5.10.12

O Padre Cruz em Ovar

Jornal JOÃO SEMANA (01/11/2007)
TEXTO: José Maria Fernandes da Graça (A. A.)

Ao remexer uma gaveta, encontrei, sem contar, uma pagela editada pelo Apostolado da Oração em 1994. Ao relê-la, recordei duas passagens da minha meninice que jamais esqueci. Não era possível!
Referia-se a pagela ao Santo Padre Cruz, o virtuoso sacerdote de Alcochete, que todos os portugueses da segunda metade do século XX conheciam, e que mesmo aqueles que não se afirmavam católicos respeitavam sem qualquer hesitação.
Padre Francisco Rodrigues da Cruz
(Padre Cruz: 1859-1948)
Eis o texto:
Caminhava o santo Padre Cruz pela rua do Arsenal em Lisboa. Um marinheiro fixa-o atentamente, aproxima-se e pergunta:   O Senhor é o Padre Cruz?
– Sou, sim, meu irmão.
O marinheiro beija-lhe a mão e diz:
– Fui educado nas Mónicas e lá conheci Vossa Reverência. Até me lembro da oração que me ensinou: “Jesus, Maria e José, alumiai-nos, socorrei-nos e salvai-nos”. Um dia, o meu barco, batido pelas ondas, ia naufragar. Lembrei-me então da igreja das Mónicas, do Padre Cruz e da oraçãozinha que nos ensinou e comecei a rezá-la. Deus ouviu a minha humilde prece. O mar serenou e o barco, por graça de Deus, chegou ao porto, são e salvo.

Eis agora as minhas recordações pessoais.
Em determinado dia do início da década de 30, andava na rua, certamente na brincadeira com outros garotos da mesma idade, quando reparei num grupo de pessoas, a maior parte das quais minhas conhecidas, que se faziam acompanhar de várias crianças, quase todas do sexo masculino, às quais eu me juntei.
Encaminhavam-se, possivelmente, para o Hospital.
Recordo-me de ter reconhecido algumas senhoras ligadas a associações religiosas: D. Sofia Vidal, D. Maria Amélia Cardoso e irmãs D. Carolina e D. Helena, e outras que não consigo referenciar.
Fazia parte da comitiva um sacerdote a que chamavam senhor Padre Cruz, figura que todo o país conhecia pela acção do Bem Fazer junto dos mais fracos.
No larguinho da Rua Júlio Dinis onde, durante alguns anos funcionou o mercado do peixe, fez-se uma paragem, aproveitada para o virtuoso sacerdote ensinar aos mais pequenos a pequena oração “Jesus, Maria e José”, prometendo uma moeda a quem aprendesse e depois a repetisse bem. Uma das moedas calhou-me a mim.
Isso mesmo aconteceu com muitos, se não com todos os protagonistas desta cena.
Depois de consumado este interessante episódio, todos seguiram o seu destino.
Passado algum tempo, o autor destas notas encontrava-se à porta da Igreja Matriz com outros miúdos e reparou que vinha do interior do templo o santo Padre Cruz, figura que havia gravado na sua memória desde o primeiro momento em que a viu. Perguntando o Sr. Padre Cruz se conhecíamos a casa onde morava o senhor abade Padre Alberto Cunha, a minha resposta foi imediata:
– Conheço eu!
Escultura do Padre Cruz
– És capaz de me levar até lá?
– Sou, sim!
E lá fomos nós, percorrendo aquele caminho que seguia ao comprido com o cemitério até quase à ponte dos Pelames. (Nesse tempo ainda não existia a Avenida do Bom Reitor). Subimos a ladeira que dá acesso à Rua Alexandre Herculano, virámos à esquerda, e logo um nada depois apontei a casa dizendo:
– É esta!
– Obrigado meu menino!
– Não tem de quê, - foi a resposta.
Nesta passagem, que me deixou muito feliz por me ter sido dada a oportunidade de ser útil a alguém, um pormenor houve que registei e que me deixou impressionado: ao passar junto de um pequeno portão do cemitério, a meio do caminho a que já me referi, parou um momento voltado para o Campo Santo, murmurou algumas palavras que não consegui entender, e traçou o gesto de bênção para dentro. De tal modo me surpreendeu esse gesto, que ficou profundamente gravado no meu espírito.
E, já agora, uma recomendação: procurem ler alguma publicação sobre a vida do Padre Cruz. Na humildade da sua figura e no seu impressionante labor apostólico em prol dos mais desfavorecidos encontrarão exemplos que, tal como o que motivou este texto, nos fazem pensar em rumos de vida que nunca serão nem de vaidades nem de opulência.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 DE NOVEMBRO DE 2007) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/09/o-padre-cruz-em-ovar.html


ADENDA -----------------------------------------

AINDA SOBRE O PADRE CRUZ

"Em 27/04/1928, data em que Salazar entrou para o Governo, estava o Padre Cruz em Ovar, afirmando acreditar no bom governo futuro. (Jornal "João Semana", 23/04/1953 e 11/06/1953)

"Esteve 3 dias em Ovar em 1946, celebrando Missa no Carregal, na empresa do Colares Pinto". ("J. S.", 22/08/1946)

"Visitou a cadeia e o hospital" ("J. S", 11/08/1946)

O Padre Cruz com Appio Sotto-Mayor
e o historiador Padre Miguel de Oliveira

Maria Águeda Collares Pinto
A nossa leitora Maria Águeda Collares Pinto informa-nos:
“Nesse tempo, ficou o Padre Cruz as noites que passou em Ovar, na Quinta Dr. Pinto, pertencente na altura à minha família materna. Tenho uma foto dele, acompanhado pelo meu pai, Appio Sotto-Mayor, e pelo Padre Miguel de Oliveira. Ainda guardo um pequeno santinho que representa o Menino Jesus deitado.Tem na parte de trás uma oração e a assinatura do Padre Cruz”.

Para além da estadia referida, que teve lugar em junho de 1946, e em que celebrou Missa na Quinta Colares Pinto, como registou o “João Semana” da época, o Padre Cruz passou mais vezes por Ovar, numa das quais, em 6 de maio de 1920, visitou a Santa Casa de Misericórdia, cuja capela estava em recuperação.

3 comentários:

Maria disse...

Nesse tempo, ficou o Padre Cruz as noites que passou em Ovar, na Quinta Dr. Pinto, pertencente na altura à minha família materna.
Tenho uma foto dele, acompanhado pelo meu pai pelo padre Miguel de Oliveira.
Ainda guardo, um pequeno santinho, que representa o Menino Jesus deitado.
Tem na parte de trás, uma oração e assinatura do Padre Cruz.
Maria Águeda Collares Pinto

Fernando Pinto disse...

Obrigado, Maria, pelo seu testemunho.
Pode enviar-nos o seu e-mail ou o seu contacto telefónico para o e-mail manuelpiresbastos@sapo.pt

Obrigado pela atenção.
Cumprimentos do P.e Manuel Pires Bastos e do jornalista Fernando Pinto.

Maria disse...

Senhor Padre Bastos:
Gostei de ver publicada a foto que lhe enviei.
Faço apenas, uma pequena correcção: Quem está com o Senhor Padre Cruz e Monsenhor Miguel de Oliveira, não é nenhum de meus tios, mas meu pai, Appio Sotto-Mayor, casado com uma das irmãs Collares Pinto, minha mãe.
A culpa foi minha, por ter sempre assinado Collares Pinto. Era nome conhecido em Ovar e, por tal, não usei o meu apelido paterno.
Peço desculpa de o induzir em erro.
Com os meus melhores cumprimentos.
Maria Águeda Collares Pinto Sotto-Mayor (Alves Costa)