8.3.12

O Padre António Rodrigues Conde

Um vareiro que trabalhou com Madre Rita

Jornal JOÃO SEMANA (15/06/2006)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

Padre António Rodrigues Conde,
aquando da sua Missa Nova
De Ovar a Paramos
O Padre António Rodrigues Conde, natural de Ovar e ordenado sacerdote em 1890, foi nomeado Pároco Encomendado de Paramos em 1893, logo se movimentando para a criação de um colégio para educação de meninas, por saber quanto a instrução cívica e religiosa era fundamental em qualquer comunidade. Isso tornou-se possível graças ao apoio de uma benemérita paroquiana, Maria Maia de Jesus, do lugar da Poça (falecida em 11/04/1957, com 86 anos) (1).
Para assegurar a orientação do Colégio, o Padre Conde convidou as religiosas Franciscanas de Nossa Senhora da Conceição (Irmãs Franciscanas Hospitaleiras), uma das poucas Congregações que, por serem estrangeiras e se dedicarem à assistência social, podiam existir em Portugal.
Acedendo ao pedido, começaram por sensibilizar a população para o projecto do Pároco, levando o povo a colaborar na edificação do edifício com materiais, donativos e mão-de-obra, e a participar nas reuniões de formação espiritual que faziam na sacristia da Igreja, com a permissão daquele sacerdote, apesar da oposição de uma facção política adversa, que chegou a manifestar-se contra os apoiantes da obra e contra o pároco (2).
No Colégio, concluído em 1897 (3), e dedicado ao Coração de Jesus (4), continuou, a par das actividades com as crianças, a formação dos adultos, com retiros frequentes, a que acorriam grupos de pessoas das redondezas.
Assim aconteceu até 1903, ano em que as Irmãs Franciscanas se ausentaram, deixando nas mãos do seu Director, o Padre Conde, um Colégio órfão de mãe (5).

O Instituto Jesus Maria José
Conformado, mas não vencido, o Padre Conde voltou-se para Madre Rita Amada de Jesus, então a viver nos seus conventos de Tourais (Seia) e Louriçal do Campo (Castelo Branco), solicitando-lhe a colaboração do seu Instituto. [CLIQUE NO LINK A AZUL]
Este pedido terá calado bem fundo no coração de Madre Rita, que na sua juventude percorrera estas terras do sul do Douro, e até por lhe proporcionar uma excelente oportunidade para implantar a primeira casa da sua Congregação na Diocese do Porto.
Se a resposta não foi tão pronta, isso ficou a dever-se à falta de religiosas. Mas a situação melhorou com o surgimento de novas vocações (6), e Madre Rita abalançou-se, em 1905, à reestruturação do Colégio abandonado (7).
O Padre Manuel Fernandes de Sá, na sua “Monografia de Paramos”, afirma em relação à actividade das Irmãs Jesus Maria José: “Para a abertura do Colégio foram enviadas 5 Irmãs. Leccionavam nele e, além disso, assumiram a responsabilidade do coro da Matriz e aulas de Catequese" (8).
Lê-se no livro “Rita Lopes de Almeida – Biografia Documentada”: “O zelo de Madre Rita estendia-se por toda a região, pela educação ministrada às crianças pobres e abandonadas e também às alunas. Isto é testemunhado não só pelas suas religiosas, como por outras pessoas e antigas alunas que a conheceram (9).
E acrescenta o Padre Sá:
“Esse óptimo Colégio, muito frequentado e destinado à educação da infância, exerceu salutar influência nas almas juvenis, tanto mais que, nesse tempo, a freguesia de Paramos não tinha escola primária” (10).
Estranhamente, no “Anuuário Eclesiástico da Diocese do Porto” de 1907 afirma-se que não há na freguesia escolas paroquiais, não se fazendo qualquer alusão ao Colégio e às Religiosas (na altura as Irmãs Jesus Maria José), nem se cita qualquer capela particular ao lado das duas capelas públicas ali referidas: N.ª Sr.ª da Guia e de S. João (11).


No entanto, segundo a Monografia citada, o colégio tinha uma espaçosa capela interna, com Santíssimo, onde se faziam anualmente exercícios espirituais, muito frequentados por senhoras de várias terras (12).
Quando da perseguição religiosa da República, com a expulsão das Irmãs e a confiscação de todos os bens da Igreja (decreto do Governo Provisório de 8 de Outubro de 1910), o Colégio foi encerrado e “o Santíssimo foi levado processionalmente para a Igreja, não entre cânticos, mas no meio de lágrimas e soluços” (13).
Algumas religiosas permaneceram nos arredores, semi-escondidas, continuando, na medida do possível, a prestar serviços na paróquia, particularmente na Catequese, uma vez que o P.e Conde, então vigário, continuou a dar-lhes todo o apoio.
Vendida a casa pelo governo, em hasta pública, a um comerciante de Oleiros, de nome Joaquim (14), este vendeu-a, pouco depois, a José Alves Vieira, proprietário, de Paramos, que em 1921 a passou por escritura de venda, a seu filho António Maria Alves Vieira, casado (1920) com D. Adília Sá, casal que ocupou o 1.º andar e que revestiu de ferros a escadaria artística central e colocou no torreão as iniciais A.M.A.V. 1925 e registos azulejados da Imaculada Conceição, do Coração de Jesus e de S. José, o que faz supor um manifesto respeito pelas duas Congregações que por ali passaram (15).
No prédio viriam a instalar-se, sucessivamente, a Junta de Freguesia, uma escola particular, duas salas do ensino oficial, uma guarnição militar (durante a Segunda Grande Guerra) e, posteriormente, um laboratório de análises (na parte mais alta) e um armazém de materiais.
Por falecimento de António Maria, o prédio passou para os seus cinco filhos (Berta, Albertina, Maria Augusta, Silvério e Arménio Sá). Desde há poucos anos o edifício pertence ao industrial de Tanoaria Martinho Dias, de Paramos.

Alguns dados sobre o Padre Conde
O Padre António Rodrigues Conde nasceu em 04/02/1868 na Rua da Fonte (actual Rua Alexandre Herculano), Ovar, filho de António Rodrigues Conde e de Rosa de Jesus Lopes dos Santos, sendo neto paterno de António Rodrigues Conde e de Mariana de Oliveira da Graça, e materno de José Rodrigues Duarte e de Maria Lopes dos Santos.
Padre António R. Conde
O seu processo de admissão a ordens sacras na Diocese do Porto (Habilitação de genere) data de 1890, recebendo o Presbiterado dois anos depois, e celebrando a sua Missa Nova na Matriz de Ovar em 10/8/1892.
Fundou, durante a sua paroquialidade em Paramos, a Pia União dos Filhos de Maria (1895), que durou poucos anos, a Pia União das Filhas de Maria (1895), a Agregação do SSmo. Sacramento (1915, na Coadjutoria do Padre Manuel Francisco de Sá), a Associação de Nossa Senhora de África (1920, na mesma Coadjutoria) a Associação de S. José (1922) e a Sociedade de S. Vicente de Paulo (1913, ainda existente).
Por carta régia de D. Carlos de 15/07/1900, foi apresentado como Pároco Colado da mesma freguesia, com provisões diocesanas de 28/08/1900 e 16/09/1900.
Dele afirmou o Bispo do Porto, Cardeal D. Américo: “Muito bom comportamento, habilitações e importantes serviços que tem prestado à freguesia de que se trata na sua qualidade de encomendado”.
Perseguido pela República, teve de abandonar temporariamente a paróquia (1911-1921), dedicando-se à pregação de missões populares (16).
Por motivos de doença cancerígena, deixou de paroquiar em Setembro de 1931, vindo a falecer em 18 de Novembro de 1932, “na sua casa de Paramos”, sendo sepultado no cemitério dessa freguesia, em jazigo de família (17).
Ao noticiar a sua morte, o “João Semana” de 24/11/1932, pela pena do seu Director, Padre Manuel Lírio, afirmava que o Padre Conde era um “distinto orador sagrado”, que em Paramos “fundou em tempos um colégio que dirigiu com notável proficiência, pois possuía assinalados dotes literários”, que “gastou a sua vida num largo apostolado da palavra de Deus, que fazia ouvir com agrado por essas freguesias da diocese onde frequentes vezes era chamado”, e que “teve de sofrer o exílio dos que desassombradamente davam testemunho da sua fé, nos tempos mais difíceis para a vida religiosa, após a mudança das instituições”.
A residência contígua ao colégio terá sido oferecida pela mesma benemérita Maria Maia de Jesus, para ali residir o Pároco após a República (18). Mas o Padre Conde viveu em casa própria, próxima do colégio, onde hoje se situa a Junta de Freguesia.

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Notas
(1) Sá, Padre Manuel Fernandes de, “Monografia de Paramos”, Figueira da Foz, 1973. Esta paroquiana cedeu uma parte da sua propriedade, no lugar da Junqueira, para a edificação do colégio e, posteriormente, uma outra parcela, contígua, para a construção da residência paroquial.
(2) Informação de Rosa Dias dos Santos (n. 28/05/1906 - f. 30/11/1994) Conta-se que um desses opositores afirmou que gostaria de ver o Padre com a língua cortada, e que, por coincidência, o Padre Conde se feriu pouco depois, na língua, ao cair da sua bicicleta…
(3) Que havia vontade de construir uma obra ainda mais grandiosa, prova-o a existência de pedras salientes nas paredes do lado norte, preparadas para um futuro prolongamento.
(4) Há quem afirme que no tempo das Irmãs Franciscanas era dedicado a N.ª Sr.ª da Conceição, só tomando o nome do Coração de Jesus com a chegada das Irmãs Jesus Maria José.
(5) Terão as Irmãs Franciscanas saído por pressões políticas?
(6) Dera-se recentemente a abertura do Noviciado da Congregação em Louriçal do Campo.
(7) Colégios abertos por Madre Rita: Gumiei (Ribafeita, Viseu), de 24/9/1880, data considerada como da fundação do Instituto JMJ, até 1882; Farejinhas (Castro Daire), de 1882 a 1890; Tourais (Seia, diocese da Guarda), 1890; Paramos (Espinho, de 1905 a 1910; Louriçal do Campo (Castelo Branco, de 1902 a 1910).
(8) Monografia cit., pág. 45.
(9) “Rita Lopes de Almeida – Biografia Documentada”, Viseu, 1996, pág. 259.
(10) Monografia cit., pág. 41.
(11) O mesmo Annuário cita o Colégio de Sanguedo, dirigido pela Associação de Santa Clara, que Rita frequentara pelos 30 anos.
(12) “Num determinado ano chegaram a 160 e, nos anos seguintes, pelo grande número de participantes, faziam-se por duas vezes” (Biografia Documentada, pág. 41).
(13) Monografia cit.
(14) Com confeitaria junto à Estação dos CF. de Espinho, actual Galeria Sabinos.
(15) O António Maria comprometeu-se a pagar às suas três irmãs as respectivas tornas.
(16) Foi um dos pregadores de uma associação de sacerdotes diocesanos (popularmente chamada “Vinagreira”) que realizavam missões nas freguesias, serviço esse em que ocupou o tempo em que esteve afastado da paróquia.
(17) O assento de óbito é assinado pelo Padre Manuel Francisco de Sá, seu antigo Coadjutor e substituto na paroquialidade. O registo civil de óbito, na repartição de Registo Civil de Espinho, tem o número 235, f.ª 128
(18) Em 1907, segundo informa a citada Monografia, havia residência paroquial e um Coadjutor, sustentado pelo Pároco, com a ajuda dos paroquianos.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (15 DE JUNHO DE 2006)

ENDEREÇO PARA COLOCAR NUMA BIBLIOGRAFIA
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/03/o-padre-antonio-rodrigues-conde_08.html

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