5.12.12

Os barracões-hangar do Carregal

Jornal JOÃO SEMANA (15/05/2011)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Não vou aqui fazer a narração do Carregal no início do séc. XX, uma vez que já me referi a esta zona vareira no “João Semana” de 1 de Janeiro de 2005.
Este novo trabalho tem como objectivo recordar aos nossos conterrâneos que visitam aquele local, especialmente os mais jovens, a história dos dois barracões erguidos, há mais de 70 anos, junto de uma enseada existente no começo do cais, a sul daquele lugar. (Na minha juventude, na década de 40, já se encontravam instalados naquele sítio).
Barracões-hangar do Carregal
Com traseiras construídas em terra firme e as frentes voltadas para a Ria, assentes em estacas sobre as águas, como palafitas, os barracões-hangar do Carregal são autênticas garagens lacustres para recolha de barcos, que permanecem dentro delas, na água, aptos para navegar.
Antes da inauguração da estrada marginal Ovar – S. Jacinto, nos anos 50, aqueles barracões surgiam-nos como duas sentinelas num sítio ermo, onde apenas se ouvia o sussurrar das águas e o coaxar das rãs, que saltitavam para os ribeiros vindos do Tremedal, no Carregal do Norte, e a sua história está intimamente ligada à dos pioneiros da Ria de Ovar, daqueles que tinham os seus barcos de recreio movidos com motor ou vela – prevalecendo, nestes últimos, a classe “Andorinha” –, construídos alguns deles pelos próprios donos, para se deleitarem a navegar nos fins-de-semana com as famílias ou amigos, como acontecia com o Zé Gorinha, que fabricou o seu barco “Rosita”.
Pormenor da entrada dos barracões-hangar do Carregal
Os terrenos onde estes barracões se encontram erguidos pertenciam à Capitania do Porto de Aveiro, a quem os seus utilizadores pagavam uma taxa de ocupação; mas as casas-hangar eram propriedade dos ocupantes que as construíram. (Ainda hoje, o Ministério do Ambiente e Ordenamento do Território e a Administração da Região Hidrográfica do Centro continuam a receber uma taxa pela sua utilização.)
Nas décadas de 40, 50 e 60 do séc. XX, o barracão do lado nascente era ocupado pelo Camossa, com o “Eugénia”, uma lancha a motor, e por Alfredo Alves (Arroz), com o barco “Estrela” (que acabou destruído por um incêndio), e, posteriormente, com o “Vouga”. Depois de passar por obras de ampliação, começou a receber mais duas embarca-ções: uma de Adolf Beck, primeiro administrador da Nestlé em Avanca, e residente em Ovar, e outra do Meireles (?) – mais tarde do Neca Valente –, ficando ainda espaço para outras serventias.
No barracão a poente abrigavam os seus barcos, naquela época, Lino Brandão – dono das instalações e sócio da Fábrica de Conservas “A Varina”, em Matosinhos e Ovar – e o alfaiate Manuel Paulino.

Em 1951, junto à lancha do Camossa (?) e do seu barracão-hangar,
vê-se, à direita, Manuel Paulino, e, à esquerda, de pé, um seu amigo 
do Brasil. Ao fundo, o denso pinheiral existente nessa época
A lancha do Lino, construída em madeira de teca, com a configuração de uma tainha, por vontade expressa ao construtor, Manuel Bastos, de Pardilhó, e com a denominação de “A Varina” – igual à da empresa –, possuía um motor ao meio, que funcionava a gasolina ou petróleo.
Embora vivesse em Matosinhos, Lino Brandão nunca esqueceu Ovar, onde tinha muitos amigos. Enamorado pela Ria, de tal maneira se apaixonou por ela que para ali se deslocava quase todas as sextas-feiras, dormindo no barracão até que o sol despontasse no Sábado, para seguir viagem até S. Jacinto…
A embarcação de Manuel Paulino – de nome “Isilda”, em homenagem a sua irmã – era igualmente uma lancha com motor (marca “Penta”), accionado com gasolina ou petróleo.

Anos 50. Passeio na ria das empregadas da alfaiataria e familiares de Manuel Paulino,
 na sua lancha “Isilda”
. Da esquerda para a direita: Eduarda, Lurdes, Maria do Carmo, Domingos Paulino, Manuel Paulino, Regina Formigal, Ester e Berta

Os barracões-hangar do Carregal são construções muito típicas e que, segundo alguns frequentadores da Ria com quem falei, eram únicos nas margens da Ria até metade do séc. XX, só mais tarde começando a surgir outros do mesmo género. O do Lino Brandão, onde entrei várias vezes no início dos anos 60, tinha no seu interior, lateralmente, dois passadiços que, através de uma escada, davam acesso a um aposento tipo águas-furtadas, que servia para pernoitar. A sua iluminação era feita por intermédio de uma hélice de avião comprada num sucateiro de S. Jacinto, accionada por um dínamo e acondicionada sobre o telhado, fixa numa estrutura em ferro que ainda hoje se pode observar, embora muito deteriorada pelo decorrer dos anos.
No interior, havia uma bica por onde saía água muito boa e fresca, extraída de um furo artesiano mandado abrir pelo proprietário, com a qual os visitantes se deliciavam, bebendo-a por uma caneca especial que o Sr. Lino guardava, com muita estimação, num velho baú, com outras do mesmo conjunto.
Nos barracões-hangar do Carregal preparavam-se boas caldeiradas de peixe e outras iguarias, para além daquelas que eram cozinhadas dentro do barco, muitas vezes em andamento.
Alguns dos barcos eram recolhidos na enseada junto dos barracões, e a outros ancoravam-nos na Cirbela da Azurreira. Só mais tarde, depois da construção do porto de recreio do Carregal, inaugurado em 31 de Dezembro de 1974, começaram a ser recolhidos aqui.
Muitos dos pioneiros da Ria eram companheiros de viagem diária para a cidade do Porto, onde tinham os seus empregos. Formavam um grupo unido, a que chamavam de “ida e volta”.

Anos 50. O grupo de “ida e volta” perto dos barracões, no Carregal,
antes de partirem para um passeio na Ria
A grande festa destes amigos da Ria era a viagem para Águeda, geralmente feita de forma colectiva, com regresso, quase sempre, de 1 a 3 de Maio, datas preferidas quando coincidiam com fins-de-semana ou feriados.
No primeiro dia, tomando a direcção do Bico do Muranzel, entravam no rio Vouga e seguiam pelo Rio do Príncipe, navegando até à Ponte de Cacia, junto da qual atracavam os barcos para neles pernoitarem.
No segundo, abalavam para São João de Loure através do rio Águeda, prosseguiam até à Ponte da Rata, onde preparavam o almoço, continuando a viagem até Águeda, onde pernoitavam nas suas embarcações, regressando a Ovar no dia seguinte, seguindo o itinerário inverso. (Havia aficionados que prolongavam a estadia, e outros que faziam o mesmo percurso demorando mais tempo.)
Hoje, a Ria continua a ser um atractivo para muita gente da nossa terra, especialmente para a mais jovem, mas não tem o encanto que exibia nas primeiras décadas do século passado. Faltam os barcos moliceiros, e até o calado e a limpidez das suas águas. E que saudade do odor fresco do moliço e dos terrenos cultivados ao longo das margens, que nos ofereciam uma paisagem bucólica e de ar sadio!…

Barracões-hangar do Carregal
[FOTO: jornalista Fernando Pinto

Há muito que não visitava aqueles sítios. E foi com enorme nostalgia que fotografei os velhos barracões do Carregal, agora degradados, principalmente o do lado poente, que pertenceu a Lino Brandão. (O de Nascente, outrora também do Camossa, porque tem passado por algumas reparações, continua a ser utilizado para recolha de barcos…)
As águas da Ria, escuras, cor de azeite, e o matagal envolvente, onde abundam atoleiros resultantes de pequenos riachos que alimentam aquela mal amada toalha líquida, dão ao local uma paisagem triste, diferente daquela que conheci nos anos 40/50 do séc. XX. O tempo tudo destrói. Só não destrói a saudade.

P.S. Agradeço a José Pinto, José Eduardo, João Nunes Branco e Álvaro Malaquias a cedência de fotos e informações úteis para a realização deste trabalho.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE MAIO DE 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/12/os-barracoes-hangar-do-carregal.html

2 comentários:

Miguel Pinto disse...

Viva , Quando volta de novo este tempo !!! Era o máximo do melhor.

Fernando Pinto disse...

É verdade! Vamos cuidar da nossa Ria. Ela merece!