12.2.12

Recordando o Dr. Mário Cunha – Um grande médico e um grande humanista

Dr. Mário Cunha (1915-1989)
Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

O Dr. Mário – assim era conhecido entre nós – faz parte de uma geração de prestantes médicos da nossa cidade, numa época em que raramente um doente era tratado no hospital. (Só o era quando tivesse de submeter-se a uma cirurgia ou fosse portador de doença grave).
Médico distinto, o Dr. Cunha exerceu com humanidade a sua profissão, nunca se esquivando a ir a casa de alguém sempre que para isso a sua presença fosse solicitada, só não o fazendo por falta de saúde ou por outro motivo de força maior. (Algumas vezes veio a minha casa – próximo da sua – e às dos meus familiares a altas horas da noite, apenas vestido com um pijama e um roupão sobreposto).
Verdadeiro “médico de família”, não só tratava o doente como dialogava com ele, preocupando-se com a sua saúde.

Homem abnegado e crente
Um dia, minha mulher sentiu-se mal, e eu chamei-o a minha casa. O Dr. Mário examinou-a, receitou e despediu-se de nós. Por volta da meia-noite, quando todos dormíamos, fomos acordados por alguém a bater nos vidros da janela da rua. Levantei-me, e qual não foi o meu espanto ao ver o senhor Doutor a perguntar como estava a reagir a doente. Mandei-o entrar, e ele, depois de a ver de novo e de verificar as suas melhoras, retirou-se com um até amanhã, como alguém que se vai deitar com a consciência do dever cumprido.
Este gesto, a par de muitos outros similares demonstra bem a grandeza moral do homem e do médico que foi o Dr. Cunha, a quem, devido a este espírito humanista, alguém comparou ao Dr. João Semana.
Era um católico praticante. Encontrava-o algumas vezes na missa e via-o passar, incorporado na procissão dos Terceiros, com o seu hábito de franciscano, Ordem a que pertencia. No entanto, só fiquei a conhecer melhor a sua convicção religiosa quando, em Setembro de 1987, a convite do nosso saudoso amigo Sr. Delmar, eu e a minha mulher passámos férias na aldeia das Açoteias, no Algarve, onde o Sr. Dr. Mário possuía uma casa de férias e onde com ele convivemos durante quinze dias.

Na sala principal da Casa do Dr. Cunha há uma evocação da Sagrada Família.
IM I - Iniciais de Jesus Maria José
Foi um tempo inesquecível. Num Domingo, fomos todos à missa à igreja de Quarteira, e na segunda-feira fizemos praia na Falésia. Nesse dia, e como era habitual, o médico fazia a sua caminhada pela beira-mar. Durante o percurso, virou-se para mim, e disse: “– Ó Zé, tu ontem, na missa, sabias responder ao padre quando era preciso. Por isso, também deves saber rezar o terço! Enquanto caminhamos, vamos rezando! E assim fizemos! Lá seguimos o nosso caminho, a rezar um com o outro, beneficiados pelo regalo de uma maravilhosa brisa marítima… Isto demonstra bem a sua grande fé, confirmada por muitos dos seus doentes.

Uma história, entre tantas...
Ouvi dele também muitas histórias reais, que aconteceram ao longo dos anos na sua actividade profissional, algumas das quais hilariantes…
Refiro apenas uma delas, que ilustra bem essa faceta.
Uma paciente, de nome Rosa, já de provecta idade, vivia só, numa mansarda sem luz eléctrica, alumiada por um candeeiro de petróleo suspenso, a pouca altura, por um cadeado, no meio da sala, e por uma lamparina de azeite que servia também para alumiar um oratório.
Um dia, adoecendo, mandou chamar o Dr. Mário. Deixando a porta da rua encostada, meteu-se na cama e esperou pelo médico. Quando este chegou, empurrou a porta e perguntou:
 Posso entrar, Tia Rosa?
 Pode sim, Sr., Doutor! – respondeu, do seu leito, a doente. Ao entrar, resoluto, na sala, o médico bateu com a cabeça no candeeiro, que se apagou, ficando ele com um respeitável hematoma.
Sem perder a calma, e dirigindo-se à doente, diz-lhe:   Ó Tia Rosa, acenda uma vela, que eu estou ferido e às escuras!...
 Nunca mais me esqueço disto! – dizia-me o Dr. Mário.

Um consultório histórico
Nascido em 04/03/1915, e formado na Faculdade de Medicina de Coimbra em 1941, Mário Pereira de Carvalho e Cunha, que descendia de uma família de médicos, começou a exercer Medicina com seu pai, o Dr. Salviano Pereira da Cunha, no consultório deste, que mais tarde foi o seu, na casa da Rua Alexandre Herculano, onde hoje se encontra instalado o Centro Comunitário Espaço Aberto. Disse-me, há tempos, um conhecido médico especialista do Porto, muito seu amigo, que o consultório do Dr. Mário Cunha, em Ovar, era o mais bonito de quantos – e foram muitos! – conheceu.
O avô, Dr. António Pereira da Cunha e Costa (o Dr. Cunha), que morava à entrada do Lamarão, num prédio lá existente, junto ao Largo onde havia um chafariz e tem início a rua com o seu nome, exerceu medicina e foi um bom tocador de órgão, violoncelo e piano. Eça de Queirós, numa passagem do seu romance “A Capital”, refere-se à “soirée dos Cunhas”. Possivelmente esses serões musicais eram realizados nesse vetusto edifício.
Seu pai, Dr. Salviano, falecido em 1955, foi também um excelente médico e director clínico do Hospital da Misericórdia de Ovar (de 1940 a 1946).
Com toda esta ascendência ligada ao ramo da saúde, o Dr. Mário estava predestinado a seguir a mesma profissão, que honrou de modo notável e exemplar. Distinguiu-se ainda o Dr. Cunha em várias áreas do desporto. Não sendo tão famoso como o seu irmão Rui, atingiu, alguma notoriedade no futebol, primeiro no Sporting Club de Ovar, mais tarde no Aliança Foot-Ball Club e, em 1932, no grupo de honra da Associação Académica de Coimbra.
Praticou ainda a pesca desportiva e gostava muito dos desportos náuticos, passando algum do seu tempo na Ria.
Fez parte duma direcção do Fado Académico de Coimbra e presidiu à Junta de Turismo do Furadouro (de 1943 a 1945).
Médico distinto, desportista categorizado e cidadão exemplar, o Dr. Mário Cunha deixou-nos em 6 de Janeiro de 1989, dia em que Ovar ficou mais pobre.
A cidade não o esqueceu. Em 1993 a Câmara deu o seu nome a uma rua de Ovar, e em 25 de Julho de 1997 atribuiu-lhe, a título póstumo, e com toda a justiça, a Medalha de Mérito Municipal de Ouro.

Artigo publicado no jornal JOÃO SEMANA (1 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2012/02/recordando-o-dr-mario-cunha.html

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