3.10.12

Almeida Garrett e a pesca do Furadouro

Jornal JOÃO SEMANA (15/03/2010)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Furadouro, Ovar
Quem já leu o livro “A Pesca no Furadouro – 1800-1955”, de que sou autor, e que foi editado por este jornal, tomou conhecimento da importância que teve na economia vareira a quantidade de sardinha colhida no mar da costa do Furadouro na segunda metade do século XIX e primórdios do século XX.
De um dos autores que mais escreveram sobre este tema, o Dr. Eduardo Lamy Laranjeira, transcrevemos aquilo que nos diz a este respeito em “O Furadouro – O Povoado – O Homem e o Mar”, justificando o realce que dou a essa actividade na referida época:

Pesca da Arte Xávega (Furadouro, Ovar)
“A classe piscatória vareira, nascida e residente na paróquia de S. Cristóvão, foi sempre bastante numerosa, conforme “Memórias e Datas”, que refere o número de 10 companhas em 1600 e de 6 em 1869, empregando cerca de 2000 almas, homens e rapazes. Ora, tendo em atenção o elemento feminino, mais numeroso que o masculino – umas 2400 mulheres e raparigas, não para menos –, temos que a globalidade da classe atingia, nesse ano, umas 4400 pessoas. 
O ano de 1864 acusa para o concelho 17.167 pessoas (Ovar, Válega, S. Vicente e Arada), pelo que a demografia da paróquia de S. Cristóvão devia, em 1864, apresentar entre 40 a 50% de elementos da classe piscatória”.

Isto vem a propósito da releitura que fiz recentemente do romance histórico “O Arco de Sant’Anna”, de Almeida Garrett, cujo primeiro volume foi publicado em 1845. Nele encontrei, no capítulo XIV, a seguinte passagem, alusiva a uma possível revolta devida ao descontentamento do povo do Porto:
“Sangue!... E o meu sangue é o que eles querem, os desmandados, o ruim populacho que aí se está a juntar mais basto do que um bando de sardinhas em Ovar”. 
Esta referência à faina marítima em  Ovar na primeira metade do século XIX confirma a importância que teve, naquele tempo, a costa de Ovar na pesca da sardinha, com o valor acrescentado de ter sido feita por um dos clássicos das nossas letras pátrias.
As duas primeiras fotografias que apresentamos, do início do século XX, mostram-nos como ainda há um século era basto o bando de sardinhas a saltar nas lotas ao longo do areal.

 José de Oliveira Neves junto ao que resta
do Arco de Sant’Ana, perto da Sé do Porto

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE MARÇO DE 2010) 
Endereço que deve colocar numa bibliografia
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/10/almeida-garrett-e-pesca-do-furadouro.html

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