14.4.13

Casa-Museu de Arte Sacra da Ordem Franciscana Secular de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/04/2013)
TEXTO: Fernando Manuel Oliveira Pinto

A Casa-Museu da Ordem Terceira de S. Francisco foi inaugurada há 40 anos, em 17 de fevereiro de 1973, pelo Bispo-Auxiliar do Porto D. Domingos de Pinho Brandão. O seu fun­dador, João Fernandes Arada e Costa, no livro História Religiosa de Ovar (Algumas achegas), lembra o velho adágio: “não é bom vareiro quem não é Terceiro”. Esta Instituição, criada em 1660, para além de albergar um valioso espólio, tem sido a principal dinamizadora das nossas Procissões Quaresmais. No trabalho que estamos a realizar
sobre a Rede Museológica de Ovar já demos a conhecer a Igreja Matriz e as Capelas dos Passos, e já fomos até ao Pólo Central da RMO em Arada. Vamos agora entrar no único museu ovarense dedicado exclu­sivamente à mostra de objetos de cariz religioso.

A Casa da Ordem

Brasão que se encontra na fachada
da Casa-Museu de Arte Sacra da Ordem
Franciscana Secular de Ovar

FOTO: Fernando Pinto
Encontramo-nos junto a uma das entradas do renovado Mercado Municipal. À nossa frente temos a Casa-Museu de Arte Sacra da Ordem Franciscana Secular. Não entramos ainda. Permanecemos no exterior do edifício, porque os azulejos do século XVIII e o brasão com as insígnias da Ordem que embelezam a fachada do n.º 27 da Rua Gomes Freire assim o exigem (ver fotos em cima).
A Casa da Ordem, segundo es­creve o irmão franciscano Arada e Costa na obra mencionada no introito deste nosso texto, foi adquirida ao alfaiate Pedro de Campos, de Ovar, por 26 500$000 reis: “Em 1776 foi vendida na antiga rua da Graça hoje ruas Elias Garcia e Gomes Freire uma casa pelos filhos de Maria Vitória Pereira, Maria Clara e marido, Francisco Rodrigues, do Sobral, e Maria da Conceição (...). Os Terceiros aspiravam possuir esta casa pela sua boa localização, entre a Matriz e Capela de Nossa Senhora da Graça”, e o alfaiate acabou por cedê-la à Ordem, sendo lavrada es­critura a 24 de maio de 1780.
Ao longo dos anos, a Casa-Museu sofreu várias remodelações. Em 1942 a sua frontaria foi alterada e acrescen­tado um primeiro andar. Foi neste piso que entabulámos uma conversa com Porfírio Ferreira, atual Ministro da Ordem, no dia em que se concluía a montagem da exposição “Devoções & Legados – um património com futuro”.
“Esta é uma instituição religiosa assente nos valores de S. Francisco de Assis”, lembrou o Ministro da Ordem, enquanto trabalhava, auxiliado por um dos voluntários que costumam ajudar no que é preciso. “Até o novo Papa nos veio dar uma grande alegria... Foi uma grande emoção para mim, para os franciscanos espalhados pelo mundo, quando soubemos da notícia que o Papa tinha escolhido o nome de Francisco, um nome que tem tudo a ver com esta Casa. Para nós, é mais uma responsabilidade acrescida, para continuarmos a praticar o bem e a olharmos pelos mais pobres”, revelou, enquanto subíamos mais um lanço de escadas.
“Aqui em cima ficam as reservas da Casa-Museu”, disse Porfírio Fer­reira, apontando para algumas das esculturas que enchem as prateleiras que servem para acondicionar aquilo que não está exposto no outro piso, mas que pode ser visitado. “As alfaias e tudo o que pertence aos andores das procissões estão aqui guardados nesta divisão”, referiu. Antes de o visitante subir ao primeiro andar, onde, desde 2010, são feitas as exposições temporárias, e de ter tido a oportunidade de dar uma olhadela nas reservas, começa por descobrir no hall de entrada as insígnias da Ordem e uma imagem de S. Francisco. Entrando no salão que se encontra no lado direito, pode apreciar as belas imagens da Procis­são dos Terceiros que se encontram nos respetivos nichos. Este ano, devido ao mau tempo, foi a única das procissões quaresmais que saiu à rua: “Como somos nós que organizamos também as outras pro­cissões, preparamos tudo na mesma, ficando os andores em exposição na Igreja e na Capela do Calvário”, adiantou Porfírio Ferreira.


Pormenor da fachada da Casa da Ordem Terceira de OvarFOTO: Fernando Pinto

No 3.ª domingo de cada mês, os Irmãos Franciscanos reúnem para orar e refletir. Estas reuniões mensais, segundo o Ministro da Ordem, “eram feitas antigamente nos pisos supe­riores, mas como algumas pessoas têm dificuldade em subir os degraus, atualmente é ali que as reuniões se fazem”. O Conselho da Ordem tam­bém reúne naquele espaço sempre que é preciso resolver problemas, como a falta de dinheiro, saídas para fora de Ovar, etc. No rés-do-chão existe ainda um balcão onde o visitante pode adquirir pequenas lembranças, como livros, terços, medalhas, etc. O preço de entrada na Casa-Museu é simbólico. “É só para ajudar a pa­gar a luz. Se vierem em grupo, ainda é mais barato”, explicou Porfírio Ferreira.
Sendo um edifício muito an­tigo, quando chove muito caem alguns pingos cá dentro. Mas já foi pior, segundo nos rela­tou o atual responsável por aquela casa: “Precisávamos, urgentemente, de, pelo menos, um desumidificador em cada piso, para que a humidade não estrague este nosso valioso património. Se alguma empresa ou particular quiser ajudar este Museu, essa dádiva será recebida de braços abertos, porque, como sabe, esta é uma Instituição sem fins lucrativos”.

“O grande objetivo da Casa-Museu é legar este património às gerações vindouras”

Jesus Menino
(uma das peças expostas)

FOTO: M. Pires Bastos
Desde 2009 que Sofia Vechina colabora voluntariamente com a Rede Museológica de Ovar, como coorde­nadora técnico-científica de várias exposições ligadas à Arte Sacra.
Ao jornal “João Semana”, Sofia Vechina frisou que “o grande ob­jetivo da Casa-Museu é legar este património às gerações vindouras”, e que ultimamente estão a organizar programas educativos de forma a apostar fortemente nas escolas: Queremos chamar os jovens e mostrar-lhes que estas peças que aqui estão expostas não falam só de religião, mas também das pessoas que as criaram, das técnicas utilizadas. E para isso é preciso usarmos uma linguagem diferente, que atraia a atenção dos mais novos”.
Segundo a jovem coordenadora, a montagem destas exposições pres­supõe sempre investigação científica: “É preciso que haja um trabalho de conservação do espólio, que é feito por alguém da área de conservação e res­tauro, e, por outro lado, alguém ligado à História de Arte, que possa mexer na documentação para descobrir as potencialidades de cada objeto exposto. Em qualquer exposição temática existe sempre um fio condu­tor que devemos seguir com atenção”.
A vantagem deste Mu­seu, na opinião de Sofia Vechina, é não trabalhar apenas com o espólio que esta casa guarda, mas tam­bém com as peças de arte que se encontram dispersas pela Vigararia de Ovar: “A última exposição que fizemos foi sobre S. Francisco. Veio uma imagem da Paróquia de Válega, e já tivemos exposições em que vieram peças de outras freguesias do concelho”, concluiu.

O testemunho do Pároco

Não quisemos terminar este trabalho sem ouvirmos o Padre Manuel Pires Bastos: “Os paroquianos de Ovar muito devem à Ordem Ter­ceira pela sua colaboração com a Paróquia ao longo dos últimos séculos”, disse o Pároco, parabenizando os irmãos franciscanos pelos 40 anos da Casa-Museu, e, porque, apesar de os tempos serem outros, “se terem es­forçado em remodelar as in­stalações de forma a atrair e a cativar os visitantes”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de abril de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/casa-museu-de-arte-sacra-da-ordem.html

Sem comentários: