29.12.11

Diamantino Santos – 40 anos ao serviço da música

Jornal JOÃO SEMANA (15/01/2011)
TEXTO: Joaquim Santos

Diamantino Santos
Conhecendo o Diamantino como os dedos das minhas mãos, sabíamos bem lidar um com o outro. Homem de metro e oitenta e cinco centímetros de altura, com pouca carne em cima dos seus ossos e menos sete costelas, fez quase tudo e mais alguma coisa até à sua morte. Contudo, não chegou onde queria.
Vou falar um pouco da vida de Diamantino Júlio dos Santos. Mas, afinal, quem era, e de quem? Filho de gente modesta e honrada na vida, Diamantino veio, com poucos meses de idade, da praia do Furadouro para o Alto de Saboga, junto à antiga cadeia.
Foi crescendo e, de repente, chegou a hora de ir para a catequese e para a escola primária, a Escola do Castelo (onde hoje é o Palácio da Justiça em Ovar), onde iria aprender a ler e a escrever, tendo como mestre o velho Patrício, um bom professor, que nessas décadas pedia aos alunos ricos para darem aos pobres.
Diamantino não foi mau aluno, mas, como era filho de gente pobre e não tinha a ajuda de ninguém, teve mesmo de ficar só com a 4.ª classe.
Ao sair da escola retomou o trabalho, para que um dia pudesse vir a ser alguém na vida.
Um dia, Diamantino e um colega de trabalho, Salviano Pinto, resolveram ir aprender música. Contactaram, em 1953, António Roma da Silva Capoto, no Largo dos Combatentes, e em 11 meses, a 28 de Março de 1954, ficaram aptos para cumprirem a sua tarefa de músicos, tocando clarinete incorporados na Procissão dos Passos. Poderiam ter ido longe na música estes dois jovens, que permaneceram amigos, quer no trabalho quer fora dele.
Diamantino casou, a 23 de Agosto de 1959, na Igreja Matriz de Ovar, com uma moça do Torrão do Lameiro, sendo muito bem recebido pelas gentes do lugar, onde fez muitas amizades e onde colaborou no Coral da Capela, grupo que vinha das mãos da família Adelino Matos.
A partir deste trabalho realizado na Capela, e com a colaboração de algumas pessoas do lugar, resolveu formar um grupo de rapazes e raparigas que, mais tarde, deu origem ao rancho “As Morenitas do Torrão do Lameiro”. Em 1960, tendo em cima das suas costas e no fundo dos seus pés uma carga de trabalhos, que conciliava com o seu labor profissional de torneiro mecânico, Diamantino lá ia andando, sempre cheio de alegria. Na flor da idade, nada o fazia temer. Até que, em 1962, por motivo de doença pulmonar, teve de ser internado no hospital do Monte da Virgem, em Vila Nova de Gaia, onde perdeu várias costelas. Mesmo assim, não se deixou ir abaixo. Querendo que o seu trabalho iniciado neste lugar não parasse, pediu-me para ficar à frente do rancho com outro colega, até que o seu estado de saúde melhorasse. Eu, embora com pouca prática e poucos conhecimentos de música, aceitei o encargo. E o que é certo é que, com a força de vontade de todos, o rancho nunca parou. E quando o Diamantino regressou, vieram também ideias novas, e o rancho conseguiu ir mais longe.
Em Março de 1970, sentindo que as andanças que tinha não chegavam para ocupar os seus tempos livres, decidiu criar um conjunto típico, formado por ele e por mais sete ou oito figuras, grupo esse que durante 23 anos de actividade obteve bons sucessos nas suas actuações de norte a sul do país, e até no Canadá (1976 e 1979) e em França (1984).
Este sucesso fez com que o Diamantino fosse tendo cada vez mais gosto no seu trabalho e não se ficasse só por aqui. A prática na vida artística e os conhecimentos culturais adquiridos proporcionaram-lhe a participação, com o rancho “As Morenitas”, em dezenas de festivais de folclore nacionais.

Um homem de projectos

Diamantino Santos
Juntamente com vários colegas e povo do lugar, fundou, em 1978, a Associação Desportiva e Cultural do Torrão do Lameiro, e, entretanto, ensaiou vários grupos, lançou trupes de reis com músicas e letras da sua autoria, e deu aulas de música no lugar.
Durante 40 anos, Diamantino foi um homem de projectos, que punha em cima da mesa de trabalho perante os outros colegas, sempre em benefício da terra vareira, destacando-se na organização dos Festivais de Folclore Pró-Emigrante de 1988 a 1993, e do Festival da Canção de Ovar nas festas da cidade de 1989 a 1993, tendo sido dos primeiros homens a organizar a “festa dos marretas” na praia do Torrão do Lameiro, e chegando a reger a Música Nova de Ovar.
Mesmo tendo de remar contra a maré, nunca virou a cara às entidades oficiais, quer às ligadas ao folclore, quer à Câmara Municipal, Turismo, Junta de Freguesia, INATEL…
Diamantino não foi ídolo, mas por onde passou deu provas de que era um homem para fazer mais e melhor tanto na sua carreira como em prol dos outros.
Caindo de cama devido a uma mazela num pé, não deixou, mesmo assim, de dar aulas de música a jovens do lugar, morrendo agarrado às notas de música em 20 de Abril de 1994.
Diamantino Santos pertencia a uma geração descendente de pescadores e doutores, tendo, nos anos de 1900, três segundos tios ao serviço da música na Banda de Espinho.

Conjunto Típico “Os Marinheiros”, do Torrão de Lameiro
Fico-me por aqui. Não peço nada a ninguém, mas seria bom lembrar a quantos lidaram com ele que façam justiça à sua memória. Por tudo aquilo que ele fez ao serviço da cultura portuguesa durante quarenta anos, presto-lhe a minha melhor e merecida homenagem.

Texto lido pelo autor por ocasião da homenagem que lhe prestaram o Grupo Folclórico “As Morenitas” e o Conjunto Típico “Os Marinheiros”, do Torrão de Lameiro, em 21 e 22 de Abril de 2007 no Salão da Capela do Torrão de Lameiro e no Jardim do Cáster.

Artigo publicado no quinzenário ovarense
JOÃO SEMANA (15 de Janeiro de 2011)
http://artigosjornaljoaosemana.blogspot.com (TEXTO N.º 146)

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