1.3.13

Pólo Central da Rede Museológica de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2013)
TEXTO: Fernando Manuel Oliveira Pinto

Núcleo Museológico de Arada
e Reserva Museológica Municipal

Núcleo Museológico de Arada
O Pólo Central da Rede Museológica de Ovar, tutelado pela Câmara Municipal de Ovar (CMO), é constituído por duas estruturas físicas: o Núcleo Museológico de Arada e a Reserva Museológica Municipal. É a principal estrutura municipal de apoio técnico a todas as instituições pertencentes à Rede Museológica de Ovar, em áreas tão distintas como o inventário e gestão de coleções, a conservação preventiva, os serviços educativos, a divulgação, etc.
Reserva Museológica Municipal

O Núcleo Museológico de Arada, inaugurado em 2003, é constituído por um ateliê de conser­vação e restauro e uma área para serviços educativos.
A Reserva Museológica Municipal, inaugurada em 2009, é um espaço onde se faz o armaze­namento, acondicionamento e conservação de objetos, materiais e coleções do município.

Primeira paragem: 
Núcleo Museológico de Arada

Chovia na tarde em que subi­mos os parcos degraus que condu­zem à entrada da Biblioteca Pólo de Arada, na Rua dos Correios. Dentro do edifício da antiga Jun­ta de Freguesia esperava-nos a técnica da CMO, Raquel Elvas, licenciada em Conservação e Res­tauro pelo Instituto Politécnico de Tomar, que nos convidou a descer à cave onde tem o seu ateliê.
O Núcleo Museológico é um espaço mutável, onde são acondi­cionadas as exposições temporá­rias da Câmara: “Esta exposição aqui é sobre o escritor Júlio Di­nis, e esteve patente na Biblioteca de Vila do Conde. As exposições entram e saem, e sou eu que faço a gestão de todo o acervo muni­cipal... Nesta outra sala temos algumas cadeiras que estão ainda por tratar, pertencentes ao espólio do Museu Júlio Dinis, edifício que foi requalificado e onde também passaremos a realizar as reuniões rotativas da Rede Museológica de Ovar (RMO)”, adiantou Raquel Elvas, explicando que uma das suas tarefas é fazer a incorpora­ção das peças que vão chegando. Primeiro, faz o seu registo, foto­grafa o objeto num pequeno es­túdio improvisado, e, sempre que possível, o seu inventário. Depois, as peças passam por um processo de conservação preventiva ou de restauro, e após terem sido acon­dicionadas, seguem para a Reser­va Museológica Municipal, que fica na Escola da Preguiça, espaço que também tivemos o privilégio de visitar.
A ténica Raquel Elvas, junto à imagem
de S. Cristóvão [Foto: Miguel Oliveira]
“Esta balança veio da anti­ga Fábrica de Papel do Casal, onde vai ficar a Escola de Artes e Ofícios. Mas antes de o edifício entrar em obras, nós, Serviço do Património, fizemos uma recolha de todo o acervo que achávamos ter interesse.”
Muitas máquinas que existiam naquela antiga Fábrica sofreram, segundo a técnica, roubos de pe­ças, algumas das quais já não se podem, infelizmente, reconstituir, dado o seu estado de degradação.
O espólio da Câmara, segundo a técnica, deve rondar cinco mil peças: “Registadas estão 3600 peças, e inventariadas estão pou­cas, porque o trabalho de inven­tariação é muito moroso, por ser preciso fazer a descrição exaustiva da peça, e descobrir o percurso que ela fez, qual era a sua função, etc.”, explicou Raquel Elvas.

Reencontro com a imagem
de S. Cristóvão, padroeiro de Ovar

Foi com grande satisfação que ouvimos as explicações da jovem técnica acerca do estado de con­servação da escultura de S. Cristó­vão, em pedra de Ançã. Esta maté­ria-prima, de origem calcária, foi utilizada pelos grandes mestres para criarem obras-primas da es­tatuária religiosa e tumular.

Raquel Elvas mostrando o estado em que se
encontra a escultura de S. Cristóvão de Ovar

[Foto: Manuel Pires Bastos]
“Como a escultura esteve ex­posta a um ambiente muito salino, e sofreu com as mudanças bruscas de temperatura, encontra-se neste estado”, disse a técnica, apontan­do de alto a baixo para a imagem, assegurando que vai tentar dar prioridade a esta valiosa peça do século XV, que tanto significado tem para os ovarenses, sejam ou não fiéis. “Neste momento estou a fazer o levantamento de alguns repintes, e a próxima fase será consolidar a pedra. Entretanto, vou fa­zer o preenchimento de algumas fissuras para lhe dar mais consistência. A so­lução não está em preencher toda a es­cultura. Eu estou a fazer um trabalho conservativo e não um restauro”, sublinhou, não tirando os olhos da escultura.
Depois de consolidada a peça, a técnica irá fazer a fixação da po­licromia que ainda resta. O trata­mento final a dar constará de uma camada de proteção. Só depois vai avivar as cores, como o azul da veste de S. Cristóvão ou o ver­melho do manto. Serão também colocados dois espigões de forma a unir a escultura, que se encontra neste momento dividida em duas partes.
Por estarmos tão próximo da imagem do padroeiro de Ovar, pu­demos vislumbrar alguns porme­nores escultóricos (rio e peixes, na base), que eram impercetíveis aos nossos olhos quando a admiráva­mos no nicho da fachada da Igreja Matriz de Ovar.
“Será feita uma réplica, por­que esta peça não aguenta mais mudanças de temperatura. De­pois poderá ser exposta num local apropriado", referiu Raquel Elvas.

Segunda paragem:
Reserva Museológica Municipal

“A Dr.ª Conceição Vasconcelos, na altura Vereadora da Cultura, lembrou-se de aproveitar a Escola da Preguiça para montar a reserva municipal, porque existiam muitas obras que andavam espalhadas por várias dependências da Câmara, sendo necessário juntar todo esse espólio”, lembrou a técnica.
O espólio da Reserva encontra­-se acondicionado por categorias: os têxteis ficam juntos, os docu­mentos gráficos e as madeiras tam­bém: “O que se torna complicado se não houver mobiliário apro­priado para acondicionar as peças como deve de ser”, explicou.


Algumas das alfaias agrícolas que podem ser vistas na Reserva Museológica
Municipal, em Arada  [Foto: Miguel Oliveira]
Para além das objetos de cariz etnográfico, como as alfaias agrí­colas (na foto), as lembranças que são oferecidas à Câmara Municipal começam a invadir o pouco espaço existente.
“Nesta última divisão faz-se a receção do espólio de maiores di­mensões. O que não cabe no Nú­cleo vem parar aqui. Esta nora, por exemplo, foi recolhida no novo Parque Urbano. Mas qualquer dia não sei onde vou colocar as coisas que chegam diariamente à Reser­va”, disse a terminar a visita.

A Autarquia esclarece

Sobre este tema, Vítor Ferrei­ra, Vereador da Cultura da CMO, disse em entrevista ao jornal “João Semana” que o Pólo Cen­tral da RMO presta serviços im­portantíssimos de apoio técnico às diversas entidades que compõem a rede: “As pessoas olham para estas Instituições como um espa­ço de depósito de muito das suas memórias, das suas tradições”. E informou que o Ateliê de Conser­vação e Restauro de Azulejo, em espaço arrendado, vai passar para a futura Escola de Artes e Ofícios, não descartando a possibilidade de o espólio que se encontra na Reserva de Arada poder passar também para o “novo” edifício em construção no Casal.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de fevereiro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/03/polo-central-da-rede-museologica-de-ovar.html

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