7.3.13

Algumas notas toponímicas ovarenses – Ovar

A. de Almeida Fernandes
FOTO: M. Pires Bastos
Jornal JOÃO SEMANA (01/09/1993)
TEXTO: A. de Almeida Fernandes

Atento o que deixei dito no caso anteriormente versado (o de Cáster) é tão natural como conveniente – pelas estreitas relações entre ambos – que eu aborde de seguida o do topónimo “Ovar”.
Claro está que não me ocupo de origens de povoações em casos toponímicos, se bem que, muitas vezes, essas origens nos são reveladas por eles.
A toponímia é uma valiosíssima ciência auxiliar da História; mas, como é filológica, por sua mesma essência, e os “historiadores” (as aspas são para os de hoje, impagáveis ao meterem-se em tal domínio) demoram afastadamente a leste da Filologia, resulta que anda, praticamente, desaproveitada como tal. Ora eu é que, na consciência disso, não posso afastar-me dela. A íntima relação explica – e exige, sempre que necessário (não nos compliquemos com desnecessidades) – a consideração de dados documentais como se estivéssemos a estabelecer uma tese ou teoria histórica. Não admirem, pois, os que seguem, antes de expor a minha ideia – que deles, obviamente, procederá.

Capela de S. João, Ovar, cujo título aparece num documento de 922

Trata-se, desde logo, de apresentar a documentação do topónimo Ovar a partir do seu documento mais remoto: o de 922 (que se encontra num documento de uns dois séculos depois, baseado noutros da época a que pretende referir-se, isto é, documento confeccionado, mas de dados autênticos, ou mesmo por documentos de que se serviu o confeccionador). Nele, achamos referido o “porto de Obal”para situar as igrejas de S. Donato e S. João – respectivamente nos actuais lugares de Sandonato e São João. Basta o significado de “porto” para nos provar que nada há aí que ver com a depois vila e hoje cidade de Ovar, propriamente dita: em suma, refere-se ao pequeno rio que, depois – e assim hoje –, se disse Cáster.
Além do “porto de Obal”, ou Oval, temos, de facto, várias vezes, o dito rio do mesmo nome: assim, em 1026 “riu Ovar”, para referir Cabanões e Muradões; ou em 1046 “rivulo Obar” (citadas vizinhas Avanca e Pereira, o que tira as dúvidas a tratar-se de Ovar do nosso caso). Até depois dos meados do século XII, documenta-se-nos esse nome no dito rio – ao longo de todo ele, bastando-nos, para prova, os seguintes casos:
- Milheirós e Campo, na actual cidade da Feira ou junto, em 1083, corrente o “rivulo Ovar”;
- Travanca (Travanquinha), em 1151, “discurrente (rivulo) Ovar”, pouco a jusante;
- Cabanões, em 1143, “discurrente rivulo Ovar”.
Como se vê e desde a nascente à foz, sempre “rio Ovar”, tal como, nos nossos tempos – e como vimos, rio Cáster (Castro). Chegou ele mesmo a designar o território ou terra de Santa Maria, dita “de Ovar” por o respectivo castelo (o da Feira) se situar sobre dito rio: 1117 “província de Santa Maria de Ovar”, ou 1119 “território de Sancta Maria de Ovar” respectivamente para os lugares de Belece (perto de Fermedo, no actual c. Arouca) e São João da Madeira, e somente por casualidade é que não temos outros exemplos. Pensar na actual cidade de Ovar é um equívoco sem remissão apesar de reflectido no velho brasão da cidade e de ninguém (que eu note) ter interpretado tal referência (acaso com o receio de lhe tocar, dado o perigo “terrível” – e eu que o diga – de bulir nos mitos locais).

Túmulo medieval do antigo cemitério de Ovar, hoje no adro da Capela de S. João
Portanto, aqui temos “Ovar” como nome originariamente e só do pequeno rio. De facto, apenas dele e de uma passagem, o “porto de Ovar”, na zona de Cabanões -São João, isto é, do “castro” que veio a substituir nele aquele nome, para este ficar ou lugar de origem da actual cidade: a “villa Ovar” ou "Obar" (Obal) que, pela primeira vez, se cita em 1046 – o que não quer dizer já não sensivelmente de antes. Devemos desde então considerar a tendência para o nome do rio passar deste para o lugar (núcleo da actual cidade), o que, como é óbvio, se não realizou intencionalmente, ou seja, de um momento para outro. O nome Ovar, de facto, não se perderia no rio pelo de Castro (Cáster) antes de um século pelo menos de concomitância do uso (isto é, dos meados do século XII).
Estamos, assim, em condições de enfrentar e etimologia ou origem do topónimo Ovar. As opiniões têm sido várias, quase todas – como eu lhes chamo – de olho-e-orelha, isto é, sugeridas pelo som e pela visão: a escrita e a pronúncia. Quem tem feito e continua (chegou a aparecer ultimamente mais uma opinião: a origem árabe, porque, algures, na Argélia – se a memória me não atraiçoa há um nome mais ou menos consoante) não faz talvez ideia de que esta ciência, visto que o é, se regula por leis próprias, as de cada idioma, independentemente da vontade do homem e tanto como as leis físicas e as leis químicas. De maneira que, ao assim proceder-se, não se produz mais que necessidades que nem sequer merecem referência.
Há apenas uma opinião perfeitamente conforme às referidas leis científicas: a origem antroponímica germânica, isto é, o genitivo «Oduarili» do nome pessoal «Oduarius». É a opinião de Leite de Vasconcelos, grande filólogo, e de outros, como J. Piel, etc. Nem eles poderiam admitir coisa diferente e de Oduari(i) para “Ovar” temos os fenómenos de latim laudare e audire, etc..., para “louvar” e “ouvir”, etc. Não vou alongar-me com coisa tão clara e indiscutível – nem eu aqui o faria.

À Ria de Aveiro (ou de Ovar) davam os antigos vareiros o nome de rio(Aguarela de António Joaquim, pintor de Travanca, cujos primeiros passos na Arte foram marcados pela sua vida de trabalho em Ovar)
Apesar da sua solidez científica (que me levou a seguir essa opinião até mais ou menos há dez anos), um senão ou distracção, que atira por terra explicação tal, em meu ver: é que o nome pessoal Oduário, que se entende ser origem de Ovar, tinha ainda aquela forma quando os documentos de “Ovar” (o rio, o “porto”, a “villa”) nos surgem: quer dizer, quando ainda o nome pessoal conserva o -d- (gótico, sujeito por isso à síncope) por largos e longos tempos – um som que o nome no rio nunca teve! Logo, a origem é outra – e não creio haja filólogo que possa alegar o contrário.
Tratei já deste étimo na revista “Caminiana”, e este jornal (“João Semana”) chegou mesmo a transcrever esse meu estudo: mas, em Ovar, ou não se reparou nele ou não foi compreendido – e daí não se não aceitou. Fica apenas a solução pré-romana latinizante: a raiz ov significativa de água (concorda tratar-se de rio) e o sufixo -ar (paralelo a -al, que também aqui temos). Podemos, pois, juntar “Ovar” ou "Oval" (com b variante de v) a casos com os de Ovetum (Oviedo), Ovínia, Ovola (Óvoa), etc. O que diz J. Pedro Machado é um acervo ecléctico de tolices.
Em suma, e guardando para este final as considerações cujos conhecimentos básicos ninguém é obrigado a ter, mas que são, absolutamente, necessários a quem se permitir uma opinião própria (a que tem inteiro direito – mas condicionado a esse dever, ou obrigação): o leitor, não interessado, pode, assim, deixar de ler o que segue.

Igreja Matriz de Ovar
De facto, quem primeiro emitiu a única opinião aceitável Oduarii – Ovar” fê-lo por mera distracção (desatento às circunstâncias que expus, em razão da perfeita conformidade fonológica), e o seu próprio prestígio impô-la. Mas, na verdade, o que temos é o seguinte:
a) Quando se verifica já “Ovar” (séc. IX-X, sem notícia mais antiga), deveria o nome pessoal ser “Oveiro”, ou pelo menos, O(u)eiro, em alternativa, porém demasiado condescendente. Ora, o que temos para o antropónimo é, sempre Oduario, latinismo da já existente forma “O(u)ario”. Tanto assim, que as suas formas posteriores são “Oeiro” e, em próclise, “Oer” tal como Sueiro com Suer (com formas em So).
b) Prova-se, assim que o sufixo alternativo -ar, al (nada tem com o gótico harjis e, menos ainda, wars), e explica-se aparecer-nos tanto Ovar como Oval (Obar e Obal). É uma perfeita confirmação (aliás desnecessária): tal como “lamar” e “lamal”, “fogal” e “fogar”, “casar” e “casal”, etc. (substantivos). Portanto, um indiscutível nome comum na origem: “oval” e “ovar” (origem pré-romana).
Creio não poder haver filólogo verdadeiro e honesto que me desminta isto – até porque a ciência não a arquitectei eu. O que fiz foi a sua aplicação atenta e coerente.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Setembro de 1993)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/03/algumas-notas-toponimicas-ovarenses-de.html

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