16.6.12

Culto judaico em S. Vicente de Pereira? [Aron Hakodesh / Ekhal]

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Há cerca de 30 anos, de visita à casa do Padre António da Silva Martins, em S. Vicente de Pereira (junto à Capela de S. Geraldo), Ovar, tive o ensejo de visitar uma secular moradia que lhe coubera em herança (1) e onde se encontrava uma atafona desativada .
Para além do engenho e do moinho instalados no pátio da casa, a minha curiosidade foi aguçada pela singularidade da habitação que, contando alguns séculos, se apresentava em avançado estado de ruína, desde os currais (atual entrada principal) à cozinha (com o forno semidestruído) e à sala contígua, onde, frente à porta de entrada, existe um nicho de pedra de configuração estranha, embutido na parede – e portanto coeva da construção –, peça que então fotografei para memória futura.
Casa rústica em S. Vicente de Pereira, onde se terá praticado o culto judaico
Interior da sala com janela para a rua

A sala (à esquerda) onde se encontra o armário da Lei (Aron Hakodesh)
e os restos da cozinha (à direita)
O Aron Hakodesh (armário da Lei), com duas secções: a de cima para guardar o Livro
Sagrado, a Torah, ou Livro da Lei; a de baixo para guardar outros objetos de culto; ao alto, a cruz cristã, como nítido acrescento, identificadora da religião que, como cristãos novos (antigos judeus sefarditas) adotaram

Em uma ou outra visita posterior, e ao rever aquele imóvel, foi-me convencendo de que, mais do que um utensílio caseiro – um armário, por exemplo –, se trataria de uma estrutura religiosa, pondo mesmo a hipótese, pela sua configuração, de estar ligada ao culto judaico. Mas como poder imaginá-lo, se estávamos em S. Vicente de Pereira, uma terra profundamente católica? E desta dúvida se foi alimentando a minha curiosidade.
Há poucos dias, ao confrontar-me, uma vez mais, com a fotografia daquele achado, resolvi avançar no seu estudo, consultando a Internet.
Com a ajuda do jornalista Dr. Fernando Pinto, ao serviço do jornal “João Semana”, logo surgiu, em primeira busca – imagine-se a capacidade das novas técnicas –, no sítio dedicado a pesquisar imagens relacionadas com o judaísmo, uma estrutura arqueológica semelhante à de São Vicente de Pereira.
Fiquei com a sensação de que, finalmente, estava decifrado o enigma:
Tratar-se-á de um Aron Hakodesh, armário onde os judeus guardam, na divisão inferior, os rolos da Torah (Pentateuco ou Livros da Lei, para serem lidos durante o culto religioso), e na divisão acima o Menorah (candelabro de sete braços ou lâmpada perpétua).
Em posterior visita à casa, e depois de uma limpeza superficial, pude observar na divisão inferior, levemente escavados, os dois pequenos círculos paralelos habitualmente usados nestes armários como encaixe dos dois eixos em que giram os rolos da Lei, e pude constatar que a divisão seguinte, onde é colocada a Minorá, é completamente lisa.
Os dois pequenos círculos para sustentar os rolos
Seria esta a configuração normal do Aron Hakodesh (ou Ekhal, na designação ibérica), que deveria ser tapado por portadas de madeira ou por uma cortina.
Nesta peça de S. Vicente de Pereira, porém, existe, ao alto, uma cruz esculturada, de cuja presença só nos apercebemos após a última visita (foto de baixo).
Trata-se de um sinal cristão revelador de que se tratava de uma família de judeus convertidos (cristãos novos, ou "marranos") que, tendo-se refugiado aqui com receio de perseguição, aqui viveram como católicos, mas mantendo, quem sabe, clandestinamente, as suas práticas judaicas.

Esperamos que os peritos na matéria estudem e confirmem a autenticidade deste achado, capaz de chamar a São Vicente de Pereira os curiosos da arqueologia e das tradições judaicas em Portugal, e, quem sabe, para descobrir o nome da família que, para evitar a exposição pública dos grandes centro populacionais, se terá refugiado nesta terra pacata, aqui mantendo alguns cerimoniais da sua religião de origem e uma sã convivência com a população local, e, possivelmente, misturando o seu sangue e os seus genes com o sangue e os genes dos vicentinos, tal como aconteceu por todo o país, particularmente nas Beiras, onde algumas terras com tradições marcadamente cripto-judaicas se vincularam, em 10/03/2011, numa rede de Judiarias de Portugal.

1- Cozinha; 2- Sala do armário da Lei; X (Aron Hakodesh); 3- Alpendre; 4- Estábulo; 5- Arrumos; 6- Atafona; 7- Moinho

Esta planta faz parte de um Levantamento feito em 2006 pelo Arquiteto Paulo Paiva Fonseca,
de S. Vicente de Pereira, como proposta de Quinta Pedagógica a implantar no quintal da casa,
respeitando a traça dos antigos edifícios. A fotografia mostra a janela rústica da cozinha
O pátio da casa, vendo-se o poço, o alpendre (3), o estábulo (4), arrumos (5), atafona (6)
e moinho
(7). Um pouco mais à esquerda ficam a cozinha (1) e a sala (2)
Atafona de S. Vicente de Pereira (Ovar). 
Engenho de moer grão, movimentado por tração animal, em ruínas 
A mó da atafona de S. Vicente de Pereira 

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Notas:
(1) Pertencera a seu tio, Padre Dr. Domingos Oliveira Martins, que foi Juiz em Miranda do Douro, Alijó, Lamego, Torres Vedras e Arouca. Tendo sido promovido a 2.ª classe, faleceu no Porto em 13 de abril de 1951, com 61 anos, na véspera de entrar no exercício do mesmo cargo em Penafiel. Cursou Teologia no Porto e Direito Civil em Coimbra. Era filho de António Martins de Oliveira e de Maria Rodrigues de Jesus, neto paterno de Manuel Martins de Oliveira (de Válega) e de Ana Maria Gomes da Conceição (de Cássemes, de S. Vicente de Pereira), e materno de Manuel da Silva Terra (S. Martinho da Gândara) e de Maria Rodrigues Marques (de S. Vicente).

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2012)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA


ADENDA -----------------------------------------

Confirmação de culto judeu em S. Vicente de Pereira

Elvira Meaprofessora da Faculdade
de Letras da Universidade do Porto 
Como esperávamos, a convicção de que em S. Vicente de Pereira se praticou o culto judaico numa casa rústica, como foi referido no “João Semana” de 15/06/2012, tornou-se-nos mais fortalecida pela palavra autorizada da historiadora Elvira Mea, quando, na manhã do dia 26 de outubro, visitou a sala onde se situa o achado arqueológico por nós sinalizado.
A ilustre visitante mostrou-se surpreendida pelo facto de toda a estrutura daquela casa de lavrador rico de há três ou quatro séculos, apesar de se encontrar em ruínas, ter conservado o seu traçado original, e  de o “altar” se manter praticamente intacto, aconselhando como trabalho urgente, e antes de uma próxima visita, uma investigação pormenorizada dos elementos em causa e uma prospeção cuidada do solo, trabalho este a ser efetuado pelo arqueólogo Gabriel Rocha.  M. P. B.
(Jornal "João Semana", 1 de novembro de 2012)


Rabino visita Ekhal de S. Vicente de Pereira
Um rabino erudito vindo de Israel esteve, no passado dia 16 de novem­bro, em S. Vicente de Pereira (na foto), a fim de observar o achado que apresentámos a público no jornal “João Semana” de 15 de junho de 2012 como local de culto judaico, asserção que a Professora Elvira Mea e outros peritos portugueses viriam a confirmar.

Rabino Daniel Litvak, da comunidade judaica do Porto,
 visitando o ekhal de S. Vicente de Pereira, Ovar

O ilustre visitante mos­trou-se profundamente sensibilizado perante a forma original e genuína deste oratório, a que os judeus dão o nome de Aron Hakodesh (arca sagra­da) e a que os marranos (judeus convertidos da Península Ibérica, a partir de D. Manuel I) chamavam Ekhal (arca ou tabernáculo).
Este lugar de culto, que se assemelha a cerca de uma dezena de outros existentes em Portugal, apresenta dois planos, sendo o inferior destinado a guardar o Livro Sagrado (a Torah), e o de cima a expor o candelabro de sete braços. M. P. B.


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Elvira Mea e o Rabino indicando o lugar onde se
encontrava afixada uma mezuzá (caixa que guardava
um pergaminho com passagens da Torá)
Altar judaico em S. Vicente de Pereira – Por que se espera?

Muitas perguntas nos têm sido formuladas acerca do velho edifício de São Vicente de Pereira onde existe um armário sagrado – Ekhal – onde se praticou, há alguns séculos, o culto judaico, antes ou depois da expulsão dos judeus por D. Manuel I (1496-1497).
Refira-se que este Ekhal, por nós sinalizado há vários anos e por nós identi­ficado publicamente no “João Semana” de 15 de junho de 2012, com o título “Culto judaico em S. Vicente de Pereira?”, apre­senta, sobreposto aos dois espaços regu­lares – cada um deles em forma de arco (o de cima para expor o rolo da Lei e o de baixo para guardar elementos litúrgicos) –, apresenta, dizíamos, um terceiro espa­ço, ao alto, destinado à cruz [na foto], ali implan­tada como sinal de adesão (consciente ou dissimulada) à religião católica. (Esta particularidade, muito utilizada durante o tempo da perseguição aos judeus, é hoje muito raro encontrar-se, pelo menos com a dimensão e a visibilidade deste exem­plar ovarense.)
O Ekhal e ao lado esquerdo vestígios da mezuzá
Entendemos ser tempo de fornecer aos nossos leitores algumas considera­ções complementares sobre este espaço arqueológico que, como na devida altura noticiámos, mereceu, por parte de peritos na matéria, referências tão calorosas como responsabilizadoras. Calorosas quanto à descoberta em si, e respon­sabilizadoras quanto à urgência da classificação oficial deste Ekhal, único na nossa região. (Os mais próximos situam-se no Porto e no Buçaco.)
Interior da porta de entrada, com umbral onde
se veem dois rasgos na pedra que serviriam de ritual
para os judeus que vinham do exterior
Segundo Jorge Martins, autor de “Portugal e os Judeus”, esta peça “tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo”, sendo “imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer”.
Sabemos que os atuais proprietários estão sensíveis ao desejo das autarquias locais de preservarem este original espólio de acordo com as normas vigentes que regem esta matéria.
Espera-se, por isso, que através dos legítimos possuidores ou através de protocolos entre os mesmos e as entidades competentes, sejam iniciadas as diligências indispensáveis para o levantamento arqueológico reco­mendado, em 26 de outubro de 2012, pela Professora e Historiadora Elvira Mea, da Universidade do Porto, e para o início do estudo e das obras de consolidação do edifício.

Da parte da Rede das Judiarias Portuguesas, e sabendo-se do interesse que os seus responsáveis manifestam em preservar as memórias judaicas em Portugal – tanto mais que contam com a ajuda de instituições interna­cionais –, espera-se o seu empenho em colaborar neste projeto cultural.

À Câmara Municipal, bem como à Junta de Freguesia de S. Vicente de Pereira (ou à futura União de Freguesias) competirá assegurar a defesa e o aproveitamento deste notável achado, que, pelas suas características históricas e arqueológicas, muito virá valorizar a Rede Museológica de Ovar. (Texto: Manuel Pires Bastos, publicado na edição de 1 de outubro do jornal "João Semana").

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Altar judaico exige intervenção


Vinda de Coimbra, este­ve em Ovar em 23 de fevereiro uma Técnica em Património (na foto) para reconhecimen­to do altar ju­daico por nós identificado há três anos (“João Semana” de 15/06/2012) e, posteriormente, observado por peritos na matéria, entre os quais Elvira Mea, da Uni­versidade do Porto, e Daniel Litvak, Rabino da Comunidade Judaica da mesma cidade.



O edifício, de propriedade particular, é modesto, mas rico em his­tória. Desabitado há mais de um século, degrada-se a olhos vistos, com telhados abatidos. Ao menos a sala de culto (janela, na foto), considerada um exemplar excecional do criptojudaismo, merece – exige – uma rápida intervenção para que não se perca este património de interesse nacional.

Texto e foto: M. P. B.

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Jorge Martins
De Jorge Jorge Martins, do sítio "Portugal e os Judeus", recebemos o seguinte comentário, que desde já se agradece:
"Parabéns, fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a câmara assim o entender).
Bom trabalho! 
Jorge Martins"




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4 comentários:

Jorge Martins disse...

Parabéns, fizeram um ótimo trabalho. Essa casa (esse conjunto) tem um valor inestimável para os estudos do criptojudaísmo. É imperioso recuperá-la, dignificá-la e dá-la a conhecer. Inclusivamente, contactar com a Rede de Judiarias (se a câmara assim o entender).
Bom trabalho!
Jorge Martins

Fernando Pinto disse...

Obrigado, Jorge Martins.

José da Conceição Afonso disse...

Todo o conjunto merece ser restaurado. O armário, pelas suas características afigura tratar-se de um Heckal judaico e como tal é uma descoberta do maior interesse histórico. Desde já deve ser inventariado pela Rede das Judiarias de Portugal.

Arqt.º José da Conceição Afonso

Unknown disse...

Caro Fernando Pinto:
Ccomo Secretário Geral da Rede de Judiarias de Portugal venho saudar mais esta fantástica descoberta. A última havia sido no Caramulo. Parabéns. Creio podermos vir a ajudar para o futuro.
Deixo também o meu telefone: 964166982
As minhas melhores felicitações. Assim vamos recuperando a história do nosso Portugal.
Jorge Patrão