7.3.13

Fábrica de conservas “A Varina”

Jornal JOÃO SEMANA (01/01/2011)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Nos finais do séc. XIX e nas primeiras décadas do século XX, a costa de Ovar, que se estendia desde Espinho até à Costa Nova, era o maior centro piscatório do nosso país.
Numa pesquisa feita no Arquivo Distrital de Aveiro, verifiquei que no séc. XIX as companhas que laboravam nessa zona de pesca eram todas registadas em Ovar, concelho que, na citada época, tinha seis Cartórios Notariais para esse e outros fins, dando origem a cerca de 4 mil livros, o que traz dificuldades acrescidas para quem, actualmente, procura elementos a este respeito.

Lino Brandão e seu filho Mário Brandão,
os primeiros donos e dirigentes de "A Varina"

Como escrevi no meu livro A Pesca no Furadouro (1800-1955)”, algumas vezes acontece encontrarmos inscrições de companhas e factos a elas aderentes que pensamos serem do Furadouro e que, posteriormente, verificamos serem de Espinho, Silvalde, Paramos, Esmoriz, Cortegaça, S. Pedro de Maceda e de outras praias, até à Costa Nova, onde se exercia essa actividade.
Foi por ser tão importante na actividade piscatória desse período, que a nossa terra despertou o interesse da indústria conserveira, que começava a dar os primeiros passos nos finais do séc. XIX.
Assim, em Ovar era criada, no Largo Mártir S. Sebastião (actual Praça Almeida Garrett), a fábrica “Luso-Brasileira”, que, para além de conservas de peixe, produzia conservas de carne e de legumes.
Em 1903, esta fábrica passou, por trespasse, para a firma Gomes, Meneres & C.ª Lda.,[1] que ali instalou a Fábrica a Vapor de Conservas Alimentícias “A Varina” [2].

Postal da Fábrica de conservas "A Varina",
com sede no Largo do Mártir S. Sebastião (actual Parque Almeida Garrett), 
em 1903,
vendo-se Agostinho Meneres, um dos sócios fundadores

Que o êxito foi imediato prova-o o facto de, logo no ano seguinte, a Câmara Municipal, na sessão de 27 de Abril de 1904, ter atribuído àquela firma, para a construção de uma sucursal mais perto do mar, uma área arenosa situada a sul da praia do Furadouro, não exigindo qualquer retribuição [3].
Catálogo ilustrado da fábrica "A Varina",
de 1935, com a firma de Brandão & C.ª Lda
A fábrica de Ovar e a sua filial na costa do Furadouro destinavam-se, principalmente, ao preparo das conservas de sardinha, de que se abasteciam não só naquela praia como nas da Torreira, S. Jacinto, Costa Nova, e outras. Para facilitar esse abastecimento, aquela sociedade possuía uma lancha construída em madeira de Teca, movida a motor, a qual rebocava, através da Ria, até ao Carregal, os barcos provenientes daqueles portos piscatórios, carregados com a sardinha, que era seguidamente enviada para o seu armazém.
Por escritura de 1 de Junho de 1908, “A Varina” passou para novas mãos, a sociedade Ferreira, Brandão & C.ª, que viria a ser dissolvida a 30 de Janeiro de 1912, para formar a sociedade Brandão & C.ª Limitada. Nesse mesmo ano, exportou conservas para África, América e Europa.
Em 1914, quando trabalhavam na fábrica 120 operários, o jornal ovarense “A Pátria” publicava, em 15 de Janeiro, uma petição da nossa Câmara, apoiada por outros municípios do distrito de Aveiro, e dirigida ao Ministro da Marinha, “para ser mantida a lei de 14 de Maio de 1903 e punidos os abusos contra as disposições do decreto de 7 de Junho de 1913”. O mesmo jornal, e na mesma época, referia que o Ministro da Marinha permitira, por decreto, a exploração da pesca por meio de cercos americanos na referida zona marítima (costa entre Espinho e Mira), revogando uma lei que, segundo a opinião do jornal, só ao Parlamento cumpria alterar.
E continuava o periódico: “Em virtude de tal permissão, a nossa costa está sendo constantemente assolada por uma legião de vapores de pesca, com grave prejuízo para as artes do arrasto, pois não só apanham a sardinha como também não respeitam as distâncias que, neste próprio decreto, foram determinadas”.
O historiador matosinhense Fernandes Tato esclarece que a forma de pescar do “cerco americano” era quase idêntica à das traineiras e motoras. “Contudo, pelo sistema do “cerco americano”, a sardinha, depois de pescada, era conduzida em embarcações movidas a óleo, a que se dava o nome de buques, que possuíam um depósito revestido de cimento, no qual o peixe era colocado, tendo-se o cuidado de se lhe extrair a água que porventura aparecesse” [4].

As antigas instalações de "A Varina", na Av. Serpa Pinto, em Matosinhos, transformadas actualmente num supermercado, vendo-se ainda por trás a velha chaminé

Estatueta existente no topo da antiga
fábrica de conservas "A Varina", no Largo
S. Sebastião, hoje Largo Almeida Garrett,
 fabricada por A. Costa & C.ª, Fábrica
das Devesas, Vila Nova de Gaia (finais do
séc. XIX e meados do séc. XX). 
A modelo desta peça foi Maria Crista,
 mulher humilde de Ovar, carreteira de várias
 firmas, entre as quais a do chapeleiro Oliveira,
da Rua Elias Garcia, que levava à cabeça os
eletrodomésticos ali comprados, inclusive 
máquinas de costura
A fábrica continuou a funcionar normalmente, contando, em 1917, com 137 empregados.
Em 17 de Maio de 1924, a Brandão & C.ª Limitada, que mantinha a sua sede em Ovar, tendo duas sucursais – uma no Furadouro e outra em Matosinhos –, modificou o pacto social, elevando o capital de 150 para 600.000$00 [5].
Não podendo ficar indiferente às transformações técnicas operadas na pesca, “A Varina”, que era a mais antiga fábrica do norte de Portugal [6], agora com a sua sede no edifício da Avenida Serpa Pinto, 350 (onde existia a filial de Matosinhos, e onde empregou vários trabalhadores transferidos das suas instalações de Ovar e Furadouro), continuou a manter o seu prestígio, tendo os seus produtos conquistado vários prémios em concursos no país e no estrangeiro.
Eram muito conhecidas e prestigiadas no mercado as marcas registadas pela firma de Ovar, tais como: Brandão, Lili, Varina, 33, etc. E de tal modo se impuseram que a firma foi distinguida com a Medalha de Prata na Panama Pacific International, Exposition de S. Francisco, Califórnia (1915), com a Medalha de Ouro na Exposição Colonial Internacional de Paris (1931), com o Certificate of Merit na Witwaters and Agricultural Show, em Joanesburgo, na África do Sul (1932), com o Grande Prémio de Honra na Grande Exposição Internacional (Portugal, 1932), e com o Grande Prémio e Medalha de Ouro na primeira Exposição Colonial Portuguesa (Porto, Palácio de Cristal, em 1934).
Em 1939, com a decadência da pesca artesanal no Furadouro, “A Varina” transferiu as suas instalações e a sede para a vila de Matosinhos, onde prosperava a pesca a motor [7].
No jornal “O Povo de Ovar” de 9 de Maio de 1940 começou a ser publicado um anúncio para a venda dos terrenos e edifícios de “A Varina” em Ovar e Furadouro, anúncio que terminou em 12 de Junho do mesmo ano.
Segundo informação dada por D. Aurora Libório a uma sua colaboradora, as instalações do actual Parque Almeida Garrett foram compradas, nos anos 40, pelo seu pai, Manuel Rodrigues Almeida, e por seu tio António Rodrigues Almeida, passando, posteriormente, a outros proprietários. (Os terrenos da antiga fábrica estão hoje ocupados com o empreendimento imobiliário do Centro Garrett).

Fábrica de conservas "A Varina", em Ovar, no Largo Mártir S. Sebastião, em 1931

Actual Centro Garrett (antigo Largo do Mártir S. Sebastião), em Ovar,
onde outrora existiu a fábrica "A Varina"
FOTO: Fernando Pinto

As instalações da empresa ao sul do Furadouro, entre as actuais Avenidas Tomás Ribeiro e Fernão de Magalhães, foram adquiridas, na mesma época, pelo Centro Vidreiro do Norte de Portugal, de Oliveira de Azeméis, de cuja sociedade fazia parte o Sr. Júlio Mateiro, que as utilizou para colónia balnear dos filhos dos trabalhadores daquela organização industrial [8].
De 1959 a 1968, as mesmas instalações serviam para a celebração da missa dominical até à inauguração da nova Igreja (1969), abriram-se ao serviço da “Sopa dos Pobres”, criada por um grupo de beneméritos ovarenses, e a um serviço de apoio social às crianças do Furadouro, por iniciativa do Pároco local, Padre Fernando Lopes Ferreira, e das Irmãs da Congregação Jesus Maria José, que viriam a contar com a colaboração de elementos do Rotary Club de Ovar, dando origem ao Centro Infantil do Furadouro (15/12/1969) e, posteriormente, ao Centro de Promoção Social do Furadouro, oficializado em 1972.
Albergaram ainda, durante períodos de férias de Verão, crianças do Centro Social de S. Martinho da Gândara e das Paróquias de Junqueira (Vale de Cambra) e de Macinhata da Seixa (Oliveira de Azeméis).

Fábrica de Conservas “A Varina”, no Furadouro

Aquela velha fábrica do Furadouro, já degradada, foi ainda recolhimento de alguns deslocados das antigas colónias. Demolida em 1972, deu lugar ao empreendimento habitacional Barramares.
Em Ovar, onde teve o seu início, tal como na praia do Furadouro, já nada resta que possa lembrar aos mais novos aquela fábrica de conservas. Em Matosinhos, onde a firma se instalou em 1914, ainda se podem observar, na Rua Serpa Pinto, as antigas instalações fabris, actualmente transformadas num supermercado, em cujas traseiras permanece, altiva, a chaminé, símbolo daquela prestigiosa empresa…

Notas:
[1] Já teve os topónimos de Largo da Estação, Largo Mártir S. Sebastião, Largo Alexandre Sá Pinto e, actualmente, Largo Almeida Garrett.
[2] O sócio Agostinho Fonseca Meneres era filho do grande industrial e comerciante do séc. XIX na cidade do Porto, Clemente Meneres, sobre quem já me referi no “João Semana” de 15 de Junho de 2005, num texto intitulado “Quem foi Clemente Meneres?”.
[3] Lamy, Alberto Sousa, “Monografia de Ovar”, 2000, Vol. II.
[4] Tato, Josué Gomes Fernando, “Memória da Indústria Conserveira”, ed. Câmara de Matosinhos.
[5] Lamy, A. Sousa, “Monografia de Ovar”.
[6] Tato, Josué Gomes Fernando, “Memória da Indústria Conserveira”, ed. Câmara de Matosinhos. [O texto Ainda a Fábrica de conservas “A Varina” emenda esta informação (ver nota 1 do referido artigo).
[7] Idem
[8] No “Notícias de Ovar” de 12 de Junho de 1951, num artigo sobre o Furadouro, podia ler-se: “O espírito dinâmico e o coração generoso de Júlio Mateiro – um verdadeiro amigo da nossa Praia – não cessam de espalhar o bem”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Janeiro de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/03/fabrica-de-conservas-varina.html

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Ainda a Fábrica de conservas “A Varina”

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2011)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Achegas ao texto publicado neste jornal em 1 de Janeiro de 2011

É gratificante sabermos que há leitores atentos aos nossos textos e interessados em acrescentar alguma informação de interesse ou em corrigir algum lapso cometido.
Um desses leitores é o Sr. Álvaro Malaquias que, gentilmente, chamou a nossa atenção para o facto de, no nosso trabalho publicado na edição de 1 de Janeiro, não ter sido mencionado o nome de dois importantes sócios de “A Varina”: os Srs. Sousa e Coimbra.
Quem escreve textos de teor histórico obriga-se a fazer investigação oral e bibliográfica de vária ordem, havendo, mesmo assim, a possibilidade de se omitirem certos pormenores desconhecidos, ou de se transmitir alguma informação errada. Nesse caso, mandam as boas regras que, detectada a falha, esta se corrija na primeira oportunidade. É o que vamos fazer, aproveitando as informações que nos enviou o bom amigo e leitor do “João Semana”.

Por escritura de 1 de Junho de 1908, “A Varina” passou para a Sociedade Ferreira Brandão & C.ª, composta por Lino Ferreira Brandão, Manuel Valente Coimbra e Carlos Augusto de Sousa, ex-funcionários da Real Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª, de Espinho [1].
Lino Brandão (pai), que visitou vários países, especialmente o Brasil, o grande mercado da firma na época, desempenhou, até ao seu falecimento, em 1950, em Matosinhos, a difícil função de resolver os principais problemas da empresa.
Manuel Valente Coimbra casou com Angelina Valente de Almeida, vindo a falecer em Matosinhos em 1963. As duas filhas deste casal, Maria Luísa Coimbra e Olímpia Valente Coimbra, casaram, respectivamente, com António da Silva Bonifácio (em 1932) e Bernardo Gomes da Silva Bonifácio (em 1929)[2].
Para o Sr. Álvaro Malaquias, o Sr. Coimbra devia ser o técnico da firma, dirigindo e fiscalizando toda a produção que, para além das conservas de sardinha, abrangia produtos de carne, caça, frutas, legumes, massa de tomate, etc., comercializando também azeite de baixa acidez, adquirido preferencialmente na Beira Baixa, na zona de Castelo Branco, o qual, acondicionado em latas de litro, com a marca “Lili”, tinha clientela privilegiada no Brasil.
Carlos Augusto de Sousa exercia o cargo de secretário da empresa, e casou com Generosa Augusta Cadaxo de Sousa, vindo a falecer em Ovar, no Largo 5 de Outubro, em 1932[3]. Era pai de Eduardo Augusto de Sousa (o conhecido Eduardo Sousa, do Café Paraíso, a quem nos referimos num trabalho na Revista “Reis 2004”[4], Ester Augusta de Sousa Nunes da Silva (esposa do médico Dr. João Baptista Nunes da Silva), Virgínia Augusta de Sousa e Zulmira Augusta de Sousa.
Segundo o Sr. Álvaro, as fotos inseridas no nosso texto com a legenda a indicar Lino Brandão – pai e filho – são ambas de Lino Brandão pai, em épocas diferentes. Esta informação do Sr. Malaquias, que conheceu muito bem as personagens, colide com a do historiador Josué Gomes Fernandes Tato, que no seu livro “Memória da Indústria Conserveira” identifica duas fotos como sendo de Lino Brandão pai e Lino Brandão filho.
Com estas correcções, que, por certo, serão tomadas em conta pelo referido historiador de Matosinhos, espero ter contribuído para que a história da Fábrica de Conservas “A Varina” fique registada com maior rigor e com novos elementos identificativos.




FOTOS DAQUI

Notas:
[1] A Real Fábrica de Conservas Brandão, Gomes & C.ª, sediada em Espinho, a sul da praia, na actual Av. João de Deus (onde hoje está implantado o Museu de Arte e Cultura), possuía filiais em Matosinhos e em S. Jacinto. O título honorífico de “Real” foi-lhe dado em 1895 pelo Rei D. Carlos, e tirado em 1910, quando da implantação da República. Foi desta fábrica que os três empregados citados no texto saíram para montar a “A Varina” de Ovar. Esta informação foi dada pelo Dr. Tiago Castro, do Museu de Arte e Cultura de Espinho.
[2] A. Sousa Lamy, “Dicionário da História de Ovar”, 2009.
[3] Id.
[4] Revista REIS 2004, “Recordando o Café Paraíso”.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Fevereiro de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/03/fabrica-de-conservas-varina.html

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