18.12.12

Na rota do pescador de Ovar

Raízes vareiras de Espinho e de Matosinhos

Texto de introdução: Manuel Pires Bastos ("J. S.", 01/02/2004)
(Ver artigo "Na rota do pescador de Ovar", de Fernanda Miguel, em baixo)

Pessoas de Matosinhos, Espinho e Ovar descobriram e refizeram laços familiares quase perdidos, confraternizando e programando actividades futuras que façam luz sobre a notável influência dos pescadores de Ovar na génese e no desenvolvimento de Espinho e no progresso das artes da pesca em Matosinhos.

Com base no facto histórico de um grande número de famílias dos pescadores de Matosinhos serem descendentes de famílias naturais ou oriundas de Espinho e de Ovar, o Núcleo de Amigos dos Pescadores de Matosinhos – NAPESMAT – decidiu promover, como sua primeira iniciativa, uma visita simbólica à cidade de Espinho e um encontro informal entre representantes das embaixadas piscatórias de ambas as cidades, a que se juntou uma pequena delegação da cidade de Ovar.
Fazer o estudo e o levantamento de semelhanças e características comuns entre as três cidades, assim como promover o relacionamento cultural das respectivas comunidades piscatórias, constituem os objectivos do NAPESMAT, sendo esta visita o primeiro passo nesse sentido.
António de Pinho Branco Miguel Júnior
(Bisavô de Fernanda Miguel)
(Nasceu a 09/01/1855, no lugar de Espinho,
 freg. de Anta, de origem vareira)
1.º Juiz da Irmandade de N.ª Sr.ª da Ajuda.
1.º Presidente da Junta de Freguesia de Espinho
 (09/1/1891) - Arquivo: M. Pires Bastos
A escritora e historiadora espinhense Fernanda Miguel, que vive a 100% a mística vareira, foi a abelha-mestra que congregou toda uma imensa colmeia de gente dispersa que esperava ouvir uma voz de alerta e de comando que lhe falasse das suas linhagens, cujas raízes comuns assentam, nos sécs. XVIII e XIX, na classe piscatória ovarense, donde se transportaram, a partir daí, para todo o litoral português, nomeadamente para Espinho, praia que ajudaram a criar, e, consequentemente, para Matosinhos, cuja história trágico-marítima regista muitas vítimas com apelidos ainda em uso em Ovar.
Foi um encontro ternurento, tocado pelo maravilhoso: pessoas que nunca se haviam encontrado, mas que, inesperadamente, ali se reconheceram como parentes de longa data, ouvindo e contando histórias de avós e tios comuns.
– “Só por isto valeu a pena vir” – ouvíamos dizer a cada passo.
Mas muito mais coisas valeram a pena. A maior de todas, a exaltação a Ovar e a afirmação incontestada de que aos ovarinos deve Espinho a sua origem.
E também a constatação que as entidades autárquicas não têm dado a devida atenção a este facto, a ponto de em 1999, nas comemorações do 1º centenário da elevação de Espinho a concelho, ter sido praticamente ignorada.
E também a constatação de que as entidades autárquicas não têm dado a devida atenção a este facto, a ponto de em 1999, nas comemorações do 1º centenário da elevação de Espinho a concelho, ter sido praticamente ignorada a ligação histórica entre as duas cidades.
O vareiro não era, propriamente, um pé descalço. Muitos dos ovarinos arribados a Espinho eram também comerciantes em vários ramos de negócio, para além do peixe, e tanto marearam vida, como estiveram na primeira linha dos lutadores pela criação primeiro da freguesia de Espinho (1891) e, posteriormente, do próprio concelho.
Por que motivo perdura, então, na mente de alguns elitistas, uma certa animosidade atávica em relação à “alma vareira”, que foi a força motriz que fez rolar a máquina do progresso Espinhense?
Coisas para reflectir… (Texto de Manuel Pires Bastos, jornal "João Semana", 1 de Fevereiro de 2004)

– “Em 1779 foram aforados na costa de Espinho terrenos para construção de vinte e nove pescadores de Ovar” (Padre Aires de Amorim, “Da Arte da Xávega de Espinho a Ovar”, pág. 139.)
– Segundo o Padre André de Lima, teria sido a companha do “Ala” a primeira a arribar a Espinho, vinda do Furadouro.
– “A minha bisavó, Rosa Dias Serrano, (…) que veio de Ovar para Espinho montar negócio, já sabia ler muito bem. Oh! Se sabia! E o meu bisavô também sabia ler. E trouxe consigo um criado e duas criadas internas que também sabiam ler” (Fernanda Miguel, “Minha Terra e Terra dos Meus Avós”, pág. 58)

Desenho s/papel, da artista ovarense
Lúcia Maia - NATAL 2003
Verum genus

Contavam os antigos pescadores
que um  dia, não sei bem, há muito tempo,
por águas “luzas”(1), o rosto ao vento,
aqui chegaram fortes remadores.

Vencendo o fogo, temporais, areia…
na mente o sonho e determinação,
de filhos à ilharga ou pela mão,
quais Déboras da antiga Galileia,

Vieram as mulheres, para gerar
história linda a página inteira.
No chão montaram cama para amar.

Nessa noite e na duna mais fagueira
veio ao mundo Espinho e viu o mar,
parido na praia por mãe vareira.

Fernanda Miguel
Fevereiro/2000

(1) Luzas – termo vareiro que significa límpidas, sem plâncton, quando associado à palavra águas.

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NA ROTA DO PESCADOR DE OVAR

Jornal JOÃO SEMANA (01/02/2004)
TEXTO: Fernanda Miguel

(Palestra proferida no encontro de Espinho, em 22 de Janeiro de 2004)

I – Os primórdios

A arte de pescar e o peixe na nossa alimentação remontam ao aparecimento da espécie humana sobre a Terra. O homem começa por pescar à mão, aprisionando entre pedras e armadilhas os peixes que livremente nadam nas superfícies líquidas formadas por águas que escorrem das montanhas, ainda antes da descoberta do fogo. O salmão aparece ao lado do veado na arte rupestre do paleolítico. A pesca artesanal surge na Pré-História com o recuo dos glaciares a norte da Europa quando o homem sai das cavernas e começa a construir nas margens de lagos e rios aldeias lacustres sobre palafitas ou estacas para se defender das feras. É a profundidade do lago ou rio que leva o pescador a pôr de lado a pesca à mão e a começar a fisgar o peixe da própria casa que habita.
Os movimentos geológicos operados no Globo recortam os continentes, fazendo parar as águas onde eles começam. A evolução climatérica altera-lhes a fisionomia e a cor. Cada animal do planeta procura habitat próprio para viver e procriar, dando origem a migrações. O homem abandona a húmida e insalubre casa lacustre e inicia, em terra, a construção de cabana com ramos, lianas e folhas. Mas a sua condição de omnívoro impede que da roda dos seus alimentos exclua o peixe.
No período da pedra lascada o homem caça e pesca com arpão de pedra talhado em bico. Escava o tronco da árvore e constrói a piroga, a sua primeira embarcação.

Os Iberos
A Europa, a quem os gregos chamaram «cara de anjo», acaba por se recortar definitivamente entre o Oceano Glacial Árctico, a norte, o Oceano Atlântico, a ocidente, o Mediterrâneo, mares anexos e Cáucaso a sul, e Mar Cáspio, Montes Urais e Rio Ural, a oriente.
A Leste da Europa florescem as mais avançadas civilizações da Antiguidade. Enquanto no Norte os povos continuam num estado selvagem, quase primitivo, no sul e no centro da Europa os povos organizam-se, rumo à civilização, beneficiados por clima propício e riqueza de solo e subsolo. Povos asiáticos, mediterrânicos, afro-asiáticos e nórdicos olham os europeus do centro e do ocidente com olhos de cobiça. O continente europeu é invadido por povos dos mais variados tipos étnicos e somáticos, dos mais diferentes cultos e credos religiosos e das civilizações mais díspares que, mercadejando ou a ferro e fogo nele se instalam.
Até tese em contrário, o mais antigo povo que habitou a Hispânia ou Península Ibérica, de que hoje fazem parte Portugal e Espanha, veio de uma região de nome Ibéria, situada a sul da cordilheira do Cáucaso e entre o Mar Negro e o Mar Cáspio – os Iberos.
Um povo aguerrido e feroz, de origem indo-germânica penetra na Europa logo a seguir aos Iberos. Rechaçado em duros combates pelos europeus invadidos, acaba por dominar os Iberos e com eles se fundir, dando origem aos Celtiberos.
               
Fenícios e outros invasores
Dominavam na Península Ibérica os Celtiberos quando um povo de comerciantes e de navegadores, de civilização avançada, oriundo da Fenícia, região da Ásia Menor ou Anatólia, na costa ocidental da Síria e entre o Líbano e o Mar, sulca o Mediterrâneo com a sua frota para na Assíria e no Egipto colocar trigo e azeite que exporta. Senhor de ricas florestas donde extrai madeira para fabrico de móveis e barcos, e já experiente na arte de navegar ao largo, faz-se ao mar até ao Atlântico.

Barcos fenícios
Fundando feitorias e colónias no sul da península onde hoje é a Espanha, atinge o litoral que viria a ser a costa de Portugal, comerciando com os nativos móveis, objectos de vidro, jóias e tecidos de púrpura, que tinge com tinta extraída de um molusco chamado murex, ou trocando os seus produtos por metais peninsulares.
A permanência prolongada em feitorias e colónias por si fundadas permite-lhe contacto com os autóctones e incursões terra adentro que propiciam às mães locais o nascimento de filhos com traços somáticos e caracteres fenícios ao mesmo tempo que os lavradores-pescadores deles aprendem como construir barco com proa para cortar as ondas da arrebentação.
O esplendor fenício é eclipsado pela colónia de Cartago, no norte de África, cujas expedições em demanda do estanho chegam até à Cornualha, condado de Cornwall, na Inglaterra, a maior das antigas ilhas Solincas. A civilização fenícia é momentaneamente apagada pela luz da nova Cartago, mas os traços físicos dos marinheiros fenícios, o seu espírito de aventura, de comerciantes e de colonizadores ainda persistem no pescador do litoral português por onde aproaram.
Os pescadores, varinas e peixeiras de pele sardenta, de olhos azuis e de cabelo louro ou da cor do fogo herdaram essas características e a estatura alta dos terríveis e sanguinários piratas ou ladrões do mar que vieram dos fiordes da Noruega, na Escandinávia, pilhando e escravizando homens e mulheres de toda a costa portuguesa até ao promontório de Sagres, cujas falésias envolventes escalaram para assaltar e incendiar as povoações, mais tarde desses desmandos protegidas pelo forte de Sagres.
Em Ovar existiu atalaia ou torre fortificada que prevenia as populações costeiras da presença de piratas argelinos no mar.
Os corsários ingleses atacaram as embarcações portuguesas de rota costeira entre Lisboa e Porto e as embarcações de rota inter-continental que cruzavam o Atlântico.
(Continua na edição de 15/02/2004)


Jornal JOÃO SEMANA (15/02/2004)
TEXTO: Fernanda Miguel

II – Ovar, terra abençoada

Desvendar quem primeiro pescou em Ovar é um longo e estreito caminho perdido na negrura de milhares de anos, quando muito ao alcance da Geofísica e da Geistória da costa entre Espinho e Aveiro e da história da formação lagunar da Ria.
Raul Brandão diz-nos que a pesca na costa de Mira começou quando o lavrador se lembrou de ir à sardinha no mar.
O Padre Lima e a tradição oral de Espinho dizem-nos que a pesca caseira da nossa costa se fazia apenas quando os lavradores não tinham trabalho no campo.
Ovar é uma Terra abençoada por Deus. Ao concebê-la com rios e Ria, deu-lhe a natureza a várzea e o lameiro, o moliço e o sal, a escorregadia enguia do lodo e toda a variedade de peixes que entre seixos do leito se vêem à transparência das águas quando a luz e o calor do Sol as atravessam.
É natural supor que a exploração de cada uma destas dádivas tenham coexistido em dada era da vida de Ovar e do Globo. O denso pinheiral, onde o sépia da flor do pinheiro e o amarelo-ouro da mimosa da acácia se misturam no início da Primavera, é obra da mão do homem, que o semeou ao longo dos anos para defender os seus campos das areias da praia arrastadas pelos ventos.

Pescadores de Ovar no século XIII
O foral de Ovar data do ano de 1514, no reinado de D. Manuel I. Mas já «nas inquirições de 1251 se encontra uma contribuição sobre os moradores de Cabanões no dia em que o rei estiver na Feira, se for dia de pesca»
Os entendidos nestas andanças dos pescadores e da pesca atribuem a Ovar a fundação do Furadouro que, por volta do século XVI, teria sido a sua primeira «colónia». A glória deste feito cabe aos pescadores da Ria, sobretudo aos de Arruela, que na árida, fria e desabrigada Gelfa ou língua de areia entre o mar e a Ria, estacaram os primeiros palheiros de tabuado, quando já cansados de palmilharem diariamente a légua e meia que do mar à vila os separava da família e do lar.
Geralmente, o pescador corria diariamente toda a costa próxima, a sul e a norte de Ovar, só regressando a casa à noite. Quando passou a estanciar noutras praias, vinha a Ovar e a casa ao Domingo, para se retemperar de forças, conviver com a família e os amigos e ir à Missa na sua Terra.
Com o andar do tempo passou a vir à Terra só no fim da safra. O falecimento dos ascendentes e parentes próximos e o nascimento de filhos nas terras por ele colonizadas acabaram por fixá-lo à nova Terra sem, contudo, esquecer os amigos de infância, os lugares onde brincou em criança e a casa onde veio à luz do dia e onde viu nascer os irmãos e morrer os avós.
Os pescadores do Furadouro correram quase toda a costa ocidental e meridional de Portugal, na procura de tiradouros para lançar as redes.


Pescadores de Ovar

Durante o século XVI visitam a Torreira e S. Jacinto, na praia das Areias e Costa Nova.
Caminhando para o Sul, chegam aos areais da Costa da Caparica e de Santo André, e vão até Olhão, no Algarve.
Quando se voltam para o Norte, fundam centros piscatórios em Cortegaça, Esmoriz e Paramos.
Espinho é visitado pelos pescadores do Furadouro, da freguesia de S. Cristóvão, durante o século XVIII. Nos primeiros tempos, os pescadores de Ovar que trabalham na costa de Espinho regressam à sua terra de origem todos os anos, no fim da safra.

Redeiro de Ovar
Famílias vareiras em Espinho e Matosinhos
Em 1777 Espinho tinha 48 palheiros, pertencentes a 46 famílias, sendo 34 de Ovar.
Em 1778 e 79 foram aforados terrenos a 29 pescadores de Ovar.
Em 1811 é lavrada em Espinho escritura de formação de companha com 102 pescadores «assistentes em Ovar».
Com a fixação definitiva dos povoadores, iniciam-se correntes migratórias paralelas, de Ovar e de Espinho, para o Norte e Ribatejo.
No século XIX, pescadores de Espinho têm casa em Vila Franca de Xira e noutras regiões do Ribatejo só para a pesca do sável. Depois, passam a pescar no Douro, nos lugares de Sobreiras, Cabedelo, Insa, Rio de Baixo e Fonte do Preto, pelo processo de arrasto, como a pesca da sardinha em Espinho. Os «marmoteiros», como lhes chamavam, pescam a par de mulheres-pescadoras de Valbom, as valboeiras.
Uma das primeiras famílias a povoar S. Pedro de Afurada foi a família de José Ferreira Neto, o ti Zé Sabeler, que para lá se mudou quando o mar lhe levou as casas e a arte de xávega entrou em decadência devido à pesca indiscriminada de traineiras de Matosinhos.
Há referências de população piscatória em Matosinhos com antroponímia vareira desde 1680. Os vareiros teriam aparecido em Vila do Conde no século XVII e na Póvoa do Varzim no século XVIII. É de notar, porém, que a antroponímia vareira é comum a Ovar e a Espinho. Pescadores de Espinho residem já em Matosinhos antes do começo das invasões do mar à nossa praia, nos meados do século XIX.
Em 1928, Santos Lessa encontra na praia de Matosinhos, entre outros pescadores de Espinho, o velho António Martins Jacob, conhecido pelo «Ti Morto» que lhe diz já pescar naquela praia «ainda de fralda». Ao perguntar-lhe quantos anos tem, ele responde prontamente: «Um cento» para logo lhe explicar que nascera em Espinho, onde morava com sua família e onde seu bisavô ganhara a alcunha de «Morto» que dele herdou.
Mas as migrações de pescadores para Matosinhos, propriamente ditas, só teriam começado depois das invasões do mar e da queda da arte de xávega em Espinho.
É o filho mais velho do ti Zé Sabeler, José Ferreira Neto, que, dando o salto de Afurada para Matosinhos, revoluciona a arte de pesca das traineiras com a introdução do cerco americano.

Peixeiras e Mercantéis
Nos séculos XVIII e XIX, peixeiras e mercantéis colocam o peixe de Ovar, Espinho e praias intermédias no interior rural e cidades próximas. Mercantéis a maior escala levam a sardinha de Espinho e de Ovar até Albergaria-a-Velha, Beiras, Douro e Trás-os-Montes e Alto Douro. Fundam, na Régua, interposto de distribuição que leva a sardinha vareira a outras localidades, designadamente Lamego. Ainda hoje se diz na Régua que a grande vinhateira Dona Antónia Ferreira, a Ferreirinha, era filha de uma peixeira ovarina.
Com a partida dos pescadores de Espinho para Matosinhos, uma relação de avô, pai e filho, firmada no sangue, na religião e na costumeira, se estabelece entre Ovar, Espinho e Matosinhos.
Os pescadores de Espinho – como já fizeram os de Ovar quando povoaram o Furadouro – começam por ir para Matosinhos à segunda-feira, e por regressar, de baú na mão, em cada fim-de-semana. Quando passam a levar consigo a família, fazem em Matosinhos a safra, mas regressam sempre a Espinho, onde têm casa, no princípio do defeso, para fazerem a pesca das «manjoeiras».
Pescadores de Espinho e Ovar pescam em Vila do Conde e Póvoa do Varzim no século XIX.
(Continua na edição de 01/03/2004)


Jornal JOÃO SEMANA (01/03/2004)
TEXTO: Fernanda Miguel

III – Laços entre Espinho e Matosinhos

Pescadores de Espinho e Ovar pescam em Vila do Conde e Póvoa do Varzim no século XIX.
A lei implacável do tempo e do ciclo da vida acabam por enfraquecer algumas das relações entre Espinho e Ovar, mas não os laços afectivos e a memória. Se conheço a procissão dos Passos em Ovar foi porque minha avó me levou a vê-la quando era criança. Ao Carnaval de Ovar fui, na juventude, com meu tio Manuel, que tinha estado no Congo Belga.
A primeira pessoa sepultada no novo cemitério de Matosinhos foi uma Senhora natural de Espinho, de nome Maria Rosa Crista (um apelido de Ovar).  
  
Das conservas generalizadas de Ovar (carne,
peixe, fruta, azeitonas, etc.), a firma Brandão
passou às conservas de peixe em Matosinhos 
Em muitos outros factos da história de Matosinhos marcam, presença em primeiro lugar, os naturais de Espinho, a ensinar o caminho aos filhos da localidade. Assim, a mais antiga parteira da classe piscatória desta terra – a tia Mariana Vareira – e sua irmã, a Zefa Menineira, duas bondosas mulheres que encaminharam para a luz numerosos filhos de Matosinhos e por quem as parturientes tinham grande estima e absoluta fé, eram também espinhenses de nascimento.
Os espinhenses que emigraram para Matosinhos e os seus naturais que deles descenderam marcaram presença em Espinho, uns e outros em alguns dos seus factos históricos e religiosos, nas relações comerciais, na alegria e no luto, nos serviços da administração pública, no equipamento habitacional e na oferta de cómodos e casas a banhistas. Os mais novos responderam à chamada militar em Espinho, onde foram recenseados.
Até aos anos 40, todas as traineiras de Matosinhos com pescadores de Espinho se engalanavam no dia de Nossa Senhora da Ajuda, para estarem presentes na altura da bênção do mar, em espectáculo comovente, de pescadores a acenar à Virgem com a boina e com as sirenes a apitar.
Em 1941 formaram-se duas comissões – uma de Espinho e outra de Matosinhos – com o fim da angariação de fundos para a construção da capela de S. Pedro.
Da comissão de Matosinhos faziam parte Domingos da Mateira, Luciano Sabeler e Octávio Pinhal, todos de Espinho e residentes em Matosinhos (mas com origens em Ovar).
A imagem de S. Pedro, o padroeiro dos pescadores, foi oferecida à Capela por Cândida Arruda, de Espinho, casada com José Ferreira Neto, o «Batota», natural de Afurada mas descendente dos Sabeler de Espinho.
A fábrica Brandão, Gomes & C.ia Lda já existia em 1900.
Augusto de Oliveira Gomes, José de Oliveira Gomes, Alexandre Brandão
 e Henrique Brandão, os fundadores da firma, eram todos de Ovar,
 contribuindo firmemente para o progresso de Espinho.
Augusto Gomes foi o primeiro Administrador do Concelho,
 e Henrique Brandão foi Presidente da Câmara (1905-1908)
Rosa Americano, também natural de Espinho e residente em Matosinhos, ofereceu a imagem da Senhora do Rosário.
Cândida do Arruda e José «Batota» juntaram-se à comissão eleita entre os espinhenses deslocados em Matosinhos na angariação de fundos junto das traineiras e dos pescadores.
Em 1943, 1944 e 1959 têm lugar em Espinho convívios semelhantes ao de hoje.
Em 1947 vieram ao funeral de minha avó, Emília Dias Serrano, todos os seus familiares de Afurada e de Matosinhos.
No grande naufrágio de 2 de Dezembro de 1947 morreram cerca de 50 pescadores de Espinho que trabalhavam nas traineiras matosinhenses naufragadas.
Pelos anos 60, o industrial Hermano Serrano, natural de Espinho e residente em Matosinhos, comprou a fábrica «Brandão, Gomes e C.ª», num arrojado investimento de lucro duvidoso, pelas recordações que ainda o prendiam à Terra natal.
Ainda há pouco mais de um ano acompanhei à sua última morada, em Matosinhos, a minha tia Maria Esteves Arruda Americano, e meu primo António Esteves Americano.
Nas ruas principais do Cemitério de Matosinhos vi muitos jazigos de famílias vareiras de Espinho.
A família Serrano, depois que se fixou definitivamente em Mato-sinhos, fez doação do seu jazigo de família à Santa Casa da Misericórdia de Espinho.


Ovar – Espinho – Matosinhos
A presença de uma representação de Ovar neste convívio vareiro é a prova irrefutável dos laços afectivos e de memória que unem as três cidades.
A presença de tão grande representação da classe piscatória de Matosinhos entre nós é sinal claro de que, apesar da separação, da distância e do tempo, a alma vareira ainda está viva, bate e palpita em uníssono. E a resposta aos «velhos do Restelo» que, querendo tomar o nosso lugar na História, me diziam que os pescadores foram para Matosinhos e esqueceram Espinho. Como se fosse possível apagar uma história de 200 anos e os santos laços do sangue, da fé e do afecto que nos prendem à família, às raízes e à Pátria!
A presença de ilustres espinhenses entre pescadores e personalidades com origem na  classe piscatória é o sinal mais evidente de que a verdadeira História de Espinho não lhes é alheia e de que, num País democrata, há lugar para todos.
Viva Ovar! Viva Matosinhos! Viva Espinho! Viva o Povo Vareiro!


Pescadores de Ovar
[FOTO: FERNANDO PINTO]

Fontes:
Alvoradas de Fé – Santos Lessa
Os Sabeler, uma família de pescadores – Farinha Isidoro
O Furadouro – Lamy Laranjeira
Capela de S. Pedro – Artur Faustino

Fernanda Miguel
Espinho, 22 de Janeiro de 2004

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (edições de 01/02/2004, 15/02/2004 e 01/03/2004)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/12/na-rota-do-pescador-de-ovar.html


VAREIROS EM ESPINHO

A imprensa de Espinho e de Ovar, e não sabemos se também a de Matosinhos, já se referiu a em encontro de “vareiros” efectuado naquela primeira cidade, em 22 de Janeiro último, por iniciativa da professora, escritora e historiadora Fernanda Miguel, que teve a gentileza de convidar o Pároco de Ovar a estar presente, pedindo-lhe que se fizesse acompanhar por algumas pessoas da cidade, o que aconteceu. Estiveram ali, para além do Pároco, sete vareiros, que muito bem se integraram no conjunto. Por razões de saúde não fomos lá, ficando com imensa pena de não o poder fazer.

Fernanda Miguel e irmã (à direita), recebendo em sua casa, em Espinho,
algumas personalidades de Ovar. Na foto: José Maria Fernandes da Graça,
a pintora Beatriz Campos e Mário Carapinha. 

FOTO: M. Pires Bastos
No dia seguinte, tivemos o cuidado de perguntar a cada um dos nossos conterrâneos, isoladamente, a sua impressão sobre o encontro, que foi, na opinião de todos, excepcionalmente agradável e cativante, pois o nome de Ovar foi citado várias vezes com bastante entusiasmo. Ainda bem.
Dias depois, e convidados pelo nosso Pároco, tivemos o prazer de nos deslocarmos com mais quatro conterrâneos a Espinho onde, em casa da professora D. Fernanda Miguel, passámos uma parte de tarde conversando sobre pescadores, pesca e palheiros, temas em que fomos muito grandes, mas em que já não somos nada, e sobre o povoamento de Espinho e seu engrandecimento por outros filhos de Ovar, etc., etc. Uma tarde bem passada, muito do nosso agrado, por nela se terem versado temas que a tantos de nós muito dizem.
Mas registámos uma nota que, por invulgar, não pode deixar de ser mencionada neste ligeiro apontamento. Qual foi? A falar dos seus antepassados, a D. Fernanda Miguel fê-lo com tanto interesse e vivacidade que nos espantou.
Uma senhora, talvez da terceira ou quarta geração, se não mais ainda, patenteou um orgulho nos seus antepassados que, sinceramente, nos impressionou. Neste capítulo, a nossa anfitriã foi digna de Espinho, onde nasceu, e de Ovar, de onde eram os seus avós, herdeiros de um nome muito nosso, muito vareiro, Pinho Branco.
Eram momentos como os que nos foi dado viver que muitos vareiros, quase todos, deveriam sentir, para revitalizarem a sua auto-estima.

Espinho em 1870 (actual Avenida 8) 
Duas das primeiras quatro casas construídas em pedra em Espinho eram de gente vareira,
cujos ascendentes para ali se deslocaram de Ovar a partir do século XVII
É notório: deixámos de acreditar em nós próprios e se não formos directamente influenciados pelos exemplos que nos foram deixados pelos nossos maiores, nunca mais saímos da cepa torta, como se costuma popularmente dizer. Mas, atenção, não poderemos pensar só no passado; o futuro terá de ser entusiástica e ambiciosamente pensado.
Vale a pena pensar, reflectir e agir rapidamente.
Agora, que tanto se fala na criação de grandes áreas metropolitanas, parece ser o momento exacto para, conscientemente, fazermos a opção que mais nos interessa e que deverá ser a que nos possa proporcionar o desenvolvimento que outros concelhos já alcançaram e o nosso ainda não. Assunto importante, que a todos nós deverá merecer a maior atenção. (Jornal "João Semana", 1 de Março de 2004)


ADENDA -----------------------------------------
Augusto Gomes, natural de Ovar, liderou o grupo que levou à criação do concelho de Espinho. Era proprietário da fábrica de conservas Aliança, uma das maiores do país, com posição política conservadora.
Faleceu em 1924, quando se preparava para abrir uma filial em Vigo.


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