2.4.13

General Paulo Bénard Guedes

Um Governador da Índia com raízes vareiras

Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2004)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça

Tínhamos a impressão, naturalmente captada de qualquer indício, que o General Bénard  Guedes estava ligado a Ovar. Vagarosamente, e dentro das nossas possibilidades, fomos tentando chegar ao fim da meada, porque o fio, pensámos, estava já preso nas nossas mãos.
O resultado desse trabalho, como era nosso desejo, foi positivo, dando-nos a consolação de verificar – e confirmar – as grandes qualidades da gente vareira que nos séculos XVIII e XIX deixou a sua terra e seguiu vários destinos.

General Paulo Bénard Guedes (1892-1960)
A família Guedes rumou para Lisboa, atraída pela actividade das fragatas, em que veio a marcar posição destacada. E vamos ao que nos interessa:
Quem era o General Bénard Guedes? Nada melhor do que reproduzir o que sobre a sua personalidade refere o “Tratado de Todos os Vice-Reis e Governadores da Índia”, da Editorial Enciclopédia, 1962:
“Paulo Bénard Guedes, oficial-general e governador ultramarino, nasceu em Lisboa a 5 de Outubro de 1892 e morreu em Benguela a 11 de Setembro de 1960. Concluiu o curso de Infantaria em 1913 e atingiu o posto de brigadeiro em 23 de Janeiro de 1951 e o de general em 3 de Fevereiro de 1953, tendo passado a situação de reserva em 5 de Maio de 1957.
Mobilizado durante a Primeira Guerra Mundial, serviu na expedição de Moçambique, de 1916 a 1918, onde combateu valorosamente, participando num combate da Serra Mecula, contra os alemães, nos dias 3, 6, 7 e 8 de Dezembro de 1917, sob o comando do então capitão Francisco Pedro Curado. Foi aprisionado como outros combatentes, mas libertado algum tempo depois, tendo sido louvado e condecorado com a Cruz de Guerra de 1ª classe e o grau de oficial com palma da Ordem da Torre e Espada. Quando ainda em Moçambique, depois da Primeira Grande Guerra Mundial, serviu na Guarda Nacional Republicana, em Lourenço Marques. Em 1919 – 1920 exerceu o professorado no Liceu de Lourenço Marques, e em 1920 – 1921 serviu a Direcção dos Serviços Diplomáticos, Geográficos e de Marinha e noutros serviços daquela província. No posto de capitão, comandou o 4º batalhão da Legião Portuguesa, em Lisboa, e, como major, foi 2º comandante do Batalhão nº 1 da Guarda Nacional Republicana, também em Lisboa. De 1941 a 1945 foi chefe do Estado-Maior do Estado da Índia, que acumulou, durante algum tempo, com o comando do Corpo de Polícia e Fiscalização. Na mesma província, de 1945 a 1946, foi encarregado do governo e em 1947 foi nomeado chefe da Repartição Militar do Ministério do Ultramar. Em 1949 e 1950 tirou o curso de Altos Comandos, no Instituto de Altos Estudos Militares, e, em 1948 e 1949, comandou o regimento de Infantaria nº 2, em Abrantes. De 1950 a Junho de 1952 foi comandante militar de Macau e, neste último ano, durante algum tempo, comandante militar de Moçambique, lugar que abandonou por ter sido escolhido para governador-geral da Índia.
General Bénard Guedes
Exerceu o cargo no difícil período de 5 de Novembro de 1952 a 9 de Outubro de 1958. Além das dificuldades económicas resultantes da acção da União Indiana, que se opunha à passagem de pessoas e bens e impedia o reabastecimento em Bombaim ou noutros portos indianos aos navios que demandavam Mormugão, teve ainda de lutar contra o movimento  do satiagraha e as incursões de bandidos – os Dacoits – que, pagos pela Comissão de Libertação, se infiltravam nos territórios de Goa e Damão, provocando destruições e mortes. Sob o seu governo conheceu o Estado da Índia um enorme surto de progresso material, que permitiu fazer face às dificuldades postas pela União Indiana, que nunca conseguiu abalar o moral e o portuguesismo dos luso-indianos.
Foi ainda durante o governo de Bénard Guedes que ocorreu o miserável assalto por bandidos ao serviço da União Indiana aos encraves de Dadrá e de Nagar-Aveli, que há muito não tinham comunicações com os territórios costeiros. Nesse assalto participaram elementos da polícia e do exército indiano.
Terminada a sua administração, o general Bénard Guedes regressou à Metrópole e veio a ser nomeado delegado do Governo na Companhia dos Diamantes de Angola.
Tinha o grande oficialato da Ordem do Império, as comendas da Ordem de Avis, de S. Gregório Magno, da Santa Sé, e do Mérito Civil, de Espanha, a “fourragère” da medalha de ouro de Valor Militar e as medalhas da Expedição a Moçambique, da Vitória (com estrela de prata) e de prata de Comportamento Exemplar.”
Como complemento, mais informação, extraída da “Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira” – Actualização I:
“Passou à situação de reserva em 1957. Em 1959 foi designado para o cargo de lugar-tenente de D. Duarte Nuno de Bragança.”
Para além destas transcrições, não será despropositado ler o curriculum do ilustre militar que se encontra no Arquivo Histórico e Militar, em Lisboa, que segue, passo a passo, a sua notável carreira militar.

O general Paulo Bénard Guedes era filho de José Soares Guedes (nascido em Lisboa em 7/11/1886) e de Philomena Pauline Bénard, de origem francesa (nascida em 30/3/1870, também em Lisboa, onde casaram).
O que nos importa realçar nesta família é que os avós paternos do ilustre militar – Manuel Soares Guedes e Ana Gomes da Assunção – eram naturais de S. Cristóvão de Ovar, onde casaram. Ele, nascido em 15/7/1816, viria a falecer em Lisboa, na freguesia da Lapa, em 11 de Junho de 1881.
Como elementos de referência para um mais alargado trabalho sobre a Família Bénard Guedes, acrescentaremos os seguintes pormenores: no Inventário Orfanológico de Manuel Soares Guedes, organizado em Lisboa em 1881, contam-se, entre muitos outros valores registados: um barco varino, de nome “Leal”, duas fragatas com os nomes “Manno” e “Emprevista”, respectivamente, e uma morada de casas altas com quintal, poço e caminhos de carro, na Rua das Figueiras, na vila de Ovar, etc.
Nesse Inventário aparecem como testemunhas importantes vareiros radicados na capital.

Para finalizar, resta-nos apresentar um pormenor que consideramos da maior importância, por revelar a alta consideração em que o General era tido mesmo entre as mais conhecidas figuras políticas da Índia. Dizia-se, ao tempo, que Nerhu manifestara um propósito altamente  nobilitante para com este neto de vareiros: enquanto o general Bénard Guedes estivesse ali como governador, não daria ordens para a invasão do território que ainda permanecia nas mãos dos portugueses. Isto diz muito das suas qualidades de grande diplomata, que o era indubitavelmente. Esta é a sensação que tinham todos os que com ele privavam.
O general Paulo Bénard Guedes prestigiou, ao mais alto grau, as suas origens vareiras.
Como se continua a provar, Lisboa constitui um reservatório muito grande de referências à gente de Ovar, que ali deixou – e continua a deixar – uma marca muito forte das suas potencialidades.
Quem quererá debruçar-se sobre este tema e desenvolvê-lo com a profundidade que merecem muitos outros vareiros, tal como a terra que os viu partir?

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Março de 2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/general-paulo-benard-guedes.html

2 comentários:

Fernando Laureano disse...

Sr. Fernando Pinto.
Agradecer pelo Artigo sobre o General Paulo Bénard Guedes o qual foi Governador Da India.
Obrigado.
Fernando Laureano

Fernando Pinto disse...

Obrigado, nós, pela sua visita, pelo seu comentário. Cumprimentos