29.12.11

Obras a “bom ritmo” na Casa-Museu Júlio Dinis

Jornal JOÃO SEMANA (15/12/2011)
TEXTO: António Ferreira Valente

Após sete anos e sete meses de encerramento ao público da Casa-Museu Júlio Dinis, em Ovar, de que eu fui o último “monitor”, estão ali a decorrer, a “bom ritmo”, obras de reconversão que, na minha maneira de ver, constituem graves agressões ao imóvel do século XIX.
Começou logo pela demolição do compartimento contíguo à cozinha, espaço que fazia parte integrante da mesma, e que continha, até ao momento do encerramento, um acervo museológico da época. Existem divergências sobres este espaço, mas ele já existia quando das fotografias publicadas na revista “Serões” de fevereiro de 1906, tiradas pelo Dr. Antero Figueiredo, quando do seu contacto, nesta casa, com D. Maria Zagalo, prima do Dr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis).
Casa onde morou o escritor Júlio Dinis
Devia ter sido evitada esta solução, que resulta em transformações irreversíveis em toda a configuração da Casa-Museu.
Mais grave é que o novo edifício que está a ser edificado, de arquitetura moderna, ocupa parte do compartimento que, entretanto, foi demolido, passando a constituir a entrada direta na cozinha da Casa-Museu, criando nos visitantes um impacto negativo pela envolvência de construções do séc. XIX e do séc. XXI).
O objetivo da intervenção que desde há muito tempo se impunha, deveria ter sido reavivar o aspeto da Casa-Museu Júlio Dinis, evitando-se o acrescento de novos edifícios com ligação direta à Casa, conforme está a acontecer, e integrá-la dentro das características tipológicas que marcam a arquitetura do Largo dos Campos, onde ela se insere, respeitando um dos raros imóveis do século XIX.
Estranhamente, a cota do edifício que está a ser edificado é superior à área útil da Casa-Museu, o que provoca um total esmagamento, emparedando a ligação da Casa ao quintal, área importante no contexto museológico, dada a sua ligação ao romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Nas cartas do Dr. Joaquim Guilherme (Júlio Dinis) podemos encontrar algumas das vivências que teve neste espaço exterior, não só nas suas horas de confortável repouso, como nas idas ao poço, colaborando com a prima Maria (na altura com 20 anos de idade), no escutar o canto do rouxinol, ou no contacto precioso com o jornaleiro José Travanca, da Ponte Reada, que lhe proporcionou a inspiração da personagem José das Dornas, do romance “As Pupilas do Senhor Reitor”.
Com a edificação deste novo edifício, desaparecerá lamentavelmente toda a relação do espaço com a ruralidade, elementos que deveriam ser tidos em conta no projeto.
É verdade que, depois da obra pronta, quando for a sua inauguração com a habitual “pompa e circunstância”, tudo à volta parecerá bonito aos presentes, mas os visitantes mais atentos e conhecedores da história desta Casa, esses irão sofrer um impacto negativo.
Aqueles que, após a visita no interior da Casa, estavam habituados, ao saírem da cozinha, a apreciar o espaço exterior vivido por Júlio Dinis, jamais terão essa ligação direta ao quintal e ao tanque, parte importante do acervo e do ambiente dinisiano.
Através da expropriação que levou a efeito com o caráter de urgência para avançar com o projeto, a edilidade perdeu a oportunidade de adquirir a área suficiente a sul do tanque (acervo museológico). É bom lembrar o belo exemplo da intervenção na Casa Camilo Castelo Branco, onde uma nova edificação não foi fator perturbador, não criou desequilíbrios.
Constitui desagrado para mim a intervenção que está a decorrer no interior da Casa-Museu, e que penso não se coadunar com os princípios de “manutenção” do antigo edifício de forma a travar a sua decadência. O soalho em tábua pregada, completamente apodrecida, tal como os rodapés e outros elementos, foram retirados na sua totalidade, e até aí tudo bem.
As paredes de toda a casa foram picadas, do meio até ao rodapé, com exagerada profundidade, e tanto esta como a zona do soalho foram preenchidas por betão.
O reboco de cimento, através de uma armadura interna em vara de ferro, em todas as paredes da Casa-Museu, irá, futuramente, agravar o problema da humidade, que resulta do exterior. A cota do piso subiu em relação à época, e não foi feita uma drenagem adequada na zona envolvente. Aqui residia à causa do problema, que depois se transferiu para as paredes da Casa.
A recuperação tem de respeitar o existente, tem de salientar o edificado antigo, e não adulterá-lo, como infelizmente aconteceu.
A aplicação deste material (betão) é incompatível com a construção do século XIX, e pode provocar a degradação rápida. Foi um erro não terem reposto o reboco de cal, brando e poroso, sem qualquer adição de cimento.

Casa-Museu Júlio Dinis em obras

Estas obras que estão a decorrer a “bom ritmo” implicaram, até ao presente, alterações profundas no edifício existente, alterando os aspetos estruturais (interior e exterior do imóvel) e espaciais que os caracterizavam.
Questiono: A GIESPAR será conhecedora da profundidade desta intervenção na Casa-Museu Júlio Dinis, e se a mesma colide ou não, sob todos os aspetos, com as histórias e as vivências que ela guarda?

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de dezembro de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 147)


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Casa-Museu Júlio Dinis merecia melhores acessos

O artigo publicado no “João Semana” de 15 de dezembro último [texto anterior] pelo nosso colaborador António Ferreira Valente, particularmente a referência a “transformações irreversíveis em toda a configuração da Casa-Museu”, despertou o interesse de alguns leitores. Mas também o acesso principal à casa, pela viela a nascente, exígua e descontextualizada, deixa muitas dúvidas quanto às expetativas criadas à volta de uma obra que deveria ser emblemática.

Na foto, à esquerda, veem-se os diversos módulos acrescentados às traseiras da casa original, com frente para a Rua Júlio Dinis e Largo 5 de Outubro (Jardim dos Campos). À direita, uma casa cujo 1.º andar ocupa metade da dita viela.

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