26.4.12

Edwiges Helena Pacheco (1929-2012)

D. Edwiges em 24 de abril de 2010,
no Auditório da Contacto, 
com o Grupo Coral 4x4 da Academia
 de Artes Maria Amélia Dias Simões.
FOTO: Fernando Pinto
Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Grande artista e grande mulher.
Como artista, poderia ter ido muito longe numa carreira musical de sucesso. Porque também foi mulher, sacrificou a sua vocação artística em favor da sua família e da sua terra, a quem ofereceu muito da sua arte e do seu coração.
Ficará na história de Ovar como alguém que contribuiu de forma excecional para a cultura deste povo, sobretudo no campo da música, do ballet e do teatro.
Como Pároco, refiro também a sua disponibilidade e colaboração com a Paróquia, desde a sua Juventude, e dou testemunho da sua grande fé, bem patente na qualidade das letras e das músicas que compôs, ao longo de dezenas e dezenas de anos, para a quadra do Natal, muito contribuindo para o encanto e o prestígio da bela tradição dos Reis em Ovar.


D. Edwiges Helena Pacheco deixou-nos

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: Aníbal dos santos Gomes

Ovar ficou mais pobre com a morte, em 18 de abril último, de uma das mais ilustres vareiras, Edwiges Helena Gondim da Fonseca Pacheco, que contava 82 anos.
Com um currículo invejável na música e na dança, iniciou os seus estudos musicais com sua mãe, a saudosa Maria Amélia Dias Simões (com curso superior de Piano do Conservatório de Música do Porto), continuando esses estudos no Colégio de Nossa Senhora da Paz, em Famalicão (Anadia).
Mais tarde, cursando Canto com a Professora do Conservatório do Porto D. Stella da Cunha, e sob a Direção do Prof. Álvaro Calado, fez parte do Coral do Conservatório (que tomou parte no Festival Mundial de Llangolhen, no País de Gales, onde se classificou em 2.º lugar), tendo sido seguida pelos maestros John Barbirolli e Gwen Williams, e tendo cantado na BBC de Londres.
Foi solista no Orfeão do Porto, sob a regência do maestro Nina de Andrade, cantou no Teatro Nacional de S. Carlos, sendo ouvida pelo cantor Gino Becchi e cursando o 1.º anos Superior de Canto no Conservatório de Música de Lisboa, onde trabalhou com o Professor Oliveira Lopes.
No Orfeão de Ovar foi solista, sob a regência de sua mãe, e, mais tarde, maestrina do mesmo Orfeão durante 17 anos, criando ali uma Escola de Música, o Coro Infantil, o grupo de teatro Infantil e o Ballet (em parceria com sua mãe).
Edwiges Helena Pacheco
A convite, cantou no Coral Vera Cruz, de Aveiro, sob a regência do maestro Duarte Gravato, na Emissora Nacional pela mão do maestro Resende Dias; nos “Serões para Trabalhadores” da antiga F.N.A.T., nos Fenianos do Porto, no Ateneu Comercial do Porto (interpretando parte da ópera “La Bohème”, juntamente com Amnerose Gilleck, ao tempo sua professora, António Magalhães e José Castro, interpretando “Musetta”, sob a direção do maestro Guther Arglebe).
Tirou o curso do Conservatório de Música na Academia de Espinho e no Conservatório do Porto, e frequentou o curso de Português-Francês na Universidade de Aveiro, concluindo no Porto o Curso Superior de Francês.
Foi professora em vários Ciclos Preparatórios e em Escolas Particulares, tendo sido também, durante vários anos, funcionária administrativa da F. Ramada, em Ovar.
Dirigiu o orfeão de Santa Maria da Feira, colaborou em vários recitais por todo o país, e teve um programa de música erudita na Rádio Moliceiro, em Aveiro.
Durante 58 anos foi ativa propagadora da tradição dos “Reis”, elaborando dezenas, senão centenas de músicas e letras, além de apoiar os grupos nos ensaios.
Escreveu para Teatro vários trechos musicais, atuando nos Estados Unidos por duas vezes como cantora e artista de Teatro, e em Luanda, na Rádio Clube de Angola, sob a regência do maestro Jaime Mendes, e em vários teatros daquela cidade.
O seu funeral realizou-se em 19 de abril, da Capela de Nossa Senhora da Graça para o Cemitério de Ovar, tendo presidido ao cerimonial religioso o Pároco de Ovar, que realçou a atividade artística e a peculiar espiritualidade da extinta.
Paz à sua alma e condolências à família enlutada, de um modo especial a seus filhos Luís
Filipe, Rogério Paulo e Maria Alexandra R. Pacheco.


Floresceu mais uma estrela no céu

Jornal JOÃO SEMANA (01/05/2012)
TEXTO: Fernando Manuel Oliveira Pinto

“Quando eu andava a tirar o curso Superior de Canto, havia uma canção que, acima das outras, me encantava. Chamava-se (e chama-se) “Morgen” (Manhã) e é da autoria do grande Richard Strauss. A letra é um cântico de ternura, quase um lamento. Foi essa canção que mais uma vez me comoveu quando a Clara se foi embora. (...) Que teria sentido quando adormeceu para sempre? Saudade? Tristeza? Alívio? Curiosidade? Alegria? Eu sei lá! Duma coisa eu tenho a certeza: se a alma se separa deste invólucro que não é mais do que um monte de ossos e músculos, para onde é que ela foi? Adivinho: voou, olhando, curiosa, a imensidão. Passou, rasando as águas, pelo seu Furadouro, aos primeiros raios de Sol. E foi-se com as andorinhas e com as gaivotas…” (Edwiges Helena, in “João Semana” de 15/11/2002)

D. Edwiges Helena Pacheco, em 2009, com João Costa e o Padre Manuel Pires Bastos,
após ter recebido em sua casa a trupe de Reis JOC-LOC

FOTO: Fernando Pinto
Passados quase 10 anos do desaparecimento de sua prima Clara d’Ovar – outra grande senhora de quem os ovarenses sentem orgulho –, chegou a vez de D. Edwiges voar como se fosse uma andorinha rasgando o céu primaveril, sem nunca se cansar, encantando as pessoas com o seu estonteante bailado.
Nascida em 7 de outubro de 1929, no Rio de Janeiro, D. Edwiges Pacheco deixou-nos aos 82 anos de idade. O que terá sentido quando voou em direção à luz? Permitam-me que responda com uns versos que escreveu em 1990 para a trupe do Orfeão de Ovar: “Quem sabe lá se as estrelas doiradas / São vozes lindas que já nos deixaram?”

Edwiges Helena no Centro de Arte de Ovar
FOTO: Fernando Pinto
Ovar viu florescer, em 18 de abril último, mais uma estrela no firmamento, disso não temos qualquer sombra de dúvida, até porque almas sensíveis como a de D. Edwiges Helena merecem ser para sempre recordadas...
Nas três últimas edições da revista REIS demos a conhecer algum do seu trabalho como letrista, herança de sua mãe, D. Maria Amélia Dias Simões (1900-1977). Em “Letras com toque feminino” (REIS/2010), podem ler o testemunho desta artista que alimentou durante mais de quatro décadas as trupes reiseiras. Em 15/10/2010, no Centro de Arte, a Academia que tem o nome de sua mãe prestou-lhe um tributo pela sua carreira (na foto).
Fui à procura dessa “Manhã” de Richard Strauss de que falava D. Edwiges quando da homenagem que o nosso jornal fez a Clara d’Ovar em 2002, e, enquanto ouvia o lamento do violino, lembrei-me do dia em que estivemos em sua casa para entrevistarmos o seu primo Zéni d’Ovar, grande fadista e homem do Cinema, que nos últimos anos acolheu em sua companhia. Para além de se ter revelado uma grande anfitriã, naquela tarde tivemos a oportunidade de a ouvirmos falar com doçura do seu avô, o poeta António Dias Simões (1870-1922).
Aqueles que não privaram com D. Edwiges vão poder descobrir nessa melodia de Strauss um pouco da ternura que lhe invadia a alma quando falava da sua gente, da sua querida e amada Ovar.
Que a nossa terra nunca se esqueça destes seus filhos, destes revérberos que transformam o nosso mar numa espécie de paleta doirada...

Artigos publicados no jornal JOÃO SEMANA (1 DE MAIO DE 2012)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/04/edwiges-helena-pacheco-1929-2012.html

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