16.3.12

"O Uso das Coisas" – A RODILHA

A rodilha
FOTO: DAQUI
Jornal JOÃO SEMANA (15/09/2009)

TEXTO: Fernando Pinto

A partir deste número vamos trazer para esta rubrica, onde os leitores podem colaborar,  alguns objectos que se revelaram muito úteis no dia-a-dia dos nossos pais e avós. Quem não se lembra das cangalhas dos pescadores, do fuso e da roca, da sovela do sapateiro, do tear das tecedeiras, da moega do moinho, ou da canga vareira? Para começar, peguei na rodilha.

O que é e para que serve este pequeno objecto? Para aqueles que nasceram no século XX, não será difícil responder a esta questão. Todos sabem que a rodilha (ou “sogra”, como também é conhecida), é uma pequena almofada em forma circular, aberta no centro, ou um simples pano enroscado em que assentam os objectos que se levam à cabeça. As mais elaboradas eram feitas de trapos, lãs e linhas de bordar, entrançadas e bordadas.

A rodilha na cabeça de uma "peixeira de Ovar"
 (I Desfile de Trajes do Concelho de Ovar: o Trabalho e as Artes - Ovar, 16 de Outubro de 2011) 
E os mais novos, será que já tinham ouvido falar neste objecto curioso em forma de “donut”? Era eu ainda criança quando vi, pela primeira vez, junto ao chafariz Neptuno, o “Rei dos Mares”, uma rodilha a coroar a cabeça de uma peixeira. Agachada, a senhora, vestida de negro da cabeça aos pés, pegou na canastra e, para aliviar o peso que transportava, colocou-a em cima desta pequena almofada, soltando, logo ali, o habitual pregão:
– “Carapau do nosso mar!...”
E lá continuou, num passo cadenciado, a calcorrear as ruas da cidade.

"VARINA" - quadro de Eduardo Malta - 1942
(A figura é Irene dos Santos Ramiro, natural de Lisboa, casada
com Dionísio Gomes Ramiro, de Ovar. D. Irene veio viver
para esta cidade, onde faleceu na Rua Visconde de Ovar,
em 1977, com 68 anos)
Há dias, o mesmo pregão fez-se ouvir na minha rua. Fui ao seu encontro e descobri uma senhora a vender peixe... com um carrinho de mão. Perguntei-lhe se tinha uma rodilha em casa para que eu a pudesse fotografar para um artigo que estava a escrever. Respondeu-me que não, mas que conhecia uma pessoa que ainda devia ter uma. (A rodilha, pelos vistos, passou à categoria de objecto raro, até mesmo para as vendedoras de peixe. Sinais dos tempos...) 
Não eram só as peixeiras que as usavam. Antigamente, como não havia água canalizada, as mulheres iam à fonte ou ao chafariz com os seus cântaros e bilhas, e a rodilha não podia faltar. Como também fazia companhia às lavadeiras do rio das Luzes, às mulheres que iam à lenha ao pinhal, às lavradeiras que transportavam as cabaças à cabeça, às leiteiras da Ribeira, ou até mesmo às senhoras que carregavam os instrumentos dos músicos quando as Bandas iam actuar nas festas que se realizavam nas redondezas.
Ultimamente, só as vislumbro nos festivais de folclore que se fazem por aí, especialmente no Verão, altura em que somos inundados por olhares sedentos por estas coisas da Etnografia.
Para terminar, aqui deixamos um aforismo adequado ao tema: “Quem não pode com o pote não pega na rodilha”. Pelo menos, para que o leitor mantenha por muito tempo a rodilha na cabeça...

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE SETEMBRO DE 2009)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/03/o-uso-das-coisas-rodilha.html

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