18.1.12

Ovar no culto de Fátima – Uma imagem histórica na Igreja Matriz

A 1.ª imagem que se fez de
Nossa Senhora de Fátima
(1920)
Jornal JOÃO SEMANA (01/07/2005)
TEXTO: Manuel Pires Bastos

No início da década 40, a Irmã Lúcia foi consultada pelas religiosas do Sagrado Coração de Maria sobre a forma como Nossa Senhora estava vestida durante as Aparições e, particularmente na de 13 de Junho de 1917, quando revelou aos pastorinhos o seu Coração Imaculado.

A 1.ª imagem de N.ª Sr.ª da Fátima (da Capelinha das Aparições) data de 1920, e é da autoria de José Ferreira Thedim, que a retocou em 1951. Há uma 2.ª imagem (da Virgem Peregrina), do mesmo autor, que data de 1947. Destas imagens se trata mais desenvolvidamente em "O Culto de Fátima no Concelho de Ovar", na revista "Dunas  Temas e Perspectivas", da Câmara Municipal de Ovar.
Sobre estes temas, e em especial sobre a imagem do Coração Imaculado de Maria, Ovar tem uma importante palavra a dizer. Tão importante quanto capaz de esclarecer alguns pontos ainda em aberto nesta matéria.


Pagela de 1943 com um desenho para uma nova imagem de Nossa Senhora de Fátima,
com parecer da Irmã Lúcia e que serviu de modelo para a Virgem Peregrina,
esculpida por José Ferreira Thedim 
(espólio de Manuel Cascais de Pinho, de Ovar)

Lúcia e o Coração Imaculado de Maria

A estampa/fotografia com as correcções
feitas pela Irmã Lúcia: a cruz (a indicar a
subida da mão direita), a cercadura à volta do
coração (no lugar dos espinhos) e o franzido
do vestido e do pescoço
Foram as religiosas da Congregação do Sagrado Coração de Maria que, em Setembro de 1942, após um retiro em Fátima, sensíveis às revelações do Coração Imaculado de Maria à vidente Lúcia “ correspondentes ao 2.º segredo de Fátima (13 de Junho e 13 de Julho de 1917, na Cova da Iria) e às revelações subsequentes (17/12/1927 em Pontevedra e 13/06/1927 em Tuy), descritas, sobretudo, na 3.ª Memória (de 31/08/1941), e querendo incrementar a devoção dos primeiros Sábados nos seus colégios “, assumiram a tarefa de investigar as particularidades iconográficas da imagem, sob a orientação de Madre Maria Chantal de Carvalhaes.
Pedindo informações à Irmã Lúcia sobre a forma como Nossa Senhora revelara o seu coração aos três pastorinhos, e após vários esboços feitos quer por religiosas, quer por um artista e por fotógrafos – estes utilizando como modelo a própria imagem da Capelinha das Aparições –, foi elaborada uma composição fotográfica que, depois de apreciada pelas autoridades religiosas (Setembro de 1943) e pela Vidente, esta corrigiu pelo seu próprio punho (tal como acontecera, anos antes, com a imagem da Capelinha), acompanhada das seguintes instruções escritas:
“A mão direita mais à altura do hombro como que reflectindo, ao mesmo tempo, para os assistentes. Do lado esquerdo, o manto caindo menos para diante. O Coração com os espinhos à volta. Nem o coração, nem as mãos, nem a imagem tinha raios, era luz, reflexo. Não tinha cordão, nem facha, mas formava sinto, com algum franzido no sinto e pescoço”.
Feito novo estudo, foi este enviado à Irmã Lúcia, que sobre ele deu o seguinte parecer em 29/12/43:
“Agradeço a fetugrafia; gostei, das que tenho visto são as que mais se aproximam da realidade”. (Apreciação semelhante à da estampa aqui reproduzida em 15/04/2005).
A edição definitiva das estampas chegar-lhe-ia às mãos em Abril de 1944.

A primeira imagem… está em Ovar
Entretanto, desejando colocar uma estátua do Imaculado Coração de Maria em cada um dos colégios da sua Congregação, e querendo que fosse o mais fidedigna possível em relação às indicações fornecidas pela Irmã Lúcia, Madre Chantal chamou a Lisboa o escultor José Ferreira Thedim (Neto) de S. Mamede de Coronado, que tinha executado, em 1920, a primeira imagem de N.ª Sr.ª do Rosário de Fátima (a da Capelinha das Aparições, alterada em 1951).
É neste período (1944-1945) que, com as informações disponíveis recolhidas pelas Religiosas do Coração de Maria, Thedim dá forma à primeira escultura do Imaculado Coração de Maria.
Na revista “Fátima C 50”, Ano II, n.º 23, de 13/3/1969, pág. 10 a 14, no artigo “Como surgiu a primeira Imagem do Imaculado Coração de Maria”, o então Reitor do Santuário, Mons. Antunes Borges dá a entender ser desconhecido o percurso histórico dessa imagem:
“Longa foi a expectativa, não chegando sequer a aparecer aquela primeira imagem que devia servir de modelo para todas as outras”.
Um enigma? Cremos que agora deixará de o ser!
A 1.ª escultura do Imaculado Coração de Maria, assinada
pela Casa França, existente, desde 1946, na Igreja Matriz
 de Ovar, já com as correcções pedidas pela Irmã Lúcia.
 (O escultor não teve em atenção o “franzido do cinto”)
[FOTO: Fernando Pinto]

Em 1946, ano do Tri-Centenário da Padroeira de Portugal, cujas comemorações tiveram eco em todo o país, a Paróquia de Ovar encomendou à Casa França, do Porto, a expensas de uma família vareira (família Cunha), uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, que substituiria a antiga imagem do Coração de Maria até então existente na Igreja Matriz e titular do altar que fora dedicado, em séculos passados, ao Espírito Santo e a N.ª Sr.ª do Pilar.
Afirma o jornal “João Semana” da época, então dirigido por um probo historiador local (o Padre Manuel Lírio), que “a nova imagem de Nossa Senhora de Fátima, com o coração segundo a revelação feita à Irmã Lúcia das Dores” (edição de 05/05/1946) é “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima” (edição de 25/07/1946).
Embora tendo, na base, a indicação “França esc. (escultores) Porto 1946”, essa imagem deve corresponder à executada por José Ferreira Thedim, não só pelas circunstâncias do tempo e da forma da sua concepção, mas também porque era normal as oficinas de comercialização de estatuária religiosa (como a Casa França e a Casa Estrela, do Porto), aporem o seu rótulo a obras que encomendavam a outros artífices [1].
Esta encomenda tê-la-á entendido o Artista como vantajosa, já que, satisfazendo o interesse da paróquia de Ovar, se ressarcia das despesas até aí havidas com o seu trabalho que, entretanto, ficara suspenso, em virtude da alteração iconográfica da imagem proposta pelas Irmãs do Coração de Maria.

Pormenor da 1.ª imagem do Imaculado Coração de Maria
[FOTO: Fernando Pinto]
Pintura a óleo da Irmã Henriqueta Malheiro
Vilas Boas seguindo as últimas sugestões
da Irmã Lúcia sobre a Aparição do Coração
Imaculado de Maria (1946)
Segundo refere o “João Semana”, essa imagem do Imaculado Coração de Maria foi solenemente coroada junto à Câmara Municipal de Ovar, em 12 de Julho de 1946, após “uma entusiástica saudação a Nossa Senhora feita pelo Pároco, Padre Crispim Gomes Leite, no seu trajecto da Capela de Santo António para a Igreja Matriz, onde ficou exposta à veneração dos fiéis. No dia 14, o Bispo do Porto D. Agostinho de Jesus e Sousa, que viera, na véspera, administrar o Crisma, presidiu a uma solene procissão eucarística, durante a qual, na varanda da Câmara Municipal, consagrou o concelho de Ovar ao Coração Eucarístico de Jesus e ao Coração Imaculado de Maria.

A segunda imagem

2.ª imagem do Imaculado Coração
de Maria de José Ferreira Thedim
(1947/48). Carmelo de Coimbra

Mercê de novas investigações e de novas informações da Irmã Lúcia, terá sido proposto a José Ferreira Thedim esculpir um novo modelo, de braços mais abertos, de aspecto mais sóbrio e comunicativo, na linha da figura que, em 1946, Madre Henriqueta Malheiro, também religiosa Doroteia, acabava de realizar na tela, apresentando-a como “a verdadeira imagem da aparição do Imaculado Coração de Maria, que a vidente de Fátima conservava profundamente gravada na sua viva e colorida imaginação”[2].

A nova estátua estava pronta em 1947, porque nesse ano há referências à “recente” maquete para a monumental estátua em mármore do Imaculado Coração de Maria, destinada à fachada da Basílica de Fátima e esculpida mais tarde (entre 1956 e 1958) em Itália pelo artista norte-americano Padre Thomas McGlynn, O. P. [CLIQUE NOS LINKS A AZUL]

O Padre Thomas McGlynn ultimando
a imagem do Imaculado Coração de Maria
A estátua existente no Carmelo de Coimbra, que lhe serviu de modelo, só em 1948, dois anos após a bênção da imagem de Ovar, é que foi entronizada ali, junto ao Penedo da Saudade, em Coimbra, passando a ser considerada o modelo oficioso – e, por isso, o mais divulgado – daquela invocação (foto em cima).
Retomemos a leitura do texto de Monsenhor Antunes Borges:
“Entretanto, a Irmã Lúcia deixava as Doroteias e entrava no Carmelo de Coimbra, em Quinta-feira Santa, pelas 5 horas da manhã do dia 25 de Março de 1948. Devia ser o Carmelo de Santa Teresa que acolheria a primeira estátua do Imaculado Coração de Maria, feita à luz de todos estes longos e meticulosos estudos, acrescidos apenas de pequenos e ulteriores dados, fornecidos pela Irmã Lúcia.”
Carece de ser corrigida esta conclusão, porquanto “aquela primeira imagem que devia servir de modelo de todas as outras” existiu e existe ainda, e nunca esteve desaparecida, como imaginava Mons. Borges. Apenas ficara de reserva, talvez por acabar, na oficina do escultor, até seguir para a Casa França, no Porto, e daqui para Ovar, em 1946.

Conclusão

A Irmã Lúcia em 1945, na pose
recriada em pintura, pela Irmã
 Henriqueta assinada em 1946
A imagem de Ovar, que o “João Semana” de 25/07/1946 identifica como “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima”, é, claramente, anterior à de Coimbra, como se pode inferir da cronologia apresentada no citado artigo de “Fátima 50”.
A imagem do Carmelo, mais tardia e mais elaborada, constitui a segunda versão escultórica do mesmo tema, apresentando novos pormenores figurativos entretanto aduzidos quer pela Irmã Lúcia, quer por interpostos artistas, através de esquissos, desenhos e pinturas.
Sem deixar de tecer elogios à beleza desta imagem, conhecida e venerada em todo o mundo cristão, vamos passar a nutrir um carinho especial por aquela que a antecedeu e que, humilde e quase rejeitada, mas também muito bela, foi acolhida com muito afecto pelo povo de Ovar, que a entronizou, em 1946, na sua Igreja Matriz.

José Ferreira Thedim,
autor da Imagem da
Capelinha das Aparições
(1920)
Foi durante uma pesquisa relacionada com a celebração dos 250 anos da Irmandade do Sagrado Coração de Jesus em Ovar e do Cinquentenário do Congresso do Coração de Jesus nesta cidade (1955), que encontrámos nas páginas amarelecidas do jornal “João Semana” de que somos Director, as referências históricas que tornaram possível, aqui e agora, comunicar a todos os amigos e investigadores de Fátima que a primeira imagem de N.ª Senhora “com o coração segundo a revelação feita à Irmã Lúcia das Dores”, que desde 1946 se julgava perdida, foi, finalmente, “encontrada”! Em 2005.
Em Ovar. Para proveito dos amigos e devotos de Fátima, que passam a conhecer um capítulo novo do culto ao Coração Imaculado de Maria. E para espanto dos próprios vareiros que, desde há 59 anos, a veneram e amam sem saberem a sua linda história.


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Notas:
[1] Cf. Sérgio de Oliveira e Sá, “Santeiros da Maia”, Maia, 2002, pág. 120.
[Sobre a autoria da 1.ª imagem leia o texto publicado em http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.pt/2014/05/ovar-possui-primeira-imagem-do.html]
[2] “Fátima 50”, artigo citado.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (1 de Julho de 2005)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 148)

Nota: Sobre alguns pormenores atualizados dos textos anteriores relacionados com o "Imaculado Coração de Maria", leia os seguintes artigos: 






Leia também este texto da autoria do Padre Manuel Pires Bastos,
publicado no n.º 6 da revista DUNAS (novembro 2006)



Trechos do livro "Os grandes fenómenos da Cova da Iria - A história da primeira imagem
de Nossa Senhora de Fátima", de Gilberto Fernandes dos Santos (edição de autor, 1956)
(ver capa do livro, em cima)

15 comentários:

Sérgio O. Sá disse...

Passei por aqui acidentalmente, pois desconhecia este blogue. Embora fora de tempo, julgo dever deixar quatro notas.
A 1ª para dizer que o tema do "Coração de Maria" vem dos séculos anteriores, como é sabido, tendo sido produzidos diversas versões tanto em pintura como em escultura. É, pois, provável que em Portugal outros especimenes existissem antes das imagens aqui referenciadas.
Relativamente à escultura com a indicação "França Esc.", deve ter sido mesmo da responsabilidade desse autor, o escultor Albano França, atendendo às linhas gerais da imagem (que, no entanto, não apresenta nada de novo), e não de José Tedhim (Neto), cujo tipo de trabalho se diferençava ligeiramente do daquele.
E quanto a Thedim (Neto) ser o autor da imagem da Cova da Iria, produzida em 1920, isso não é verdade. Ele foi apenas o seu executor (em três dimensões), para satisfazer uma encomenda da Casa Fânzeres, de Braga, que, para o efeito, lhe enviou um desenho do que viria a ser a obra hoje conhecida de todos. Todavia, esse desenho parece ter sido elaborado a partir de uma outra escultura (Srª da Lapa) inserta em catálogo da Casa Estrela. (V. B. Xavier Coutinho, Nossa Senhora na Arte).
Por fim, a foto do escultor Thedim. A foto que aqui é mostrada talvez seja de Guilherme Ferreira Thedim e não de seu irmão José Ferreira Thedim (Neto).
Com consideração,
Sérgio O. Sá

Fernando Pinto disse...

Caro Sérgio:
Antes de 1946, este altar era dedicado ao Sagrado Coração de Maria, cuja imagem atualmente se encontra na Capela do Furadouro.
Discordo com a sua interpretação, pois é certo que:
1- As Irmãs do Imaculado Coração de Maria encomendaram a José Ferreira Thedim, antes de 1946, uma imagem com as caraterísticas da de Ovar, indicadas pela própria Irmã Lúcia (que as representou através de gestos que foram registados em fotografia, imagem essa que deveria servir de modelo às esculturas seguintes, e que o Reitor do Santuário de Fátima, Padre Borges, afirma num texto que escreveu, ter desaparecido).
2- Quanto à imagem de Fátima de 1920, compreendemos que mais do que a pessoa de José Ferreira Thedim, deveria ter sido a Casa de José Ferreira Thedim a reproduzi-la, com os artistas de que o José Thedim seria o principal Mestre, o que me confirmou o seu sobrinho Manuel.
3- Na Revista “Dunas” nº. 6 (2006), da Câmara Municipal de Ovar, publiquei um texto em que historio a génese dessa imagem, copiada de uma Senhora da Lapa, saída num catálogo da especialidade, cedida pela Casa Fânzeres ao cliente que a consultou, levando-a ao Mestre José Thedim. (Padre Manuel Pires Bastos, Pároco de Ovar)

Luis Fânzeres disse...

Boa tarde.
O meu nome é Luís José Leite Teixeira Fânzeres, bisneto de Domingos Alves Teixeira Fânzeres, fundador da Casa Fânzeres em Braga, a qual foi responsável pela imagem de Nossa Senhora de Fátima.


Na verdade a Imagem de Nossa Senhora de Fátima ,foi feita na "nossa" Casa, tendo sido, isso sim, da responsabilidade de José Ferreira Thedim a escultura, a mando, repito, a mando da Casa Fânzeres, uma vez que o senhor Gilberto Fernandes dos Santos, a encomendou à oficina do meu bisavô, tendo sido executada uma primeira imagem da qual a Irmã Lúcia referiu que " imagem era bonita, mas que a SENHORA era ainda mais bonita", tendo-se o meu avô deslocado ao Carmelo de Coimbra na companhia de José Thedim, recolhendo informações junta da Irmã Lúcia, com as quais se elaborou a imagem que hoje está na Capelinha das Aparições.

Não querendo tirar a importância do escultor José Ferreira Thedim na elaboração da escultura da imagem, e doutras que elaborou para a Casa Fânzeres a pintura e douramento da Imagem de Nossa Senhora de Fátima ficou entregue à Casa Fânzeres, tendo o meu avô acompanhado a entrega da mesma, que foi de comboio de Braga até à estação de Albergaria dos Doze, tendo seguido depois numa carroça tapada por palha, por causa da GNR, uma vez que na altura a Igreja era bastante perseguida pelo Estado.

Paula Mendes disse...

Depois de ver os comentarios aqui, percebi pela primeira vez o porque das 2 fotografias que possuo da atelier de escultura de meu bisavô e tio avô, respectivamente Jose da Silva França (santeiro, assim se chamava porque não frequentou a Escola de Belas Artes)e seu filho Albano da Silva França (escultor, pois ja se formou na escola de belas artes do Porto) que também fez os anjos do Santuario de Fátima, e outras peças.De facto a Casa França não era exclusivamente uma casa que vendia santos, pois tambem tinha atelier de escultura e na certidao de nascimento de meu avô, refere-se a profissao do meu bisavô Jose da Silva França como escultor(nessa altura provavelmente ainda não se distinguia a profissao de santeiro e escultor) assim como o padrinho de meu avô foi Jose Fernandes Caldas, que foi tambem santeiro sendo o filho escultor Jose Sousa Caldas. De facto existem 2 fotos pequenas antigas, (em que os negativos são do tamanho das proprias fotos) do atelier de escultura da Casa França. Achei sempre estranho porque embora enorme a colecção de fotos de meu avô poucas são de interior e poucas de pessoas e como meu avô seguiu a profissao de advogado nunca percebi o seu interesse pelas 2 fotos. Ao procurar pelo nome de meu tio Albano, irmão de meu avô Olivio deparei-me com este blogue, pela primeira vez se fez luz, pois as fotos provavelmente tem a sua razao de ser se algumas das esculturas tivesse algum significado. De facto aparece uma nossa senhora não posso publicar aqui a foto mas se quiser enviar-lhe-ei com marca de água, a foto não tem muita qualidade pois é de interior e esta escura, só a digitalização em qualidade permite ver com clareza.
Atenciosamente
Mª Paula França Macedo da Cunha Mendes

Fernando Pinto disse...

Caríssima Paula
Sem contar, sinto-me feliz por poder estar em sintonia convosco na partilha dos feitos artísticos das famílias Fânzeres, Thedim e França no que toca ao culto de Fátima, e particularmente no que diz respeito à imagem do Imaculado Coração de Maria na Paróquia de Ovar, a primeira esculpida em Portugal sob as indicações da Irmã Lúcia, tema que já tratei profusamente na Internet (ver “Ovar no Culto de Fátima”).
Embora assinada como “França esc. Porto 1946”, e reconhecendo a categoria de Albano França e da sua equipa de trabalho, entendo que a imagem de Ovar é a mesma que foi encomendada a José Ferreira Thedim pelas Irmãs do Sagrado Coração de Maria após as revelações de Lúcia acerca do Imaculado Coração de Maria (devoção dos primeiros sábados e consagração do mundo ao Imaculado Coração), tendo-se Thedim deslocado para tal a Lisboa entre 1944/1945 para falar com a Madre Maria de Chantal, Doroteia, com ela combinando os pormenores recebidos de Tuy, Espanha, da Irmã Lúcia, com quem se correspondia pelo menos desde 1942.
Após ter sido feito um desenho-esboço apresentado à vidente e por esta corrigido, foi o mesmo entregue ao escultor, que iniciou a obra (1945/1946).
Por essas diligências com José Ferreira Thedim, acha-se normal que tenha sido este o executor da imagem, até pela rigorosa semelhança da postura da imagem de Ovar com a do esboço que foi corrigido por Lúcia e apresentado ao escultor.
Porque, entretanto, uma doroteia, Irmã Henriqueta, pintou, em 1946, um quadro a óleo sobre o mesmo tema, e porque as Irmãs do Sagrado Coração de Maria gostassem mais da sua interpretação, propuseram a Thedim que este elaborasse uma nova versão da imagem, o que o fez abandonar a primeira, talvez ainda incompleta.
Estas delongas levaram Monsenhor Borges, Reitor do Santuário de Fátima, a escrever: “Longa foi a expectativa, não chegando sequer a aparecer aquela primeira imagem que devia servir de modelo para todas as outras”. (“Fátima 50”, ano II, n.º 23, de 13/3/1969, págs. 10 a 14).
É natural que, passados mais de 20 anos, o Reitor ignorasse que no Ano dos Centenários (1946), por devoção da família Cunha, de Ovar, a Paróquia vareira tinha pedido ao Bispo do Porto uma licença (dada em 08/06/1946) para adquirir uma imagem concentrando as duas devoções: “Senhora de Fátima e Coração de Maria – segundo a revelação de Fátima”.
Essa imagem, que foi entronizada na Igreja de Ovar em 12 de julho de 1946, era, segundo afirma o jornal “João Semana” de 25/7/1946, “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima”, é a que fora rejeitada para dar lugar à segunda versão da imagem que viria a ser oferecida ao Carmelo de Coimbra em 1948, pouco tempo depois de Lúcia ali ter entrado, e que, pela sua beleza, passaria a ser o modelo preferido das imagens do mesmo título. Entretanto, a imagem “rejeitada” não se perdeu. Através da Casa França, que a terá adquirido, talvez inacabada a José Thedim, veio parar a Ovar, podendo assim satisfazer rapidamente o desejo da família Cunha, com vantagens para todos.
Não vejo que o escultor Albano França tivesse tempo e os dados precisos para fazer uma imagem tão de acordo com os pormenores fornecidos pela Irmã Lúcia e que estão bem patentes na imagem de Ovar.

Quanto às fotografias de que fala, seria bom enviar-mas (por e-mail manuelpiresbastos@sapo.pt) para tentar perceber a que se referem.

Padre Manuel Pires Bastos,
Pároco de Ovar

Paula Mendes disse...

Ex.mo Sr. Padre Manuel Pires Bastos

Tenho andado a pesquisar na net informação sobre a Casa França(por interesse familiar,sou bisneta de Jose França, santeiro e pai de Albano França, escultor, mas sou neta de um irmão de Albano França) deparei-me com este texto na net http://cultura.revues.org/338 sobre a iconografiada da Senhora de Fatima . Olhando para as fotos que tenho estas não poderiam ser dos anos 40, teriam de ser bastante mais antigas. Como referi a larga colecção de fotografias de meu avô permite-me situar a altura das fotografias pela evolução do formato. Tenho varias do mesmo tamanho pertencentes aos anos 20. O que é interessante é que no documento que referi acima diz "Juntamente com a imagem que seria a oficial, seguia uma esculturinha mais pequena,“de 0,30 d’alto”, a primeira imagem doméstica de Nossa Senhora de Fátima(19)" De facto as 2 fotos são uma de uma imagem grande de nossa Senhora e outra igual mais pequenina. As fotografias que possuo da colecção de meu avô não deixam duvidas de serem dos anos 20. Enviar-lhe-ei por email as 2 fotos com marca de agua e a forma como facilmente se identifica a data destas.
Atentamente
Mª Paula França Macedo da Cunha Mendes

Fernando Pinto disse...

Caro Luís,
No seu texto há alguma confusão no que diz respeito às imagens da Capelinha de Fátima e do Imaculado Coração de Maria.
a) A primeira imagem (1920), encomendada por Gilberto Fernandes dos Santos à Casa Fânzeres, foi executada pelo santeiro José Ferreira Thedim, que utilizou como modelo uma imagem de um catálogo da Casa Estrela (Nossa Senhora da Lapa, retirando-lhe dois anjos e o Menino Jesus que estavam sob os seus pés numa nuvem). Concluída a escultura, esta seguiu para Braga para ser encarnada pela Casa Fânzeres, seguindo dali para Fátima (1920) nas circunstâncias curiosas que Gilberto Santos conta em livro que publicou em 1956. Essa imagem, que não agradou totalmente às religiosas, viria a ser retocada em 1951 pelo próprio José Ferreira Thedim, depois da execução, mais criteriosa, de duas novas interpretações da Virgem de Fátima, de que a seguir se trata.

b) Imaculado Conceição de Maria
Em 1944, as Religiosas do Sagrado Coração de Maria encomendaram a José Ferreira Thedim uma imagem do Imaculado Coração de Maria segundo as novas revelações de Lúcia, então já religiosa doroteia em Espanha. Depois de ir a Lisboa recolher os dados que Lúcia mandara de Tuy às religiosas do seu Instituto, Thedim fez a imagem - “a primeira esculturada em Portugal” com esse título -, mas que não agradou às Irmãs, que lhe pediram uma segunda versão, seguindo os pormenores de uma pintura feita em 1946 pela doroteia Irmã Henriqueta. Enquanto executava essa segunda versão, que viria a ser oferecida ao Carmelo de Coimbra após a Irmã Lúcia ali ter entrado em 25/03/1948, a primeira imagem, que ficara abandonada em casa do artista, terá sido requisitada pela Casa França, que a terá ultimado e cedido à Paróquia de Ovar, em cuja Matriz foi entronizada em 12 de julho de 1946.
Por despacho do Bispo do Porto, de 8 de junho do mesmo ano, foi permitido que a anterior imagem do altar do Coração de Maria de Ovar (hoje na Capela do Furadouro) fosse trocada “por outra maior e melhor, que concentre as duas devoções na mesma imagem: Senhora de Fátima e Imaculado Coração de Maria (Arquivo Paroquial de Ovar, jornal “João Semana”, 25/07/1946 e “Poalhas da História da Freguesia e Igreja de Ovar”, de José Ribeiro de Araújo - 1952).

c) Imagem Peregrina
Desde 1922 Lúcia vinha manifestando algumas reservas sobre a postura da imagem da Cova da Iria. Por 1943, quando começou a ser conhecido o culto ao Imaculado Coração de Maria, surgiu um movimento interessado em encontrar um retrato mais simples e mais fiel da Senhora de Fátima, corrigindo alguns pormenores das vestes da primeira imagem (de 1920). Do diálogo persistente entre o Mestre José Thedim e as religiosas nasceram esboços que mereceram a aprovação de Lúcia, sendo José Thedim uma vez mais o escolhido para a execução da escultura que viria a ser conhecida como Imagem Peregrina (1947), que percorreu Portugal e o Mundo.

Padre Manuel Pires Bastos,
Pároco de Ovar e Diretor do jornal "João Semana"

Fernando Pinto disse...

Em 1929 foi esculpida por José Ferreira Thedim uma imagem de N.ª Sr.ª do Rosário de Fátima para a capela do mesmo nome, na freguesia de Macieira de Alcoba (S. Martinho), do concelho de Águeda. Colaboraram na sua feitura dos seus irmãos Manuel, Guilherme e Amadeu. Tem as mesmas medidas da imagem da Covas da Iria (e com as características que esta manteve até 1951-1952). Foi despachada pelo artista em 12/01/1930 (caminho de ferro Matosinhos - Águeda), para a referida capela em 05/06/1930, antes da aprovação oficial do culto de Fátima (no documento da bênção só se referem “a cruz, bandeira e paramentos da mesma capela” (Mons. João Gaspar, “Macieira de Alcoba”).
Em relação ao texto que refere o estudo mais pormenorizado sobre a escultura da Casa França em “Memórias. Sinais. Afeto”, pág. 155, poderá haver correspondência entre essa imagem, datada de 1945 (Nossa Senhora de Fátima, Paróquia de S. Martinho), e a de 1929, de Macieira de Alcoba, dos irmãos Thedim.

M. P. B.

Sérgio O. Sá disse...

já lá vão quase dois anos que passei pela primeira vez por este blogue, acreditando poder aqui ter deixado algo de positivo relativamente ao tema ou temas em questão.
À parte a fotografia retratando José Ferreira Thedim, que passou a substituir a de seu irmão Guilherme, a minha opinião sobre a imagem do Sagrado Coração de Maria, ao culto na paróquia de Ovar, não passou disso mesmo, porquanto não conheço a referida escultura.
Volto aqui, como da primeira vez, quase por acaso, e reparo que esta página já vai longa. Ainda bem, sinal de que a questão despertou interesse. E despertou. Para mim não só pelas dúvidas ou certezas que levanta, mas também por registar nomes de descendentes de famílias directamente ligadas a casas/oficinas de arte sacra: a Casa Fânzeres, de Braga, e a Casa França, na cidade do Porto. Fico feliz por verificar que, desaparecidas essas grandes firmas, para as quais cheguei, directa ou indirectamente a trabalhar, no tempo da minha juventude, ainda haja quem a elas se mantenha íntima e dignamente ligado.
Posto isto, e prestando atenção aos novos comentários que entretanto aqui surgiram, oferece-me dizer o seguinte:
a)- Corroboro as afirmações do Sr. Luís Fânzeres relativamente à responsabilidade directa da Casa Fânzeres, à qual fora feita a encomenda da imagem que vemos na Capelinha das Aparições, em Fátima. No entanto, quando o Sr. Luís Fânzeres diz «a imagem de Nª Sª de Fátima foi feita na "nossa" Casa», acrescentando, depois, que a escultura foi da responsabilidade de José Ferreira Thedim, o Sr. Luís, sem o desejar, certamente, deixa no ar alguma confusão.
Penso, porém, saber o que ele pretende dizer, confrontando a sua afirmação com o que guardo na memória, ainda que já algo toldado pelo passar do tempo, mas que poderá contribuir, espero, para avivar a luz que possa aclarar o que aqui se diz.
Domingos Teixeira Fânzeres - que terá nascido, penso, depois do meu bisavô José de Oliveira e Sá, um dos introdutores da "arte santeiral" na região da Maia - a par da prática empírica que foi desenvolvendo, terá passado pela então Escola Portuense de Belas Artes, onde adquiriu os conhecimentos indispensáveis ao cabal desempenho da sua profissão. Na década de TRINTA do século XX admitiu na sua oficina vários artífices e artistas oriundos da Maia, entre eles o escultor Altino Maia, que tinha a função de elaborar modelos para serem reproduzidos em tamanhos maiores.
Foi esse mesmo escultor Altino Maia, que há mais de uma década nos deixou, a contar-me que Teixeira Fânzeres terá feito um desenho a partir da estampa da Srª da Lapa inserta no catálogo da Casa Estrela, desenho esse que passou a acompanhar a encomenda da Casa Fânzeres a José Ferreira Thedim.
A ter sido assim, de facto a matriz da imagem de Nª Srª de Fátima - desenho - que partira da Srª. da Lapa, é da Casa Fânzeres, tendo sido José Ferreira Thedim (ou a sua oficina) apenas o executante da imagem a todo o vulto.
b)- Quanto às alterações da indumentária e ao desaparecimento das sandálias, em 1951, na dita imagem, isso ficou a dever-se segundo constou, ao arbítrio do santeiro.
Cumprimentos.
Sérgio O. Sá

Fernando Pinto disse...

Ainda bem que o Sérgio passou de novo pelo blogue do jornal “João Semana”, trazendo mais uma centelha a clarear a génese da primeira imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima. Gilberto Fernandes dos Santos, um jovem que aos 25 anos que assistiu às duas últimas aparições de Fátima, conta no seu precioso livro “Os grandes fenómenos da Cova da Iria e a história da primeira imagem de Nossa Senhora de Fátima” (Braga, maio de 1966) que decidiu oferecer em 1919 uma imagem de Nossa Senhora para ser colocada no nicho da capelinha construída com as esmolas dos peregrinos.
Não tendo encontrado em Lisboa uma imagem que o satisfizesse, acrescenta: “Depois de ter entrevistado os três Videntes, escrevi para a “Casa Fânzeres”, da cidade de Braga, encomendando uma imagem de madeira, de 1.ª qualidade, de um metro de altura, esculturada conforme os detalhes devidamente anotados na minha carta, pedindo-lhe que fizesse primeiramente uma maquette e que ma mandasse para minha aprovação, ou reprovação, sobre algum detalhe que acaso não estivesse bem”. (“Os Grandes Fenómenos”, pág. 51)
Sérgio O. Sá afirma que o escultor Altino Maia lhe disse que terá sido o escultor Domingos Teixeira Fânzeres quem, utilizando a estampa de Nossa Senhora da Lapa, inserida no catálogo na Casa Estrela, do Porto, fez o desenho que acompanhou a encomenda da imagem feita ao Thedim (José Ferreira Thedim), “por ser o escultor que, na ocasião, melhor trabalhava para aquela casa”. Será este Domingos Teixeira Fânzeres o “proprietário” da Casa Fânzeres que, segundo Gilberto, ordenou ao escultor Thedim que fizesse a ‘maquette’ e a respetiva escultura?
Gilberto conta ainda que, entretanto, estando de visita a Braga o Padre Dr. Manuel Nunes Formigão (“Visconde de Montelo”), de Santarém, e sabendo do interesse pela encomenda da imagem, confirmou na Casa Fânzeres as informações ali chegadas, “iguais às que os videntes a todos forneciam”. (“Os Grandes Fenómenos”, pág. 32).
Feita a maquette em barro, foi esta enviada ao Gilberto que, notando nela algumas falhas, se deslocou a Braga e, seguidamente, à oficina Thedim, “a fim de melhor explicar a alteração a fazer” (alguns detalhes do manto), tendo o cuidado de pedir ao artista que, rezasse uma Ave Maria a Nossa Senhora, para que ELA lhe desse habilidade para que a escultura ficasse bem feita e o mais linda possível”. (“Os Grandes Fenómenos”, pág. 53)
A José Ferreira Thedim coube, por isso, a honra de orientar o trabalho escultural definitivo da imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima que, seguiu para a oficina Fânzeres, em Braga, e ali foi encarnada, seguindo depois, por caminho-de-ferro, até Torres Novas, donde foi levada para casa dos pais de Gilberto F. Santos, donde partiu de madrugada, dias depois, em cima de um carro de duas rodas, puxado por uma muar, para a residência paroquial de Fátima e dali para a Igreja onde foi vista pelo Pároco e por Lúcia, tendo ela notado que “tudo estava muito bem imitado; mas que Nossa Senhora era ainda mais bonita”. (“Os Grandes Fenómenos”, pág. 60)

Padre Manuel Pires Bastos
Ovar, 27 de setembro de 2014

Sérgio O. Sá disse...

Sim, Domingos Teixeira Fânzeres era o "proprietário" e fora o fundador da Casa Fânzeres, como, aliás, seu bisneto Sr. Luís Fânzeres testemunha.
Respeitosos cumprimentos.
Sérgio O. Sá

Luís José Leite Teixeira Fânzeres disse...

Boa tarde.
Tudo o que eu disse aqui , foi transferido por testemunho direto de meu avô Américo Alves Teixeira Fânzeres, filho de Domingos Alves Teixeira Fânzeres, fundador das Oficinas Casa Fânzeres em Braga.
No entanto, devo por pura honestidade intelectual ressaltar o seguinte:
Com efeito foi José Ferreira Thedim, o responsável pela peça peça escultórica da Imagem de Nossa Senhora de Fátima. No entanto ,e como foi comentado em alguns posts neste blog, é verdade que o Mestre Thedim foi acompanhado com o meu avó, Américo Fânzeres, mostrar à Irmã Lúcia, no Carmelo de Coimbra 1ª imagem da Santa, tendo a beata Lúcia comentado: A Imagem é linda, mas a senhora é muito mais bonita, pelo que com ajuda da irmã Lúcia, se procederam a algumas alterações, das quais se concluiu a primeira Imagem da Virgem de Fátima.
Após o brilhante trabalho escultórico de mestre Thedim, toda a parte de pintura e douramento foi realizada nas Oficinas Casa Fânzeres, à qual tenha sido encomendada.
Assim, segundo mail recebido pelo Serviço de Estudos e Difusão | Santuário de Fátima, datado de 13 de Dezembro de 2013, passo a citar:
"O Santuário de Fátima está ciente de que a Imagem resulta de uma encomenda feita à Casa Fânzeres e
que o responsável desta importante casa comercial de imaginária a deu a fazer a José Ferreira Thedim,
que a esculpiu. Era a forma habitual de proceder no início do século. A Casa Fânzeres, como saberá
ainda melhor que eu, não prescindia de pintar as esculturas, o que aconteceu também com a Imagem
encomendada por Gilberto Fernandes dos Santos, um devoto de Torres Novas que quis dotar a Capelinha das Aparições de uma imagem para o culto. Tudo aconteceu durante o ano de 1919 e os inícios do ano seguinte.
Foi o Bisavô de V. Ex.a que policromou a Imagem, como se lê no nosso ‘site’ a propósito do estudo
científico que estamos a levar a cabo. É precisamente do ‘site’ que retiro a informação que a seguir
transcrevo:
«A escultura de Nossa Senhora de Fátima, da autoria de José Ferreira Thedim (1 8 9 2 -1 9 7 1 ), criada em 1 9 2 0 para veneração na Capelinha das Aparições , é uma peça de vulto redondo, com 1 0 3 7 mm de altura, talhada em madeira de cedro do Brasil,com aplicação de policromia, douramento e carnaç ão pela Casa Teixeira Fânzeres , de Braga. Encontra-se em bom estado de
conservação e está amplamente documentada, desde o ano em que foi concebida até ao presente. Esta Imagem é um dos mais importantes símbolos do Catolicismo, atraindo ao Santuário de Fátima milhões de peregrinos por ano, entre eles os mais importantes dignitários da Igreja, como são os Papas .» http://www.santuario-fatima.pt/portal/index.php?id=63958

Segundo informação retirada da página dos Servitas de Fátima, pode-se constatar o seguinte;
Princípio de Maio: chega a Torres Novas, a casa de quem a ofereceu -de seu nome Gilberto Santos- a imagem de Nossa Senhora do Rosário de Fátima que se venera na Capelinha das Aparições, sendo proibido pelo Administrador do Conselho de a levar para Fátima. Com cerca de um metro de altura (1,05 m) e pintada a óleo, foi esculpida em cedro do Brasil, pelo então jovem escultor da Casa Teixeira/Fânzeres, em Braga, José Ferreira Thedim; que a fez depois de interrogar Lúcia sobre o aspecto da Senhora (ler nota do ano de 1937: -5 de Dezembro). Em 1951, a imagem foi restaurada pelo próprio escultor; e retocada nos anos de 1971, 1979, e 1984.
Atenciosamente Luís Fânzeres

Sérgio O. Sá disse...

De novo de passagem por este blogue para, numa leitura apressada, me parecer encontrar alguma eventual imprecisão relativamente aos contactos de José Ferreira Thedim (neto) com a Irmã Lúcia.
Em 1920 Lúcia era uma humilde rapariguinha, com 13 anos de idade. Terá sido nessa altura "incomodada" pelo escultor e pelo Sr. Fânzeres, em sua casa?
José Ferreira Thedim tê-la-á visitado em Coimbra, mas em meados da década de QUARENTA, altura em que a Irmã Lúcia dera entrada no Carmelo local. Nessa ocasião andava o escultor a contas com a imagem do Imaculado Coração de Maria.
Cordiais cumprimentos.
Sérgio O. Sá

Fernando Pinto disse...

Respondendo a Luís Fânzeres
Há que clarificar duas imprecisões de interpretação:
1 – No que toca à primeira imagem (a da Capelinha, de 1920), não foi José F. Thedim que pediu esclarecimentos à Lúcia, então com 13 anos, mas sim o ofertante da imagem, Gilberto Fernandes dos Santos, como o próprio conta no seu livro “Os Grandes Fenómenos de Fátima”, pág. 51, como aqui referi em 27/09/2014.
2 – A ter havido o encontro de Lúcia com Thedim (e Américo Fânzeres), no Carmelo de Coimbra, ele só poderá ter acontecido, como refere Sérgio Sá, depois de 25/03/1948, data da entrada da Vidente no Carmelo daquela cidade e deverá ser relacionado com a Imagem do Coração Imaculado de Maria, como se infere neste extrato de uma carta de Lúcia (de 1178/1949): “A imagem do Coração Imaculado de Maria não consegui ver que se fizesse senão após a minha vinda para o Carmelo. Todas as dificuldades desapareceram como por encanto e após apenas o tempo preciso para o Escultor a fazer (…)”. (“Um Caminho Sob o Olhar de Maria”, 2013, pág. 352)
Essa imagem, chegada a Coimbra no primeiro aniversário da entrada da Irmã Lúcia no Carmelo, (25/03/1949), o que aconteceu três anos depois da chegada a Ovar da Imagem com o mesmo título (12/07/1946), teve uma primeira versão, decerto em 1948, que não agradou totalmente à Religiosa, e que hoje se encontra no Carmelo de Braga.
A imagem mais antiga do Imaculado Coração Maria, que teve a colaboração de José Thedim, a pedido das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, é a que se encontra na Igreja Matriz de Ovar desde 12 de julho de 1946, que o jornal local “João Semana” da época (24 de julho de 1946) refere como sendo “a primeira que em Portugal se esculturou segundo as indicações da vidente de Fátima”, e que está assinada com “França, Esc. Porto 1946”, o que prova ter sido feita (ou pelo menos acabada) pela Casa França, cujo proprietário era o escultor Albano França, autor dos dois anjos da fachada do Santuário de Fátima.

Com os meus cumprimentos,
Padre Manuel Pires Bastos
Ovar, 6 de maio de 2016

Fernando Pinto disse...

(...) um jovem que aos 25 anos assistiu às duas últimas aparições de Fátima (...)

Correção. Ver comentário de 27.9.14