30.12.12

Os cães do Colares Pinto

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2012)
TEXTO: José Lopes Rodrigues

A Quinta do Colares Pinto era um importante complexo industrial agropecuário especializado em derivados de leite, desde o queijo e a manteiga, de excelente qualidade e muito prestígio, até às calçadeiras, botões, pentes, travessas e ganchos para o cabelo, abre-cartas e outros objetos de baquelite.
No complexo pecuário havia galinhas, patos, faisões, pavões, galinhas-da-índia (passavam a vida a gritar “estou fraca, estou fraca”), e outras aves de capoeira, algum gado mé-mé e gado mu-mu.
Grande atração para os visitantes era um touro de cobrição que faz favor! Ele era grande, com tudo grande, e estava preso a um tron­co cravado no chão com uma corrente que tinha uma argola que lhe entrava por um buraco da focinheira e lhe saía pelo outro.

Quinta Colares Pinto, Ovar
(…) Além de toda aquela bicharada, também por lá andavam uns poucos (uma boa vintena) de cães pastor-alemão, que patrulhavam as instalações e montavam guarda, um por carregamento aos canados com o leite, e, quando ia embora, lá ficava um pastor-alemão junto dos canados a arreganhar os dentes a quem se aproximasse demais. No entanto, nunca vi ninguém dar ordens aos cães para tal, nem soube de quem tivesse sido mordido, mesmo inadvertidamente. A presença deles era mais do que suficiente.
Naquele dia, porém, fomos alvo de um comportamento assaz estranho por parte dos cães, todos belos exemplares nascidos e ensi­nados lá na quinta.
Quando tentávamos atirar-nos à água, punham-se à nossa frente e empurravam-nos para trás, até com alguma violência. Mas, como tínhamos grande confiança neles e julgávamos que tudo não passava de brincadeira, às vezes conseguíamos fintá-los.
Então, os cães, uma boa meia dúzia deles, atiravam-se também à água e, nadando a par connosco, agarravam-nos com os dentes pelas alças do fato de banho e arrastavam-nos, soltando-nos somente quando estávamos totalmente em terra. Não rosnavam, nem nada, mas tão determinados estavam em tirar-nos da água que chegaram a ferir-nos nos ombros.
A dada altura, começámos a desconfiar que toda aquela obstinação não podia ser só brincadeira. Por isso, ao regressar a casa, resolvemos passar pelo complexo a indagar sobre o seu estranho comportamento.

Quinta Colares Pinto (1940). Apanhadores de moliço
Ficámos, então, a saber que em certos sítios, como era aquele onde tínhamos estado, o fundo da Ria era (e acho que ainda é) constituído por uma grande espessura de lodo preto e visguento, muito escorre­gadio, grande riqueza para os agricultores das terras ribeirinhas (e não só), mas letal para quem lá enfia os pés. Quanto mais lutamos para nos libertar, mais nos afundamos (e são inúmeros os casos dos que lá têm ficado).
Por ignorância e atrevimento próprios da idade, tínhamos corrido o risco de ser vítimas de uma tragédia (…).”

José Lopes Rodrigues (em “Meu Jardim, Meu Rio”, 2006 (capítulo “As Sandes da Glória e os Cães do Colares Pinto””, págs. 175-177)

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 de outubro de 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/12/os-caes-do-colares-pinto.html

LEIA TAMBÉM O ARTIGO "Família Colares Pinto – para a memória de Ovar", publicado no n.º 13 da Revista REIS/1979)

ADENDA -----------------------------------------

Comentário:

Cada vez gosto mais do Jornal.
Possuo a foto de baixo, mas a de cima, não. Podem calcular a emoção que senti, ao ver as traseiras da minha velha e querida casa, já desaparecida! Foi um belo presente de Ano Novo. Vou tentar, com uma lupa forte, identificar alguns dos personagens. Vai ser difícil,pois os olhos já não ajudam. Vou dar volta às fotos que tenho e enviar-vos as que tiverem interesse. Do touro, o Debuxo, creio ter uma. Para mim, tudo o que diga respeito aquela Quinta, é uma relíquia. Passei grande parte da minha infância por ali. Gente boa e minha amiga, a minha adorada Ria e, mais que tudo, uma família que amei e de que poucos restamos. Vivo em Lisboa, nasci em Tomar, mas há um cantinho do meu coração, que continua a pertencer ao Carregal.
Desculpem este comentário tão longo, mas a idade e a vida, tornam-nos sensíveis às recordações.
Mais uma vez, obrigada e Bom Ano.
Maria Águeda (01/01/2013)

2 comentários:

Maria disse...

Cada vez gosto mais do Jornal.
Possuo a foto de baixo, mas a de cima, não. Podem calcular a emoção que senti, ao ver as traseiras da minha velha e querida casa, já desaparecida! Foi um belo presente de Ano Novo. Vou tentar, com uma lupa forte, identificar alguns dos personagens. Vai ser difícil,pois os olhos já não ajudam. Vou dar volta às fotos que tenho e enviar-vos as que tiverem interesse. Do touro, o Debuxo, creio ter uma. Para mim, tudo o que diga respeito aquela Quinta, é uma relíquia. Passei grande parte da minha infância por ali. Gente boa e minha amiga, a minha adorada Ria e, mais que tudo, uma família que amei e de que poucos restamos. Vivo em Lisboa, nasci em Tomar, mas há um cantinho do meu coração, que continua a pertencer ao Carregal.
Desculpem este comentário tão longo, mas a idade e a vida, tornam-nos sensíveis às recordações.
Mais uma vez, obrigada e Bom Ano.
Maria Águeda

Fernando Pinto disse...

Obrigado pelas suas palavras, Maria Águeda. Cumprimentos de Ovar, do jornalista Fernando Pinto e do Sr. Abade.