29.11.12

Algumas notas toponímicas ovarenses – Esmoriz e congéres (concerto)

A. de Almeida Fernandes
(Historiador)
Jornal JOÃO SEMANA (01/12/1993)

Ocupei-me dos casos anteriores unicamente porque respeitam a nomes de freguesias ovarenses: não quer dizer que mais valham esses que outros quaisquer. Faltou unicamente Esmoriz, dado não nos oferecer as indecisões ou ambiguidades daqueles, e porque reservei o seu caso a uma consideração especial com os congéneres únicos que no concelho de Ovar me constam. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]

Igreja Matriz de Esmoriz
Efectivamente, trata-se de genitivos antroponímicos, e todos eles de origem germânica: nomes pessoais que se usavam ainda de há uns mil anos para trás. São eles em número de oito. O mesmo número de instrumentos de uma banda musical, normalmente. Como nada irei dizer deles cientificamente meu, e para melhor ser compreendido o meu “método” de apresentação “científica” dos mesmos, segundo lição “universitária” que há uns três ou quatro anos recebi, e ainda para amaciar as rudezas da explicação e compreensão que no assunto toponímico, como o leitor deve ter visto, existem, vou oferecer-lhe um “concerto” musical: não de orquestra de arco e corda, porque os “músicos” que a constituem seriam capazes de os partir com a força inábil que hão nas manápulas “científicas”, mas de charanga, visto que, como têm o fôlego igualmente forte, a madeira e os metais dos respectivos instrumentos resistem-lhe eficazmente… Pelas mesmas razões, não irão tocar um minuete, que é coisa demasiado delicada para eles, mas uma rapsódia, com frases da”ópera” moderna, ou nova, que, como acima digo, o chefe me cantou, autorizado pelo “método científico” de que ele me disse eu não fazer ideia, sendo para mim música celestial, porque “só na universidade se conhece, se usa e se transmite”. Trata-se da chamada Universidade Nova de Lisboa, refulgente na sua Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e personalizada no seu muito conhecido e admirado chefe. Mas não julgue o leitor que vou discutir: vou unicamente mostrar que “aprendi” a lição, o mesmo que dizer não ser tão bruto, e improgressivo e até “doente” como pintou.

O Concerto…

Por “afinidades” previamente ponderadas, distribuí ao flautim o papel do topónimo Guilhovai (Ovar); à requinta, o do topónimo Dagarei (Válega); aos clarinetes, um em dó, outro em si bemol, e outro em fá, o topónimo Gonde (Válega); aos saxofones (soprano e contralto), o topónimo Bertufe (Válega); às trompas, Sande (Ovar); aos bombardinos, Esmoriz mesmo; aos trombones, o topónimo Enxemil, que me dizem há também cerca de Ovar (tal como noutras partes).
Uma perfeita banda de sopro: falta o contrabaixo, mas eu destino-lhe o topónimo Ovar, apesar de já tratado.
Perfeita correspondência biunívoca ou, pois, matemática, de “a” a “b”, ou “b” a “a” pares ordenados como o leitor quiser (a, b) ou (b, a). Um pequeno “universo” de conjuntos de dois elementos: instrumento topónimo. Falta destinar a bateria (bombo, caixa, pratos e ferrinhos, etc.): mas dela encarrego-me eu, porque a coisa é fácil para um bruto assim, um improgressivo que ao menos ainda aprendeu a bater e rufar. Não ficarei atrás dos outros “executantes”, e ouçam-me, e ouçamo-los, pois:
O flautim silva-nos que em Guilhovai era tudo gente danada, sempre com “vontade de lutar”, e sempre, pois, em lutas.
A requinta chia-nos para Dagarei um pessoalzinho cuja vidinha era como um “dia de luminoso conselho” (embora não dê provas de merecer o Céu por isso).

Cais do Puxadouro, Válega
FOTO: M. Pires Bastos

Os clarinetes afinam a melodia de “lutadores”, por excelência, todos os habitantes de Gonde – abono de má gente, digna, pois, de inferno.
Os saxofones roufenham-nos que em Gondesende estava-se sempre em “caminho de luta”, qualquer pessoa uma “companheira de expedição” de outra.
Os cornetins trombeteiam que toda a gente de Bertufe era de “audácias de lobo”.

Sande, fonte do Esperão, antes do último restauro
FOTO: M. Pires Bastos
As trompas aveludam o panorama em Sande com pessoal “verdadeiro”, de uma só cara e sem sombra de dolo, digna de canonização mais que o Sr. Dr. Álvaro Cunhal, que a tem certa.
Assim a tivera eu, que, infelizmente, non sum diguns

Interior da Capela de N.ª Sr.ª da Penha, Esmoriz
FOTO: M. Pires Bastos
Os bombardinos poderosos, que obrigam a fazer bochechas que me lembram as de não sei quem, proclamam como tubas que lá em Esmoriz era de uma “fortaleza régia” todo o gentio, digna de subir a um trono qualquer pessoa. (Seria de investigar se lá não teria vivido o nosso rei suevo Ermerico, ou Ermenerico. Com certeza que não: havia muitas “Marias” na terra).
Finalmente, aí temos os trombones a pompear que a gente de Enxemil eram “divindades famosas”. E está certo, porque não me consta já, aí, propriamente, uma povoação: os habitantes divinos devem-se ter passado todos para o Céu. Há nomes infelizes – esse, lá, como cá este meu, que significa “espírito forte”…

Enxemil, Ovar, visto da ponte da Moita
FOTO: M. Pires Bastos
E então Ovar no papel de contrabaixo? Gente manhosa na sua “cautelosa riqueza”, precavida de que lha não roubem sempre, ao desatar do lencinho ou sondar o pé da meia, a olhar para o lado, se tem de fazer um pagamento.
Postal de Ovar
Quanto à bateria, eis-me, pois, eu, “forte de espírito” Secundum nomen meum (germanicum simile) e creio que não desempenho pior o meu papel.
Aqui está a rapsódia operista, que eu regi pela partitura do dito chefe lisbonense, universitário novo, social e humanamente: um milagroso fenómeno, pois escreveu tal partitura sem saber música, julgando ele que cantá-la é sabê-la: de trás para o princípio, e do fundo para cima, para si é tudo o mesmo. E nele é como o invejoso Rossini dizia da música do genial Wagner…que em troca o chamava “florista”, em melodia e contraponto. Naturalmente, ele escolherá um tal Rossini: com o meu apoio!
Vamos ao sério: ora, o dito chefe transfere – nada menos! – para toda a população de um lugar o significado do nome pessoal originário do topónimo. De tombar a rir, mas eu não desejo reeditar a discussão que com ele tive neste mesmo jornal, e menos ainda o livro que ele diz seguir. Transforma em população um indivíduo único, e atribui a ela tudo o que se significava nele somente. Ora, nós não temos em cada caso mais que uma propriedade, uma “villa”, território demo-agrário: respectivamente (pela ordem supra), “villa” Willibaldi, “villa” Dagaredi, “villa” Gundi, “villa” Gundesindi, “villa” Bertulfi, “villa” Sandi, “villa” Erme (ne), “villa” Ansemiri – caso a caso : de Willibaldus, Dagaredus, Gundus, Gundesindus, Bertulfus, Sandus, Erme (ne) ricus. Ansemirus. E deixo Ovar como “villa”Oduarii, de Oduarius, porque, como já vimos, nada tem com isso: origem pré-romana, nome comum desaparecido para além de mil anos, talvez. Por isso lhe confiei o papel de contrabaixo, a ver se conseguia fazer-se ouvir no que não é…
Esta toponímia possui saliente sentido histórico de que aqui não posso nem preciso tratar. Não é de História a finalidade destas notas: isso tem outro domínio. Ora, é sumamente reprovável que pessoas que a si mesmas se têm por luminares (porque toda a gente passou a considerá-las como tais), venham fazer aplicações totalmente desvairadas, e que só podem significar um estado cultural patológico: fruta do tempo.
Se assim não fosse, teríamos de concluir que as populações antigas do actual território de Ovar (séculos V-VI) eram uma bengalé de marotos de alto coturno, nem sempre exceptuada em Sande, Guilhovai e Enxemil… Nada disso, porém; gracias…

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE DEZEMBRO DE 1993)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/11/algumas-notas-toponimicas-ovarenses.html

LEIA AQUI AS OUTRAS 6 NOTAS TOPONÍMICAS (ou veja o link no cabeçalho deste sítio)

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