8.7.12

Lembrando António Roma da Silva Capoto

Jornal JOÃO SEMANA (15/08/2004)
TEXTO: Joaquim Fernandes dos Santos

António Roma da Silva Capoto (1889-1971)
António Roma da Silva Capoto nasceu em Ovar a 13 de Abril de 1889 e faleceu a 17 de Abril de 1971. Além da sua vida profissional, foi executante das duas bandas de música de Ovar, chegando a ser regente.
Exímio tocador de violino desde os 13 anos, foi também um bom compositor e um excelente professor de música.
Não sendo homem vaidoso na sua vida real, apresenta-se com garbo na fotografia que publicamos, qual general cheio de classe e de galões. De facto, nas suas actuações, fora ou dentro do concelho, sempre se portou com aprumo, procurando honrar a banda e a sua terra natal.
Um belo dia, a pedido de um amigo meu, resolvi dar uma pequena entrevista acerca do passado deste dedicado colega de trabalho na empresa de lacticínios da Família Colares Pinto, no Carregal – Ovar, para onde eu fui trabalhar em 1942, como aprendiz de carpinteiro, sendo ele latoeiro.

Reiseiro
Em 1944 convidou vários operários para integrarem uma trupe de Reis de que ele foi ensaiador no próprio local de trabalho, aproveitando as horas de folga. A letra e a música foram adaptadas por ele.
Apesar dessa trupe de Reis datar de há 57 anos, ainda recordamos os nomes de homens e jovens que fizeram parte dela: António Roma da Silva Capoto, Benvindo Restolho, Chico Penteadinho, Eduardo Penteadinho, Américo Semião, Manuel Canário, Américo Mateus, Zé Pintor, Arlindo Padrela, António Pêgo, Joaquim Valguês, José do Canto, José Canastreiro, António Catoa, António de Cimo de Vila, Chico da Marta, Tomás Soares Couto, Manuel Arouca, José Santos, eu (Joaquim Santos) etc.
Esta trupe de Reis praticamente só apresentou as suas músicas e os seus cantares pelos lugares do Carregal, Marinha e Terra Negra, ou seja, junto à Praia do Areinho e Torrão do Lameiro. Mesmo assim, em tempos de fome, peste e guerra, foram precisos dois jovens para levarem às costas as ofertas dadas pela boa gente que vivia entre o mar e a ria, ofertas essas destinadas à nossa consoada dos Reis, que era de carne e chouriços, tudo bem regado com carrascão e vinho do Porto. (Isto em contraste com as consoadas de Natal e Ano Novo, ambas à base do bacalhau.)
Como a guerra de 39 a 45 não tinha terminado e havia falta de tudo nas nossas famílias, estas ofertas de carne e chouriço eram, em 1944, um maná caído do céu!...

Um homem bondoso
Além de ter sido tudo isto que tenho vindo a relatar, António Roma da Silva Capoto era um homem simples e de bom coração para com os outros, quantas vezes repartindo com os seus colegas mais pobres um pouco do que levava para comer ao meio-dia com o seu filho, no intervalo do trabalho.
Nessa época de guerra, a maior parte dos portugueses, sobretudo das classes mais pobres, tiveram que apertar o cinto, e muito bem apertado, para poderem sobreviver.
Recordo-me de que um dia, na década de 60, já casado e fora da empresa Colares Pinto, tendo resolvido ir à festa de Nossa Senhora do Parto, em Ovar, vi o meu amigo Roma em cima do coreto, como regente de uma das bandas de música locais. Como sempre gostei de música, ali passei a tarde a vê-la actuar.
Quando chegou o intervalo, o meu amigo Roma desceu do coreto para descansar um pouco. Logo aproveitei a oportunidade para ir ter com ele:
 Como vai, Sr. António, a sua saúde? Sente-se feliz com a actuação?
Deu-me um ar da sua graça:
 Tu, Joaquim, como gostas de música, é que deves analisar se a banda tem valor ou não. Aqui o trabalho é de todos nós.
Ao mesmo tempo, vi no rosto do meu amigo Roma um pouco de abatimento. Talvez devido à idade, ou pela tristeza de ter enfrentado o ódio e os ciúmes de alguns dos seus alunos e colegas das Bandas ao longo dos anos, desgostos esses que não foram tão poucos como isso...
Ainda no fim dessa tarde houve oportunidade para lembrar o tempo de menino, a trabalhar com ele na Colares Pinto. E ele desabafou:
 Joaquim, como empresa e como patrões, foram do melhor que havia em Ovar! Mas, amigo Joaquim, antes de eu ter ido para os Lacticínios, já tinha trabalhado em outros lados, como na oficina de um tio meu, junto com os meus primos. Por sinal não me sentia mal com eles, mas confesso que, quando via o meu tio a chamar a atenção aos filhos, ficava com dores de barriga, tal era o rigor com que os tratava.

Banda Filarmónica Ovarense, com António Roma da Silva Capoto (o 4.ª da esquerda)

Uma aventura
A propósito, aqui vai um pouco de uma história passada com um desses seus primos. Um deles, de saco às costas, meteu pernas ao caminho, cirandando por terras de Espanha, França, Cuba, América, etc., sempre clandestinamente, dentro de um barco carregado de corda e de outros artefactos.
Não foi fácil a vida deste homem, assim escondido dentro dos rolos das cordas, sem poder sair. Mesmo assim, ainda teve alguns tripulantes amigos que, ao longo dessa viagem, lhe iam levar um pouco de comida. Mesmo depois de chegar à América, terra dos ricos, a vida não foi para ele um mar de rosas, pois teve de trabalhar no duro durante vários anos, até regressar à sua terra natal.
Valeram bem a sua aventura e os sacrifícios que suportou no seu trabalho da América, país dos ricos e poderosos mandões do mundo inteiro.
Conheci este homem quando morei no Alto de Saboga, junto à antiga cadeia, residindo ele na Rua Dr. Manuel Arala. Depressa me apercebi de que era homem de dinheiro e de negócios. De acordo com os ditados que dizem “dinheiro faz dinheiro” e “quem não arrisca não petisca”, começou logo a construir umas pequenas casas para arrendar a outros, casas estas que foram erguidas entre o Hospital e a cadeia de Ovar, em terrenos da sua própria quinta. Ali vivem, ainda hoje, os seus descendentes, que respeitam a memória de seus pais e compreendem os contratempos que eles passaram para lhes deixarem alguns bens.
Esse homem, de nome Luís Coelho Capoto, veio da América saturado de trabalhar, mas com um considerável pé-de-meia. Mesmo assim, e apesar de bem situado na vida, nunca deixou de trabalhar de sol a sol, ao mesmo tempo que ajudou alguns empreiteiros a crescerem na vida, como o Chico Panela, o David Pode, etc.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE AGOSTO DE 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/07/lembrando-antonio-roma-da-silva-capoto.html

2 comentários:

Maria disse...

Como me lembro do senhor Roma! Tinha uma grande paciência com os miúdos. Fazia-nos brinquedos com restos da lata dos canados. Pratos, tachos, até talheres. Tudo limado e polido, para não nos cortarmos.
Gostava de o ver nas belas procissões, fardado.
Tempos de há 60 anos. Ele morreu. Mas lá, onde está a tocar para os anjos, saberá que a "Maguinha" não o esqueceu.
Maria Águeda Colares Pinto.

Maria disse...

Senhor Joaquim Fernandes dos Santos,
Quanto tempo trabalhou na quinta? Gostava de saber mais de si.
As saudades desse tempo, são muitas.
Lembro-me da Mª do Céu e da Céu, da manteigaria, do António Patôa da caseína, do Mário Serrano, João Fonseca, José Ferraz, da Galalite, do Florêncio e da MªTorres, do padeiro Joaquim Ventura. Todos me trataram bem, de todos gostei. Brinquei com os filhos deles e ainda sou amiga de alguns.
Desculpe o testamento. Quando falo na quinta na ria, a saudade faz-me chorar.
Maria Águeda Colares Pinto