17.9.12

Júlio Dinis: Carácter do Homem e do Escritor

Jornal JOÃO SEMANA (15/11/2007)
TEXTO: António Ferreira Valente
Júlio Dinis
A Igreja de S. Francisco, no Porto, foi o local de culto de predilecção de Júlio Dinis durante a sua breve existência. Em frente a esta Igreja viveram os pais do escritor, na antiga Rua do Reguinho, a actual Rua de S. Francisco, na freguesia da Vitória. Nasceu e viveu, aqui,onde passou também a conviver com a morte, que atingiu a sua família e a ele próprio, aos 31 anos de idade.
Contrariamente à opinião de alguns críticos, que consideraram Júlio Dinis avesso à crença em Deus, a sua vida foi atravessada por valores e causas que reflectiam o contrário. Homem de alta moral, sempre foi, isso sim, crítico em relação a alguns que professavam a fé mas que, para ele, contrariavam o pensamento e o belo exemplo de vida de Cristo.
Isso mesmo se reflectiu nos seus registos, nas cartas trocadas com familiares e amigos íntimos, ou nos belos painéis pintados nos seus romances, em que é forte essa componente de homem de fé, mas resistente à hipocrisia da sociedade, seja ela religiosa ou pública. Em quantos momentos de angústia, de tristeza pela perda de mais um elemento da família ou de amigos, Júlio Dinis, no interior da Igreja de S. Francisco, encontrava a paz interior.
Por motivos da demolição de uma vasta zona ribeirinha (…), teve que se transferir, com seu pai, o vareiro Dr. Joaquim Gomes Coelho, para uma casa modesta da Rua de S. João Novo.
O seu irmão, Dr. Guilherme, falecido em 1855, viveu na zona de Monchique, onde deixou viúva sua esposa, com três filhos: Guilherme, Alberto e Ana, ou Anita, como Júlio Dinis a tratava.
Vem para Ovar, em Maio de 1863, por motivo do agravamento da sua saúde, precisamente numa altura em que tudo apontava para a possibilidade da sua entrada como Demonstrador na Escola Médico-Cirúrgica, no concurso aberto em Abril desse ano.
Igreja Matriz de Ovar, que Júlio Dinis frequentou, e em cujo adro observava
as brincadeiras da sobrinha Anita
Na casa da Tia Rosa Zagalo, no Largo dos Campos, onde estava hospedado, recebeu, por volta de Julho desse ano, a sobrinha Anita, a quem acompanhou pelas ruas centrais de Ovar, dando-lhe a conhecer alguns locais com interesse. No átrio da Igreja Matriz, enquanto aguardava pela hora da Missa, Júlio Dinis, à sombra de um plátano, observava as brincadeiras da sobrinha que, com as suas pequenas mãozitas, abria uma cova, e assim se entretinha.
Quarto que Júlio ocupou durante a sua
permanência em Ovar
Já no interior da igreja, Júlio Dinis colocava-se junto à nave direita, num gesto que se repetiria enquanto permaneceu em Ovar, como se o fizesse transportar até à igreja de S. Francisco, no Porto.
Momentos deliciosos e de encanto viveu-os Júlio Dinis quando, após o regresso da Anita a Monchique, se deslocava à Igreja e, estando debaixo daquele plátano, vindo-lhe à recordação a sua sobrinha, agora ausente, tomava a atitude, um tanto discreta (talvez porque não seria entendida por quem o visse), de renovar a covita que ela tinha feito.
Esta cena de extrema ternura – sua mãe falecera de tuberculose quando ele tinha 5 anos de idade –, os afectos maternais que encontrou da parte de sua tia D. Rosa Zagalo e os seus encontros com a ruralidade das personagens com quem conviveu intensamente, fizeram com que em alguns momentos se esquecesse da doença, razão que o tinha trazido a Ovar.
Recordar estes episódios é a melhor homenagem que podemos prestar a Júlio Dinis na passagem do 168.º aniversário do seu nascimento, ocorrido em 14 de Novembro de 1839 na rua do Reguinho, freguesia da Vitória, da cidade do Porto.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE NOVEMBRO DE 2007) 
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/09/julio-dinis-caracter-do-homem-e-do.html 

ADENDA -----------------------------------------

«Quando Júlio Dinis esteve em Ovar, em 1863, tinha a Anita 13 anos. Pouco tempo antes ela ali o visitara. À partida de seu tio do Porto, não se cansou de lhe pedir que escrevesse e desse notícias da terra, recordando-lhe as suas brincadeiras debaixo dos álamos que, ao tempo, ensombravam o largo da Igreja». (Egas Moniz, revista Aveiro e o seu Distrito, n.º 15, Junho 1973)

Aconselhamos a leitura dos artigos publicados no sítio da revista Aveiro e o seu Distrito. (Clique nos links que se seguem).

Antologia Aveirense – Júlio Dinis, por Waldemar Gomes de Lima
http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/Boletim15/page039.htm

Júlio Dinis – O médico das almas simples, pelo Dr. António Tavares Simões Capão
http://www.prof2000.pt/users/avcultur/aveidistrito/Boletim11/Page07.htm

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