05/algumas-notas-toponimicas-ovarenses-8.html

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