15.11.12

Irmã Ana Maria – 50 anos de vida religiosa, 25 dos quais em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2012)
TEXTO: Ir. Ana Maria Silva Ferreira

Este ano Jubilar é propício para parar, refletir, avaliar e, sobretudo, alegrar-me e dar graças ao Senhor por tantos benefícios recebidos ao longo de 50 anos de vida religiosa.
Nesta tarefa, em que o sentimento se torna mais vivo e mais exultante, não posso deixar de testemunhar publicamente o que foram para mim os quase 25 anos vividos nas lindas paragens de Ovar, anos esses que me marcaram para sempre, e de diferentes formas.

A Irmã Ana Maria celebrando as suas Bodas de Ouro na Casa do Instituto Jesus Maria
José, em Fátima, em 28/10/2012, na presença do Bispo da Guarda, D. Manuel Felício
Vinda de uma família numerosa, onde era imensamente feliz, foi em Ovar que fui recebida pelas Irmãs do hoje Instituto Jesus Maria José. Dada a exigência formativa para integrar a Vida Religiosa, foi em Ovar que emiti os Primeiros Votos. Depois de alguns anos de experiência e trabalho em outras Comunidades, foi em Ovar que fiz os Votos Perpétuos.
Em todo este caminho cruzei-me, melhor, relacionei-me com muitas pessoas, crianças, jovens, adultos. A minha ação era bastante diversificada. Não se limitava às tarefas domésticas. Abrangia um grande leque de contactos: no atendimento a pessoas que nos procuravam, nas visitas a famílias, na colaboração com a Paróquia, nomeadamente na Catequese. Tudo isto me ajudou a crescer, a tomar consciência e a firmar o meu “Sim” inicial, porquanto a vida é feita de um Sim mil vezes repetido. Foi ainda em Ovar que encontrei – e encontro – pessoas a quem muito devo pela ajuda dispensada nas horas mais difíceis, para que hoje pudesse estar aqui feliz e realizada, continuando o caminho a que Deus me chamou desde a juventude.
Na Comunidade de Ovar (a minha primeira Comunidade) encontrei o acolhimento, a simplicidade, o carinho e o ambiente que desejava para poder viver de um modo mais perfeito a minha entrega ao Senhor.
Por altura dos meus Votos Perpétuos, enquanto eu, numa Escola do Porto, adquiria alguns conhecimentos de pedagogia, as minhas Superioras e Irmãs mais idosas continuavam a acalentar um sonho antigo e lindo, que se referia a uma pequena porção do Povo de Ovar situada no Furadouro, mesmo à beira mar, povo trabalhador e simpático, habituado a tirar do mar o seu próprio sustento.
Aconteceu por aqueles tempos a Natureza deteriorar as condições até então propícias à pesca, tendo como consequência uma pobreza ainda mais acentuada. Estas Irmãs, imbuídas do Espírito do nosso Instituto Jesus Maria José – a dedicação aos mais pobres –, não tardaram com o seu apoio material e espiritual, confecionando roupas para as crianças, organizando a Catequese e levando alimentos, conforme lhes era possível. Coincidia esta ação com a chegada do primeiro Pároco, Padre António Fernando Lopes Ferreira, para a então Paróquia Experimental do Furadouro. Este também se empenhou nestas ações e apoiou eficazmente o trabalho das Irmãs, trabalho acrescido, entretanto, por terem aceitado agregar a si um movimento caritativo (a Sopa dos Pobres) ali existente, orientado por um grupo de senhoras de Ovar.

As condições de trabalho das Irmãs no Furadouro, na década de 60,
eram muito precárias. À esquerda, a Irmã Ana Maria
Sentindo sempre que ainda não era suficiente quanto faziam, as Irmãs pensaram fundar uma obra social.
Foi nessa altura que se envolveu também o Rotary Club de Ovar, através de alguns dos seus membros que, movidos pelo seu lema rotário, e sensibilizados pelas esposas, vindas da Sopa dos Pobres, se empenharam nesta obra, mesmo perante a dúvida de alguns colegas quanto ao sucesso do trabalho.
Quanto a mim, foi mais um Sim que dei – daqueles Sins que caracterizam a Vida Religiosa – ao aceitar ser a enviada para o início desta Obra. Dei-me na gratuidade total (até económica), com alegria e grande entusiasmo, pois, além do vigor da idade em que me encontrava, invadia-me o espírito cristão de dedicação aos mais pobres dos pobres, e também uma certa inclinação natural para um trabalho simples, desafiante e comprometedor.
As condições eram muito precárias, rústicas e cheias de limitações. Improvisava-se tudo, desde equipamento a jogos. Imperou a boa vontade e o arrojo de uns tantos, e tudo se ultrapassou através das etapas seguintes, que o Rotary Club foi liderando, e cujo sucesso está bem patente na grande dimensão que o Centro de Promoção Social foi atingindo, sendo hoje bem visível e abrangente.
Quanto a mim, após 10 anos de presença no Furadouro, outros serviços me foram pedidos em outros lugares e outras missões, chegando mesmo um pouco até às missões em Angola.
Hoje encontro-me novamente num serviço discreto, um pouco semelhante àquele a que já fiz referência, porque também aqui me sinto a contribuir para minimizar marcas de pobreza e desajustamentos familiares.

Viseu, novembro de 2012
Ir. Ana Maria Silva Ferreira

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE NOVEMBRO DE 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/11/irma-ana-maria-50-anos-de-vida.html

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