9.2.12

O transporte da sardinha em Ovar nos anos 30 e 40

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2005)
TEXTO: José de Oliveira Neves

Até surgirem as indústrias em Ovar, na primeira metade do séc. XX, foi a agricultura e a pesca que mais contribuíram para a subsistência da sua população.
Muito se tem falado sobre a actividade piscatória na nossa costa do Furadouro, sabendo-se ter sido importante no princípio do referido século. Em 1906 já laboravam quatro companhas, e a fábrica Varina, sedeada na vila, inaugurara, no ano anterior, uma sucursal naquela praia, devido à grande quantidade de sardinha que ali se pescava.

Eram assim as lotas de sardinha no Furadouro no início do século XX
Nos anos 30 e 40 passei muito tempo no armazém de sardinha do meu avô (mais tarde dos meus tios), convivendo bastante com a azáfama da acamação do peixe em caixas ou em barricas, e via como se efectuava o transporte desse produto para a estação do caminho-de-ferro de Ovar, onde era despachada para várias terras do Douro, Beira Alta, Beira Baixa, Algarve, etc.
Nessa época, teve tanta importância o comércio da sardinha na nossa terra, e dava tanto trabalho à CP, que havia, junto à estação, um despachante exclusivamente destacado para esse serviço, que ele desempenhava numa barraca de madeira.
Cada mercantel possuía umas guias próprias, denominadas “Declaração de Expedição”, timbradas com o nome da firma, as quais, depois de preenchidas, eram entregues aos transportadores juntamente com a mercadoria, para, através delas, se fazerem os respectivos despachos.
Estrada do Furadouro nos anos 30 e 40
Recordo o nome dos homens que, em carros de bois ou carroças puxadas a cavalos, levavam o peixe desde o Furadouro até à Estação, através da velhinha estrada de piso muito degradado e irregular, poeirento no Verão e lamacento no Inverno, ladeada por enormes e frondosos eucaliptos.
Eram eles o Gris, o Pita, o Ti Zé Bolacha, o Ti Azóia (também conhecido por Regedor), o Noruega, o Belmiro, e outros mais que, sendo simultaneamente lavradores, faziam estes carretos como complemento da sua actividade normal.
O ti Bolacha, em cima da sua carroça, segurando as rédeas do cavalo, era uma figura muito engraçada. Sempre que passava por um grupo de jovens, batia com a mão na perna e exclamava: Viva mocidade!... (Muitas vezes recebia da boca dos rapazes, que gostavam de gracejar com ele, algumas respostas brejeiras!...)
Os homens que transportavam a sardinha do Furadouro para a estação do caminho-de-ferro de Ovar ficaram bastante ligados a este comércio, que foi importante para a economia da nossa terra até meados do séc. XX.
Ao recordá-los, estamos a fazer a história dos nossos antepassados e a lembrar aos mais novos uma actividade já extinta, mas que engrandeceu Ovar, levando o seu nome, marcado a fogo na madeira das caixas, através de muitas terras de Portugal.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Dezembro de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 150)


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