17.4.12

O chafariz do Largo Família Soares Pinto

Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2011)
TEXTO: Joaquim Fidalgo

No largo do chafariz Neptuno ficava a casa da família Teixeira de Pinho

O chafariz que ornamenta o centro da cidade de Ovar completou, há pouco tempo, 134 anos, já que foi inaugurado no dia 8 de julho de 1877, presidia à Câmara Municipal o Dr. Manuel Arala e Costa, do partido regenerador. (Bonita idade para quem deu de beber aos ovarenses por mais de um século!)
Antes da descoberta da mina no Sobral – a “Mãe d’Água” –, o povo vareiro recorria a algumas fontes existentes na vila, ou aos poços que abriam nas suas propriedades.

A "Mãe d'Água"
Mãe d'Água (Sobral, Ovar)
A descoberta da Mãe d’Água, com água suficiente para abastecer a vila, alterou o paradigma da vida diária dos ovarenses, mas não se pense que tudo foi pacífico. De facto, o projecto de encanamento e de localização do chafariz, que hoje é um lugar de referência no centro histórico da cidade e que ao longo de um século e meio tem sido um ex-libris de Ovar e um lugar de encontro de gerações que se reúnem para cavaquear, foi palco de guerras políticas entre os partidos regenerador e progressista, que se batiam por projectos políticos antagónicos.
No alto do seu pedestal, Neptuno, o deus dos mares, continua imponente, a olhar o formigueiro humano que num vai e vem constante, ao longo de mais de um século, contribuiu para o crescimento da malha urbana.
O engenheiro António Ferreira de Araújo e Silva, natural de Oliveira de Azeméis, autor do projeto de encanamento e chafarizes, introduziu-lhe uma inovação: em caso de incêndio, toda a água podia ser canalizada para o chafariz mais próximo.
O livro de atas n.º 30 da Câmara Municipal de Ovar regista esse dia histórico da inauguração do chafariz principal. A folha 82, frente, está em branco, provavelmente à espera de recolher todos os factos ocorridos nesse dia histórico para a vila. O verso contém as assinaturas de 28 individualidades que marcaram presença nesse importante evento, e que, de uma forma ou outra, estiveram ligadas a esta obra de grande impacto local. São elas:
Manuel d’Oliveira Arala e Costa (Presidente), Silvério Augusto Pereira da Silva, António Ferreira de Araújo e Silva (Eng.), Manuel José Pereira Valente (?), João Honorato da Fonseca Regala (Eng.), Francisco d’Assis, Manuel Marques Pires (Abade de Válega), Manuel Duarte Camossa (Abade de Ovar), Agostinho O. Pinheiro……, José Ferreira d’Araújo (vereador), Francisco Pereira da Cunha e Costa (Administrador do concelho), Joaquim Pereira de Magalhães (da Polícia Correcional), Augusto César d’Almeida Pinto de Sousa (Vogal do Tribunal), António Maria d’Oliveira Dias (representante da Contribuição Predial), Domingos Manuel Oliveira Arala, Francisco Joaquim Barbosa de Quadros (vereador), Manuel Augusto da Silva (vereador), Joaquim Maria Pereira Baldaia (vereador), José da Silva Figueiredo (vereador), Manuel Fernandes Leite (vereador), Manuel Bernardo de Carvalho e José de Sousa Azevedo (vogais do Conselho Municipal), Fortunato Ferreira Vidal, Manuel Costeira Dias, Antero Garcia d’Oliveira Cardoso Baldaia (licenciado em Direito), José de Oliveira Vinagre (Tesoureiro do Concelho), José Baptista d’Almeida Pereira Zagalo (Juiz), António José da Silveira (Regedor).
O presidente informou a Câmara da descoberta de uma mina de água com um manancial suficiente para abastecer a vila, então com 10 374 almas (sessão camarária de 2 de maio de 1876), sendo das freguesias mais populosas do distrito de Aveiro.

Um processo difícil...
De 27 de junho de 1874 a 8 de julho de 1877 um longo caminho foi percorrido. Com normalidade, mas arrastando um processo político e judicial.
Para a câmara concretizar este projeto foram feitos dois empréstimos (no valor de 8 mil reis) a dois negociantes: José d’Oliveira Vinagre, do Picoto, e Manuel d’Oliveira Barbosa, das Ribas, e para a construção do chafariz naquele local, considerado ideal para o efeito, foi necessário expropriar uma casa da família Teixeira de Pinho, que formava uma ilha no centro da vila, e cujos proprietários, ligados à medicina e à boticária, eram D. Rita Rosa Teixeira de Pinho, viúva, sua filha D. Maria Lúcia Fonseca, e seu genro Manuel Álvares Martins Fonseca.


Chafariz Neptuno - Ovar
Na sessão camarária de 2 de maio de 1876, em resposta a um ofício do governo civil ao administrador do concelho, a Câmara, em longa missiva, justifica a necessidade do encanamento das águas para o centro da vila baseada nas políticas contemporâneas de salubridade, e informa também que as obras estão a correr com normalidade.
Eis alguns extratos desse importante documento:
(…) Mandou a câmara proceder à construção da artéria principal do encanamento bem como a exploração de águas (…) todas estas obras estão concluídas desde a origem ate a praça, principal centro da vila trata-se actualmente dos chafarizes e suas pequenas ramificações. Dois estão prontos de cantaria aparelhada e vão ser assentes e outros dois estão em via d’execução (…) estão em projecto outros dois chafarizes (…). Todo o projecto do abastecimento está subordinado a um plano único. De entre os chafarizes há um que pela sua posição central aproximação das repartições públicas e funções que tem a exercer merece menção especial. Com efeito este chafariz tem de ser não só o centro da distribuição d’ águas para os incêndios (...) Está esta obra projectada de modo que no momento dado toda a água do abastecimento converge ao chafariz mais próximo do sinistro. (…) E perante uma planta geral de todas as ruas e largos (…) foi escolhido o ponto onde actualmente está uma casa pertencente a D. Rita (…) esta escolha foi feita pelo respectivo engenheiro distrital e aprovada pela câmara (…) o desaparecimento desta casa dá origem a um magnífico largo para colocação do chafariz principal. Fica assim optimamente situado tendo nada menos que cinco ruas convergentes (…).
 A câmara teve que depositar 2 800$000 para usufruir do imóvel. Assim, a 8 de setembro do mesmo ano, foram postos em hasta pública todos os materiais da casa expropriada, “no cruzeiro da Graça desta vila”, tendo auto de arrematação em cinco de outubro de 1876): “(…) e havendo vários lanços foi o ultimo e maior o de José Marques dos Santos, viúvo, esteireiro da rua direita das ribas que ofereceu pelos ditos materiais a quantia de duzentos mil reis (…).”
Os anos de 1876 e 1877 foram de convergência de esforços financeiros, focados na conclusão das obras e sua inauguração, que terá sido feita com pompa e circunstância, como nos conta o Dr. Alberto Lamy na Monografia de Ovar: “(…) E a 8 de julho de 1877é festivamente inaugurado o formoso fontanário em pedra da Ançã (…).
A política em pequena escala seguida nos Paços do Concelho de Ovar não variava muito das políticas que as câmaras com maior poder económico executavam. Enquanto, na cidade do Porto, a câmara expropriava um conjunto de habitações para construir a nova rua d’Alfândega, em Ovar a câmara expropriava a casa onde veio a levantar-se o chafariz, e protagonizava um conjunto de investimentos em melhoramentos materiais em espaços urbanos que deram identidade à vila.
Chafariz Neptuno, Ovar
FOTO: Fernando Pinto
No 3.º volume da Monografia (1865-1916), o Dr. Alberto Lamy baliza assim o espaço temporal durante o qual aquele chafariz presenteou o povo com o abastecimento de água aos seus conterrâneos:
Ovar, de 8 de julho de 1877 a 24 de junho de 1966 – isto é quase durante um século! – foi abastecida pelos chafarizes aralistas. Nesta última data (1966), foi inaugurado o novo abastecimento de água a Ovar, que se deve à câmara presidida pelo Dr. José Eduardo de Sousa Lamy.”  

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE SETEMBRO DE 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/04/o-chafariz-do-largo-familia-soares.html

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