16.4.13

A Capela de Santa Catarina [Ribeira de Ovar]

Jornal JOÃO SEMANA (01/12/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

A propósito da data festiva da mártir Santa Catarina de Alexandria, ocorrida em 25 de no­vembro, e que o lugar da Ribeira comemorou, uma vez mais, nesse dia, com Missa Solenizada na Capela que lhe é dedicada, aqui deixamos algumas informações históricas acerca do culto que lhe é prestado em Ovar desde há cerca de 500 anos.

Rio Cáster atravessando os campos de cultivo da Ribeira de Ovar
FOTO: Fernando Pinto

A Ribeira de Ovar

A ribeira de Ovar é constituída por terras baixas que marginam o percurso final do rio Cáster (o rio Uvar da época medieval).
Na margem direita do ribeiro, a partir de uma folsa da ria, foi-se constituindo um cais de embarque e desembarque, com pequenos arma­zéns(1). A algumas centenas de metros nasceu um povoado servido por um caminho – a rua direita – que ligava este povo ao núcleo central de Ovar (Praça), servindo de ligação viária e comercial, através da Rua das Figuei­ras, atual Rua Dr. José Falcão, aos viageiros que demandavam o Porto e Aveiro, preferindo a ria como meio de comunicação.

A primeira capela

No centro do povoado ribeirinho, no sítio chamado Portal dos Barqueiros(2), foi construída uma capela em honra de Santa Catarina, mártir de Alexan­dria, considerada padroeira dos pes­cadores e mareantes, e também dos estudantes e dos advogados, capela essa citada no Catálogo dos Bispos do Porto, de 1623(3), vinda, provavel­mente, do séc. XVI, época em que a devoção àquela mártir estava muito espalhada.
O Padre Lírio afirma que foi reformada em 1679 e que lhe acres­centaram a sacristia em 1694(4).

A segunda e atual capela

Capela da Ribeira, Ovar
Segundo a documentação con­servada no Arquivo Diocesano da Diocese do Porto, no início do século XVIII, “por se achar arruinada” a pri­mitiva capela, os oficiais da respetiva Confraria providenciaram edificar um novo templo, munindo-se, para tal, das respetivas licenças, sendo a obra arrematada em 1732. Quatro anos depois, em 1736, estando “o corpo da capela perfeito” e ali já se celebrando Missa, o Oficial da Confraria alcançou licença para ultimar os trabalhos, com a construção da capela-mor.
Era então Juiz da Igreja o Licenciado Francisco Rodrigues de Carvalho e Cunha que, no Auto da Petição para a bênção do edifício, e atendendo a que da antiga capela “se tiraram algumas colunas e pedras de ançã e outros materiais que não servem para a nova (…)”, mas que “se podem vender para uso profano e apro­veitar do produto”, pede licença para vender pedras de esquadria e madeira das portas e ferro da capela antiga”(5).
Segundo reza um dos docu­mentos da refundação (1736), a Capela tinha Confraria própria.
Em 1909/1910 a capela foi re­formada e dourado o altar à custa de Manuel Rodrigues Aleixo e esposa. Em 1911, após a proclamação da República, tal como aconteceu com os restantes bens da Igreja, a Capela passou para a posse do Estado, sen­do restituída à Paróquia (Fábrica da Igreja) após a Concordata de 1940.
Zagalo dos Santos, que cita as festas de Ovar – Santo António, S. João, S. Pedro, Nossa Senhora do Parto, S. Domingos, Festa do Mar e Santa Catarina –, conta que esta última, no Cabo da Vila, “vinha no couce destas festas todas”, metendo “arraial com luminárias”. E acrescenta, com humor: “Numa noite de fogo, a chuva era tanta que estragou a festa. Como no outro dia fez sol, os ribeirinhos exigiram que mesmo no “espinhaço do dia” houvesse iluminação, e a procissão desfilou entre e por baixo de balões e copinhos alumiados pela chama do azeite que os alimentava”(6).
Entre as várias intervenções sofridas posteriormente contam-se a construção da torre em meados do séc. XX, e a adaptação da capela-mor no início do 2.º Milénio.

(1) O “Almanaque de Ovar” de 1914, pág. 64, afirma que o cais da Ribeira foi construído em 1754. Antes, o embarque e o desembar­que era no sítio do Corgo.
(2) Assim chamado segundo o Padre Lírio (Monumentos e Instituições..., pág. 122), por ser a partir dali que os barqueiros po­diam procurar fretes para os seus barcos.
(3) Cunha, D. Rodrigo da, “Catálogo e História dos Bispos do Porto, editado em 1623, e reeditado, em 2.ª edição, em 1742, reproduzindo as informações.
(4) “Monumentos e Instituições”, pág. 123.
(5) Arquivo Diocesano do Porto, Processos de Capelas – Ovar.
(6) “Saibam Quantos...”, junho de 1950, pág. 121.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de dezembro de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/04/a-capela-de-santa-catarina.html

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