6.2.13

Cineasta Paulo Rocha (1935-2012)

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2013)
TEXTO: Fernando Manuel Oliveira Pinto

Paulo Rocha (1935-2012)
Desapareceu um dos Mestres
do Cinema português

O cineasta Paulo Rocha, autor de filmes como “Os Verdes Anos” (1963) e “Mudar de Vida” (1966), este último rodado no Furadouro, faleceu em 29 de dezembro último, no Porto, sua cidade natal. O realizador, nascido a 22 de dezembro de 1935, voltou a Ovar em 2009 para filmar “Olhos Vermelhos”, obra autobiográfica ainda sem data de estreia, e que, entretanto, se passou a chamar “Se Eu Fosse Ladrão Roubava”. Com uma carreira de 50 anos, Paulo Rocha era uma das grandes referências do nosso meio cultural e artístico. O nome de Ovar ficará para sempre ligado a uma das suas primeiras películas que, segundo o catálogo da Cinemateca Portuguesa, é “uma das obras mais complexas e extremas de todo o cinema português”.

O filme “Mudar de Vida”, de Paulo Rocha, com música do guitarrista Carlos Paredes, é, sem sombra de dúvida, uma das obras fulcrais da história do cinema por­tuguês, e um valioso documento histórico e etnográfico para Ovar e suas gentes. Por esse facto, o “João Semana” acompanhou o percurso deste cineasta portuense, com ra­ízes vareiras: era filho de Crispim José da Rocha e de Maria Cândida Soares da Rocha.
Num suplemento publica­do neste jornal em 15/04/1991, por altura das comemora­ções dos 25 anos de “Mudar de Vida”, o realizador revela que em miúdo costumava brincar, durante o verão, com os filhos dos pesca­dores: “Para mim, aquilo era um mundo maior que o mundo das ci­dades, com aqueles homens ruivos, roucos, gigantescos, que pegavam naqueles rolos de madeira e na­queles remos pesadíssimos como se nada fosse (...). Como as Com­panhas estavam a acabar, no início dos anos 60, eu sentia que era pre­ciso fazer qualquer coisa para as salvar, ou, pelo menos, erguer um monumento à sua glória. O meu tio Álvaro Malaquias era sócio de uma, perdia dinheiro, mas a minha mãe ralhava com ele, para conti­nuar…”
“Mudar de Vida”, estreado em 1967, participou no Festival de Ve­neza, e conta a história de Adelino (papel interpretado pelo ator brasi­leiro Geraldo del Rey) que, depois de combater na Guerra Colonial, em África, regressa à sua terra na­tal, à comunidade piscatória onde vive a sua família.
O filme tinha todos os ingre­dientes dramáticos para ser uma obra-prima: as fortes investidas do mar estavam a destruir os pa­lheiros; as “Artes Grandes” já não eram um negócio rentável, e a mi­séria parecia querer engolir os pes­cadores e as suas famílias, devido à falta de trabalho nas Companhas.
“Como eu era da terra, muita gente ajudou, e o filme pôde ser feito com muito pouco dinheiro. Os carros foram emprestados, a equipa ficou alojada numa velha casa de brasileiros (vivenda Pereira Dias), à saída do Furadouro”, lembra o realizador no referido suplemento, que pode ser lido em http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2010/02/paulo-rocha-filme-mudar-de-vida-1966.html. [CLIQUE NO LINK A AZUL]

Zéni e Edwiges em “Mudar de Vida”
O fadista Zéni d’Ovar (1930-2012) – nome artístico de José An­tónio Gomes Dias Simões, neto do poeta António Dias Simões – em entrevista concedida ao jornal “João Semana”, realizada em casa de sua prima Edwiges Helena Pacheco (1929-2012), revelou que, para além de ter sido decorador e responsável pelo guarda-roupa no filme “Mu­dar de Vida”, foi assistente geral de produção: “Nós filmámos nos locais verdadeiros. Não havia cenários. Puseram-me dois palheiros à dispo­sição. Mandei limpar tudo e, quan­do me preparava para fazer o meu trabalho de decorador, vieram-nos prevenir de madrugada que o mar tinha levado os palheiros em­bora. Aí é que se teve mesmo de criar décors falsos. Andei com homens a recolher o que o mar trouxe outra vez. (...) Tudo o que se vê de interiores de palheiros, nesse filme, foi feito por mim”.
Como curiosidade, refira­-se o facto de a saudosa D. Edwiges ter tido uma breve aparição no início do filme, numa cena em que está a pentear uma amiga, e de uma das atrizes ser Maria Barro­so, que viria a ser primeira-dama de Portugal, esposa do ex-presidente da República Mário Soares.


Paulo Rocha, conversando com o Diretor do “João Semana”, em 2009, 
no Furadouro, num dos intervalos da rodagem do filme “Olhos Vermelhos”
Furadouro, Ovar (2009) - Filmagens de “Olhos Vermelhos”
(Se eu fosse ladrão roubava), do cineasta Paulo Rocha

Em Entre-Águas
No dia 4 de janeiro de 2013, Paulo Rocha “regressou” a Ovar, à capela de N.ª Sr.ª de Entre-Águas, onde na década de 60 filmou a co­nhecida cena de “Mudar de Vida” em que uma mulher, vestida de ne­gro – papel interpretado pela atriz Isabel Ruth –, tenta roubar a caixa das esmolas, e é apanhada.
Uma das pessoas amigas que estiveram presentes nessa homena­gem póstuma a Paulo Rocha foi a escritora Regina Guimarães. Nessa tarde soalheira, tivemos oportu­nidade de falar com ela acerca de um texto que escreveu em janeiro de 2001 para o catálogo “Olhar de Ulisses – A Utopia do Real” (Porto Capital Europeia da Cul­tura), em que diz: “O autor gosta de se apresentar como homem de histórias – contador de episódios, fazedor de fábula, efabulador (...). Pese embora o agudíssimo sentido plástico da sua mise-en-scène (ter­mo que ele prefere a outros), uma vez no plateau, Paulo Rocha pare­ce radicar sempre o seu trabalho numa imagem, ou numa constela­ção de imagens, conservadas pela memória e conquanto ameaçadas de extinção”. No referido catálogo, Paulo Rocha, entrevistado por Pedro Costa, confessa: "Foi um dos filmes mais baratos de toda a história do Cinema Português. Comparado com Os Verdes Anos, que teria custado 750 contos, este custou talvez 600. A certa altura, a meio da rodagem, já não havia dinheiro, metade da equipa foi embora, mas como ficaram os melhores aquilo funcionou ainda melhor”. Rui Almeida, filho de Mário Al­meida (antigos proprietários do Es­túdio Almeida, em Ovar), foi o fo­tógrafo de cena de “Mudar de Vida. Joaquim Aurélio, irmão do ar­tista plástico Emerenciano, outro vareiro apaixonado pela arte foto­gráfica, teve também o privilégio de conviver com Paulo Rocha. Em 1982, estando o cineasta como adi­do cultural da Embaixada de Portu­gal em Tóquio, ao ter conhecimento de que este nosso conterrâneo se encontrava naquele país asiático para receber um dos prémios entre­gues pela “Fuji Japão”, foi ter com ele uma noite ao hotel onde estava hospedado, e durante a conversa que tiveram, Paulo Rocha aconselhou-o a fotografar as ruas, as paisagens e os monumentos vareiros, porque um dia esse património iria acabar por desaparecer. 
Este testemunho de Joaquim Aurélio, a quem agrade­cemos a fotografia das filmagens realizadas no exterior da Capela de N.ª Sr.ª de Entre-Águas, em que se vê o cineasta sentado a dirigir uma das cenas de “Olhos Vermelhos” –, vem corroborar a ideia de que Pau­lo Rocha levava, para onde quer que fosse, a sua Ovar aconchegada no coração.

Válega, Ovar -  Rodagem, em 2009, de “Olhos Vermelhos” (Se eu fosse ladrão roubava),
no exterior da capela de N.ª Sr.ª de Entre-Águas
Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de janeiro de 2013)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2013/02/cineasta-paulo-rocha-1935-2012.html

Adenda ------------------------------------------------

Paulo Rocha evocado na Capela de N.ª Sr.ª de Entre-Águas

Da provinciana São Vicente de Pereira, do concelho de Ovar, terra natal de seus pais, e da própria vila vareira, terra de seus tios, onde passava férias junto à costa marítima, recebeu Paulo Rocha marcas indeléveis que viriam a influenciar a sua sensibilidade artística e a criar essa obra-prima que é o filme "Mudar de Vida", um hino vibrante ao esforço sobre-humano dos antigos pescadores de Ovar, e uma obra emblemática que manterá viva, no Cinema, a memória da pesca secular do Furadouro. M. P. B.

Por iniciativa da família de Paulo Rocha, foi celebrada em 4 de janeiro último, na Capela de N.ª Sr.ª de Entre-Águas, uma Missa de sufrágio em memória de Paulo Rocha, em que tomaram parte diversos amigos do falecido cineasta. No final da Missa, e por sugestão do celebrante, Padre Bastos, Diretor do “João Semana”, que na homilia referira a vida artística do Paulo e o respeito que sempre manifestou pela fé que recebeu de seus pais, quiseram também intervir alguns dos participantes: Jorge Rocha, que agradeceu a prova de amizade dada pelos presentes ao seu irmão, cujas cinzas, guardadas num vaso, ali permaneceram durante a celebração; o jornalista Fernando Pinto, neto de um dos pescadores que entraram em “Mudar de Vida”, que lembrou quanto Ovar beneficiou com a realização desta e da última das suas obras (“Olhos Vermelhos”), ambas rodadas em Ovar, e Vítor Ferreira, Vereador da Cultura, que referiu o voto de pesar dado pela Câmara pelo falecimento desta figura cimeira do cinema português. (Notícia publicada na edição de 15/01/2013 do jornal ovarense "João Semana")


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1 comentário:

Maria disse...

Estive a rever o filme: Mudar de Vida, de Paulo Rocha. Mais uma vez me comovi, vendo a história daquela pobre gente, que tão bem conheci. Quando o filme foi feito, foi o último ano que passei férias no Carregal. A casa onde foram alojados os actores, foi a mesma, onde meus tios viveram, depois de saírem da Quinta. Lá faleceram todos, menos uma. A casa foi demolida há pouco tempo. Tive pena. Era uma bela casa.
Mais saudades a juntar às muitas que carrego.
Saudações para todos e os meus respeitos ao Senhor Padre Bastos.
Maria Águeda Costa.