16.10.12

Casal Codeço: à conquista de Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (15/10/2012)
TEXTO: Serafim Oliveira Azevedo

Na década de quarenta, Ovar começou a ser colonizado por pessoas vindas de Arcos de Valdevez e, como foi no final de 1948 que iniciei a minha aclimatação a Ovar, também foi aqui que procurei conhecer os seus habitantes. E foi engraçado. Simpatizei logo com o Sr. Manuel Silva, que julgo ser daquele concelho… Pelo menos, sempre o julguei de lá.
Depois, vieram os veterinários e seus familiares, os Limas, os Codeços, e por aí fora. Com todos me dei bem; pelo menos a minha memória só registou coisas ótimas nos nossos contactos. Uma salva de palmas, vinda do meu coração, para os Arcos de Valdevez.
Dito isto, estou completamente à vontade para que o meu coração fale, lá bem de dentro, de um casal que nós adorávamos: o casal Codeço.

O senhor Codeço: curioso... mas reservado

De quem falo primeiro? Dele ou dela? Ele começaria pelas senhoras. Mas eu vou contrariá-lo. Começo por ele. Era uma pessoa distinta, uma pessoa conquistadora, uma pessoa amável. Foi um funcionário exemplar do Ministério da Justiça, um bom funcionário do Tribunal de Ovar até ser colocado nas Inspeções, por onde foi reformado. Viveu, até partir para a sua terra natal, no n.º 36 esq.º da Rua Cândido dos Reis. Era muito curioso, e onde visse um amontoado de pessoas lá estava ele a engrossá-lo e a memorizar o caso, mas sem se meter nele. Talvez, por isso, não parava muito tempo no café. Ia e vinha; conversava um bocadinho e lá partia de novo.
A propósito deste seu vaivém, recordo um caso passado na feira de Espinho: Estava o feirante a propagandear uma faca de cortar caldo verde quando um polícia se chegou a ele e lhe deu ordem para o acompanhar. Ele tinha meios de calar o polícia, mas acompanhou-o até à esquadra. Ali chegados, ouviu o polícia a expor o seu caso e é então que ele puxa do seu cartão e prova que é funcionário do Tribunal. Mas a Polícia também tinha as suas razões. Tinha recebido ordens para deterem durante as horas da feira, um carteirista que se supunha ter-se encaminhado para Espinho e cuja fisionomia correspondia com a do Sr. Codeço, que se tinha tornado suspeito por se encaminhar sempre para aglomerados de pessoas. Rimo-nos a bom rir quando ele nos contou o caso.
Foram tantas as tardes, as festividades em família, as tardes na Ria… Mas conto apenas duas: Uma tarde, depois de um almoço numa duna defronte do Vela Areinho, resolvemos fazer a digestão à sombra dos pinheiros. Eis senão quando vimos um carro meter-se num local com o piso à altura da estrada para fazer inversão de marcha. Isso era a vontade do dono, mas o carro não obedeceu. Atolou-se, e foi precisa a nossa ajuda para o pôr na estrada. Eram cinco valentões: o Sr. Codeço, eu, o Carregã e o Cabral. Depois deste sucesso, já não arredámos pé. Ficámos à espera de outros… E eles vieram, talvez uns 4 ou 5. Foi um dia em cheio...
Outro dia, estavam os almoços prontos para mais uma tarde na Ria quando fomos presenteados com uma tarde invernosa. Estávamos todos com trajes ligeiros, os almoços completavam-se, e então veio a grande solução: almoçar na cave da casa do professor Azevedo. Dito e feito. Vieram os carros, pôs-se uma mesa das explicações, esvaziaram-se as malas dos carros e encheu-se a mesa com boa comida cozinhada pelas nossas mulheres. Foi um lauto almoço. Depois a tarde compôs-se, e a merenda foi comida no terraço da garagem. A chuva acabou por nos proporcionar um belo dia de convívio. E pronto, Sr. Codeço.

D. Maria Luísa: “mani fata”

Falemos agora um pouquinho do muito que a D. Maria Luísa nos proporcionou. A vossa casa era como se fosse nossa. Éramos tão bem recebidos como se estivéssemos em casa. Só nos faltava a chave.
Tem graça, mas a D. Maria Luísa e a minha mulher pareciam educadas pela mesma mãe, tais eram as semelhanças nos seus gostos, nas suas atitudes, nas suas maneiras de enfrentar a vida. Os meus filhos, então ainda crianças – usavam “malhas” feitas pela mãe, que era uma “mani fata”, assim apelidada pelas colegas da Normal –, faziam um figurão com os fatinhos que tinham como fonte de inspiração os figurinos executados por D. Maria Luísa.
O marido, nos seus trabalhos de inspeção, passava temporadas em Lisboa, e a esposa aproveitava as suas horas de ócio para dar uma vista de olhos pelas montras de melhor fama e, quando topava um modelo que lhe enchesse as medidas, logo o copiava e guardava no seu precioso “cofre”. No dia seguinte à sua chegada a Ovar, lá se juntavam as duas para atualizarem a sua coleção de modelos – ambas trocavam as suas impressões sobre qual a “obra” a concluir primeiro. E iniciava-se o primeiro trabalho. E era ver então a alegria que transparecia no rosto de ambas as senhoras: refletia a imensa felicidade, uma por aprender, por ter mais uma linda peça para os seus filhos, a outra por ter enriquecido a sua amiga com mais um lindo modelo, mais um ponto que obrigava os transeuntes a segui-lo com olhos cobiçosos.

Uma “vingança” do Padre Cruz

Padre Cruz
Mas a D. Maria Luísa não vivia apenas para as coisas terrenas. Também pensava no Além: era uma grande devota do Padre Cruz, e este nunca a defraudou. Mas um dia zangaram-se; um dos sobrinhos de seu marido, tendo ido a um concurso para um lugar dos tribunais – e a tia metera uma cunha ao Padre Cruz –, chumbou. Este pequeno contratempo esfriou um pouco a fé que ela tributava ao reverendo, e ela pô-lo de castigo, virado para a parede. Mas o Padre Cruz vingou-se desta afronta vinda de quem ele também gostava de receber tributos, obrigando-a a retratar-se: Dias depois, a D. Maria Luísa recebeu um telefonema comunicando-lhe que o sobrinho fora colocado na Gulbenkian, um lugar de mais futuro que o do Tribunal. Ah! Grande Padre Cruz… Destas vinganças gosto eu. Isto, porém, comprova a estima, o amor que ela repartia pelos sobrinhos de seu marido. Eles eram Reis nos corações destes tios. Era um casal sem filhos, mas Deus deu-lhes uns sobrinhos que sempre os enriqueceram, que sempre foram motivo de orgulho para quem tanto os amava.
E já que voltei a falar dos dois, quero expressar-lhes o nosso reconhecimento, a nossa imensa gratidão pelo que fizeram em prol dos nossos filhos. Na altura do casamento da minha filha e do meu genro, apercebendo-se de que eles não conseguiam casa adentro da então vila de Ovar, adiantaram a sua saída para os Arcos, de modo que a casa ficasse vaga para eles ali se abrigarem já no dia do seu casamento, casa que acabaram por comprar e onde ainda vivem.
Corações destes merecem um meigo, um carinhoso olhar de Deus. Talvez, por isso, Deus ouviu os pedidos do senhor Codeço: que o levasse à frente da Maria Luísa. E foi. Mas também pouco tempo por cá ficou sem ele. Penso mesmo que, já dentro do Céu, ele a chamou dizendo-lhe: Maria Luísa, tal como no dia do nosso casamento, também – perdoa-me! – estou ansioso por te ter ao meu lado. E foi assim, pouco tempo depois, ela partiu, escondendo-se dos nossos olhos até que sejamos também chamados.
Eles lá estão. Os seus corpos jazem bem alto, no cemitério da terra que tanto amavam, embora eu creia, sinceramente, que Ovar estava bem dentro dos seus corações.
Muito obrigado pela vossa amizade.

Serafim Oliveira Azevedo

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE OUTUBRO DE 2012) 
Endereço do texto para colocar numa bibliografia
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/10/casal-codeco-conquista-de-ovar_16.html

ADENDA -----------------------------------------

Dr. Cruz
De visita a Ovar esteve entre nós o reverendíssimo sr. Dr. Padre Cruz que nos presenteou com a sua companhia durante 3 dias. Já velhinho e muito curvadinho com o peso dos anos é um modelo de amor e bondade; as suas palavras enchem os corações de alegria e conforto, purificando assim as nossas almas. O sr. Padre Cruz, muito conhecido em Portugal e no estrangeiro, tem na história da sua vida verdadeiros milagres. Chamam-lhe santo e eu acrescento, é mais que santo, é um anjo que anda no mundo a converter almas para o reino de Jesus. Os dias que o reverendo sr. Padre Cruz cá esteve passou-os no Carregal em casa da ex.ma família Colares Pinto, que muito carinhosamente o recebeu e ali celebrou a santa missa numa das maiores salas da casa nos dias 11 e 12, assistindo toda a família, assim como todos os empregados e algum povo estranho. No final de cada missa fez uma prática, cujas palavras calaram bem dentro dos nossos corações, vendo-se lágrimas em muitos olhos. No dia 11 foi visitar a cadeia e o hospital e no dia 12, pelas 10 horas, deu-nos a sua despedida. Todo o pessoal empregado lhe beijou a mão muito respeitosamente. Lá fui! Quem sabe se o tornaremos a ver! Se não for neste mundo há-de ser junto de Deus no céu! Que ele peça a Deus pelas necessidades da nossa terra.
José Ferraz da Graça 
(“João Semana”, 28 de agosto de 1946)

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1 comentário:

Maria disse...

Sr. Padre Bastos:
Gostei de ver confirmado, o pequeno comentário que fiz, sobre a visita do Senhor Padre Cruz a Ovar.
Gostaria de ler a história dos "Cães do Collares Pinto". Ainda conheci alguns. Um, já muito velhinho, puxava uma pequena carroça, que o meu tio mandou fazer, para nós, miúdos. Chamava-se Fiel e era muito grande e meigo.
Que saudades da Quinta da minha infância!
Com os meus agradecimentos
Maria Águeda Collares Pinto