3.11.12

Mantas de agulha em Ovar – Um legado de nossas avós

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2010)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Vários autores escreveram sobre a excelência dos bordados e rendas que outrora se confeccionavam em Ovar.
Marques Gomes (“O Distrito de Aveiro”, 1877) afirma que os bordados em branco da vila “têm fama no distrito”, e que “as rendas de bilros quase rivalizam com as de Viana e Peniche”, o que foi repetido pelo Eng. Agrónomo João Vasco de Carvalho na “Monografia da Freguesia Rural de Ovar”, que acrescenta estar essa indústria extinta em 1912, data da publicação dessa obra.
Num excelente artigo publicado no “Terras do Var”, na secção do Património, com o título “Bordados de Ovar”, Adelaide Chaves faz uma interessante abordagem ao assunto, apresentando sugestões que devem ser reflectidas por quem de direito, para que essa arte não se perca na nossa terra.
Também no n.º 3 da publicação semestral da Junta Distrital de Aveiro (Junho de 1967) em “Ecos de uma Exposição de Arte Vareira”, José Augusto de Almeida, na época director do Museu de Ovar, faz referência aos “bordados e rendas”, o mesmo acontecendo com José Maria Fernandes da Graça no “João Semana” de 1 de Fevereiro de 2003. [VER "Rendas e bordados de Ovar"]

Curiosamente, e apesar de alguma investigação que fiz, não encontrei textos relacionados com as lindíssimas mantas de agulha  também executadas, a primor, pelas nossas avós, muitas das quais – verdadeiras preciosidades – permanecem, hoje, guardadas nas arcas de muitas casas vareiras, talvez ainda com o cheiro a rosmaninho e alfazema, odorizantes usados por elas, no intuito de as perfumarem. Outras continuam expostas, cobrindo camas quase sempre antigas, em quartos de dormir muito pouco utilizados, com a única finalidade de adornarem aquelas divisões da casa.

Manta executada por Margarida  Rodrigues Leite, da Rua Padre Ferrer, 119, Ovar,
falecida em Lisboa em 2006
As cinco agulhas utilizadas na confecção das mantas de Ovar
Obviamente que existem mantas muito bonitas executadas nos teares das nossas tecedeiras, lisas ou enfeitadas com várias configurações, mas sem o valor dado às de agulha, lavradas unicamente por mãos femininas das gerações que nos precederam, sem terem sofrido nenhuma interferência mecânica. A única ferramenta utilizada na sua confecção era uma ou duas agulhas de arame (conforme o trabalho a realizar), vergadas em forma de meia-lua, com barbela tipo anzol numa extremidade, e abicada na outra. (Ver na foto atrás).
Manta executada por Rosa de Oliveira Gomes da Rua Padre Ferrer, 120, Ovar,
nos finais do séc. XIX. (Falecida em 1942, com 85 anos)
A matéria prima aplicada compunha-se, normalmente, de fio branco de algodão enrolado em meadas que, num passo seguinte, eram transformadas em novelos com a ajuda dos braços estendidos de uma outra pessoa, que as movimentava, fazendo de dobadoura. (Geralmente, só possuía este aparelho giratório quem fabricava as mantas para fora, como acontecia com as tecedeiras.)
Normalmente, as feitoras de “mantas de agulha” exerciam essa actividade para consumo pessoal, para uso nas suas moradias, embora algumas – as de menos recursos económicos – também as fizessem para fora, por encomenda.
Contou-me a Marquinhas Carvalho, actualmente com a bonita idade de 102 anos, que aos 13 já começou a fazer uma manta de agulha.

Manta de agulha transformada em toalha de mesa executada por Olívia Valente de Carvalho, casada com José Augusto Pereira de Carvalho, da Rua Padre Ferrer, 144, Ovar, falecida em 20/01/1980, com 86 anos. Era filha de João Gomes Leite (falecido em 1931) e de Rosa Valente da Silva (1871-1918)
Manta de agulha executada nos anos 40 do séc. XX, por Maria de Oliveira Gomes,
da Rua Padre Ferrer, 125, mãe do autor destas linhas, falecida em 1995, com 87 anos

Maria de Oliveira Gomes

Os vários desenhos empregados na feitura destas mantas eram imaginados pelas executantes ou tirados de amostras que copiavam de exemplares já laborados, estando aí a explicação para o facto de muita gente as possuir com desenhos iguais.
Essas peças eram posteriormente unidas umas às outras com o mesmo fio de algodão, com o qual também se faziam as franjas que pendiam das mantas, de comprimento e largura variáveis, conforme o tamanho das camas a que se destinavam.

Manta de agulha executada nos anos 50 do séc. XX por Glória Gomes da Silva Natária,
da Rua Alexandre Herculano, 162, Ovar, filha de Manuel de Oliveira Alegre Júnior
e de Maria Gomes da Silva Natária
Pormenor da manta de agulha executada por Glória Natária, de Ovar
Glória Natária
Pessoas amigas que tiveram a gentileza de me mostrar essas autênticas jóias do nosso património, confeccionadas entre o início do séc. XIX e a primeira metade do século XX, disseram-me que algumas delas levaram anos a fabricar, e que eram executadas ora à luz da candeia de azeite ou do candeeiro de petróleo – quando o trabalho era feito à noite –, ora durante o dia em casa ou na praia, neste caso por mulheres que trabalhavam nos armazéns da sardinha e que as confeccionavam enquanto esperavam pela saída do lanço.

Sugere-se uma exposição
Porque, felizmente, ainda se conservam algumas dessas jóias artesanais, religiosamente guardadas pelas famílias que tiveram a felicidade de as herdar dos seus antepassados, e porque merecem ser apreciadas pelos vareiros que as não conhecem, sugiro ao Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Ovar que promova uma exposição de “Mantas de Agulha”, iniciativa que poderia ser realizada conjuntamente com uma mostra de “Rendas e Bordados”. Seria uma forma de homenagear os nossos ascendentes e de despertar na nossa juventude o gosto pela aprendizagem e manutenção dessas artes ancestrais.

Fotos das mantas: M. Pires Bastos

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2010)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/11/mantas-de-agulha-em-ovar-um-legado-de.html

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